Após ser derrotado nas eleições por Lula e descumprir ordem judicial para entregar seus passaportes em meio a investigações por lavagem de dinheiro, o senador Flávio Bolsonaro fugiu para os EUA. A travessia terrestre ocorreu via Argentina, de onde seguiu em jato particular viabilizado por assessor da Casa Branca. Na Flórida, Flávio recebeu autorização temporária de entrada sob a gestão Trump, alegou perseguição política e contestou o pleito, tensionando a diplomacia entre Washington e Brasília.
O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado nas eleições presidenciais do último domingo, 25, está na Flórida com uma autorização temporária de entrada concedida por ordem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e provavelmente receberá residência permanente posteriormente, segundo autoridades americanas.
Flávio fugiu do Brasil após perder a eleição para o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por 51,79% dos votos válidos contra 48,21%. Agentes de imigração dos Estados Unidos permitiram que ele e sua família entrassem no país sob o regime conhecido como parole, uma autorização temporária geralmente concedida por razões humanitárias, depois que desembarcaram em Miami em um jato particular na manhã de quarta-feira, segundo uma autoridade americana ouvida naquele dia.
O jato foi providenciado por um funcionário da Casa Branca. Na tarde de quarta-feira, 28, Trump afirmou que Flávio havia recebido um "passe" para entrar no país.
A Casa Branca e o Departamento de Estado encaminharam ao Departamento de Segurança Interna os questionamentos sobre a autorização de entrada de Flávio e o envolvimento de Trump. O órgão afirmou que o senador e sua família "foram recebidos e inspecionados pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, de acordo com as leis e procedimentos de imigração aplicáveis".
Um registro público do governo americano sugere que Flávio apresentou um passaporte diplomático brasileiro cancelado ao chegar aos Estados Unidos, segundo análise do The New York Times. O documento menciona um número emitido no Brasil que, de acordo com informações públicas, está vinculado ao passaporte diplomático do senador.
O Departamento de Estado informou, por meio de um representante, na terça-feira, que pretendia emitir vistos para Flávio e sua família, permitindo a entrada deles no país. A Casa Branca deu a mesma informação naquele dia, citando uma autoridade do governo.
Como funciona a autorização de entrada nos EUA
O governo americano concede o status de parole a pessoas por "razões humanitárias urgentes ou benefício público significativo", segundo um site oficial. A autorização permite que uma pessoa permaneça nos Estados Unidos enquanto é "tratada como requerente de admissão", informa a página.
A expectativa é que Flávio solicite, em algum momento, a residência permanente nos Estados Unidos, conhecida como green card, segundo uma autoridade americana. Normalmente, isso ocorreria após a concessão de um visto de imigrante. O pedido de Flávio seria analisado de forma acelerada, assim como ocorreu anteriormente com o de seu irmão mais novo, afirmou a autoridade.
As autoridades falaram sob condição de anonimato por se tratar de assuntos diplomáticos delicados.
O ex-deputado federal, Eduardo Bolsonaro (PL), irmão mais novo de Flávio, mora no Texas e mantém vínculos próximos com o governo Trump. Ele recebeu a residência permanente em julho. Embora o processo costume levar anos para a maioria dos imigrantes, Eduardo obteve aprovação acelerada, segundo uma autoridade americana.
Viagem foi organizada após ordem para entrega de passaportes
Flávio deixou o Brasil depois que a polícia brasileira determinou, na segunda-feira, que ele entregasse seus passaportes, em razão de uma investigação sobre um esquema de lavagem de dinheiro.
Embora Flávio, senador de direita que ocupa cargos eletivos há mais de duas décadas, não tenha sido formalmente acusado de nenhum crime, ele perderá a imunidade parlamentar no início de 2027, após a derrota na eleição presidencial de domingo. A partir de então, poderá ser processado em relação a diferentes investigações criminais.
Na noite de terça-feira, 27, Flávio voou da Argentina para o Equador, onde o avião fez uma parada para reabastecimento, antes de seguir para Miami. Todo o trajeto foi realizado em um jato particular providenciado por Jason Miller, assessor de comunicação da Casa Branca, segundo uma pessoa a par da logística da viagem.
Eduardo Bolsonaro mantém contato com Miller. O plano começou a ser colocado em prática na segunda-feira, depois que Flávio recebeu a determinação para entregar seus passaportes, afirmou a fonte.
Miller, que ocupa o cargo de funcionário especial do governo americano, recusou-se a comentar. A Casa Branca limitou-se a citar declarações públicas de Trump, que não trataram do uso do jato particular. O The Wall Street Journal havia noticiado anteriormente o envolvimento de Miller. Aliado da família Bolsonaro, ele afirmou ter sido detido brevemente durante uma visita ao Brasil em 2021.
Flávio se declara líder legítimo após chegar aos EUA
Depois de desembarcar em Miami, Flávio se autoproclamou líder legítimo do Brasil. Pouco depois das 9h30 de segunda-feira, Flávio foi visto desembarcando de um pequeno jato em um aeroporto privado nos arredores de Miami, acompanhado da família. O grupo entrou em um SUV escuro logo após deixar o aeroporto, protegido por guarda-chuvas.
