Brasil não terá carne de laboratório em breve, ao contrário do que sugerem vídeos nas redes

NÃO HÁ PERSPECTIVA DE COMERCIALIZAÇÃO DO PRODUTO NO PAÍS; TECNOLOGIA AINDA ESTÁ EM FASE DE PESQUISAS PARA PRODUÇÃO EM LARGA ESCALA

23 set 2026 - 16h37
Resumo
São enganosos os vídeos que afirmam que a carne de laboratório chegará em breve ao mercado brasileiro. Apesar de investimentos de empresas do setor em pesquisa biotecnológica, a comercialização da proteína cultivada não é iminente. A produção em larga escala ainda enfrenta desafios técnicos, de viabilidade econômica e a necessidade de rigorosos testes de segurança e aprovações regulatórias. Portanto, ainda não há previsão de venda, preço definido ou substituição da carne convencional no Brasil.

O que estão compartilhando: vídeos afirmam que o Brasil vai começar a vender carne feita em laboratório. As publicações citam investimentos de grandes empresas do setor alimentício e apresentam a carne "artificial" como uma tecnologia que estaria prestes a chegar à mesa dos brasileiros.

Carne de laboratório ainda não é vendida no Brasil, ao contrário do que sugerem vídeos nas redes sociais
Carne de laboratório ainda não é vendida no Brasil, ao contrário do que sugerem vídeos nas redes sociais
Foto: Reprodução/Facebook / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Os vídeos usam informações verdadeiras sobre pesquisas, investimentos e iniciativas relacionadas ao desenvolvimento de tecnologias para produção de proteínas cultivadas. Mas enganam ao fazer parecer que a proteína cultivada já estaria chegando ao mercado brasileiro. Ainda não é possível fazer afirmações sobre preço, segurança e possível substituição da carne convencional pela de laboratório, como fazem os vídeos analisados.

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Saiba mais: A chamada carne de laboratório é uma proteína cultivada produzida a partir de células que são retiradas de animais e multiplicadas em ambiente controlado. O objetivo é formar tecidos com características semelhantes às da carne convencional, como textura, sabor e composição.

A produção em larga escala ainda é um desafio. É preciso conseguir multiplicar as células em grandes volumes e manter as condições necessárias para o cultivo, além de chegar a um custo que torne a produção economicamente viável.

Segundo Viviane Nunes, pesquisadora e professora do curso de Biotecnologia da Universidade de São Paulo (USP), a comercialização da carne cultivada exige que o produto passe por avaliações de segurança e pelos procedimentos regulatórios previstos para novos alimentos no Brasil. "Primeiro, a gente faz testes de segurança em escala laboratorial, e, depois, controles e validações em escala industrial", afirmou. "É preciso verificar se essa carne não está contaminada por bactérias, fungos ou vírus, além de avaliar possíveis alterações celulares, sua composição nutricional, a presença de resíduos químicos no produto final e o risco de reações alérgicas."

A pesquisadora destacou que, até o momento, não há evidências disponíveis de que produtos devidamente avaliados e aprovados façam mal à saúde humana, embora os dados sobre seu consumo ainda sejam limitados. Ela ressaltou que cada produto precisa ser analisado individualmente. "Há um estudo conjunto da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) que concluiu que muitos dos riscos relacionados ao consumo da carne cultivada são semelhantes aos encontrados em outros alimentos, como a contaminação microbiológica e a presença de resíduos químicos", explicou.

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Algumas das empresas citadas nas publicações que circulam nas redes sociais são a JBS e a BRF, que mantêm iniciativas relacionadas ao desenvolvimento de novas formas de produção de proteínas. Neste ano, a JBS inaugurou em Florianópolis a JBS Biotech Innovation Center, centro de pesquisa voltado ao desenvolvimento de biotecnologia de alimentos e nutrição de precisão. Na Espanha, a companhia adquiriu participação majoritária da BioTech Foods, especializada em proteína cultivada.

Em posicionamento enviado ao Estadão Verifica, a JBS afirmou que a atividade na Europa "ainda depende de aval regulatório e de escala para viabilidade econômica". A empresa também informou que "não há produto à venda no mercado nem previsão de quando isso vai ocorrer".

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