A viagem ocorreu em meio a um período de 24 horas de intensa movimentação, durante o qual autoridades e jornalistas de diferentes países tentaram descobrir onde Flávio estava e como chegaria aos Estados Unidos. O senador atravessou a fronteira com a Argentina na noite de terça-feira, antes de cruzar a América do Sul no avião particular.
Em uma longa declaração publicada nas redes sociais na tarde de quarta-feira, Flávio afirmou que deixou o Brasil por enfrentar perseguição política e agradeceu a Trump e ao presidente da Argentina, Javier Milei.
Inicialmente, apresentou-se como o "presidente eleito legítimo" do Brasil, mas apagou a publicação e divulgou uma nova versão, substituindo a palavra "presidente" por "líder". "Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como líder do Brasil", declarou.
Sem apresentar provas confiáveis, alegou que a eleição que perdeu havia sido fraudada e que era alvo de uma "caça às bruxas" promovida pelo Judiciário brasileiro. O apoio da Casa Branca a Flávio pode agravar as tensões entre os governos de Trump e Lula, que acusou o presidente americano de interferir nos assuntos internos do Brasil.
Questionado sobre Flávio na quarta-feira, Trump afirmou: "Nós lhe demos permissão para entrar no país, então vamos ver. Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, isso é certo."
Na quinta-feira, Trump se recusou a dizer quem considerava o vencedor legítimo da eleição. Afirmou que não havia tomado partido na disputa porque Lula lhe pedira que se abstivesse de fazê-lo. "Achei que a eleição foi um grande constrangimento para o povo do Brasil", declarou.
Neste ano, o Departamento de Estado, comandado pelo secretário Marco Rubio, adotou medidas em relação ao Brasil após pressão de Flávio e Eduardo Bolsonaro, segundo reportagem do The New York Times. Os dois são filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre uma longa pena em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Flávio reconheceu a derrota na eleição desta semana, mas usou uma mudança no horário de votação de domingo para exigir a anulação do resultado.
A alteração no horário, porém, afetou apenas 0,03% dos votos. As autoridades eleitorais brasileiras afirmaram que a medida não teve impacto no resultado, considerando a vantagem de 4,4 milhões de votos de Lula. Observadores internacionais independentes atestaram a integridade da eleição, e dezenas de países reconheceram o resultado. Estados Unidos e Argentina não estão entre eles.
Na declaração de quarta-feira, Flávio reiterou suas críticas. Também insistiu que Lula havia utilizado indevidamente recursos públicos para vencer a eleição, citando a decisão do presidente de aumentar o valor de um benefício social na reta final da campanha. O governo Lula afirmou que o aumento correspondia a uma correção inflacionária atrasada.
Travessia pela Argentina e investigação sobre passaportes
Flávio atravessou por terra a fronteira entre Brasil e Argentina na noite de terça-feira, acompanhado da mulher e das duas filhas, informou na quarta-feira a Diretoria Nacional de Migração da Argentina. Segundo o órgão, ele embarcou depois em um voo particular para Guayaquil, no Equador, de onde seguiu para os Estados Unidos.
Na segunda-feira, as autoridades brasileiras determinaram que Flávio entregasse seus passaportes em até 24 horas, em razão de investigações sobre suas ligações com um advogado brasileiro acusado de lavar mais de US$ 1 bilhão por meio de um esquema envolvendo apostas online.
Em outra investigação, Flávio é investigado pela polícia por milhões de dólares que arrecadou para financiar um filme biográfico sobre seu pai. Os recursos teriam sido fornecidos por um banqueiro desacreditado, envolvido em um grande esquema de corrupção.
Como Flávio não entregou os passaportes até a manhã de terça-feira, as autoridades brasileiras cancelaram os documentos e emitiram um alerta aos órgãos de imigração para impedir sua saída do país. Não está claro como ele conseguiu atravessar a fronteira com a Argentina.
A Polícia Federal brasileira informou que não havia registro oficial da saída de Flávio do País. Em comunicado, a corporação também afirmou que as restrições de viagem impostas ao senador não o tornavam necessariamente um foragido nem justificavam sua prisão. A polícia informou que está "investigando as circunstâncias relacionadas ao descumprimento das ordens judiciais por parte do senador".
A polícia federal argentina também afirmou não ter registrado a entrada de Flávio no país. As autoridades migratórias da Argentina, no entanto, informaram que o senador e sua família entraram em território argentino às 22h50 de terça-feira. Eles viajaram em uma van pela chamada "Ponte da Fraternidade", que liga Foz do Iguaçu, no sul do Brasil, a Puerto Iguazú, na Argentina.
A região atrai muitos turistas por causa das grandes cachoeiras localizadas na fronteira. Cerca de 40 minutos depois, Flávio e sua comitiva embarcaram em uma aeronave da Baires Fly, empresa privada que já transportou Milei anteriormente.
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