Segundo cientista político da UnB, os Bolsonaro tornaram-se moeda de troca para Donald Trump pressionar o governo Lula, apesar do desgaste da direita com a fuga de Flávio Bolsonaro. Embora a vitória de Lula tenha provado internacionalmente que a extrema direita pode ser derrotada na disputa digital e nas urnas, o movimento trumpista manterá sua influência e recursos para exercer vigilância sobre o Brasil, usando a família derrotada como instrumento estratégico de barganha bilateral.
Na avaliação do professor de Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB), uma interferência americana capaz de alterar o resultado da eleição brasileira já não está mais em questão. Lula foi reeleito e a disputa foi encerrada nas urnas. O foco agora é outro: a tentativa de Trump de transformar os Bolsonaro em instrumento de pressão permanente sobre o governo brasileiro.
Ao analisar a repercussão da fuga de Flávio Bolsonaro, Ramalho nota que o desgaste atingiu inclusive setores da direita que apostavam nele como alternativa para reorganizar a oposição. Entre os decepcionados estão lideranças que esperavam uma postura diferente do senador diante das investigações.
Ramalho cita o caso de Rogério Marinho, líder da oposição no Senado e coordenador-geral da campanha presidencial de Flávio. Segundo o professor, mesmo evitando ataques públicos, dirigentes conservadores demonstram frustração com a decisão do senador de deixar o país.
Para Ramalho, o dano político vai além dos círculos partidários.
"Gente como Rogério Marinho, por exemplo, procurou não atacar nem nada, mas muito claramente ficou frustrada com a fuga. Esperava um mínimo de coragem e hombridade para honrar os votos que recebeu dos seus eleitores aqui. E muitos desses votantes, muitos desses 60 milhões de brasileiros, hoje estão envergonhados com esse fato. Como é que dedicaram confiança a uma pessoa que se comporta dessa maneira? Trump vai se afastar gradualmente, mas vai manter a pressão, vai manter o apoio à família Bolsonaro. Por quê? O que interessa a ele é manter o Brasil meio que sob um jugo, sob uma vigilância."
Segundo o professor, os Bolsonaro continuam úteis à estratégia da Casa Branca, não como uma alternativa real de poder no Brasil, mas como uma ferramenta de pressão diplomática e política sobre o governo Lula. Ele vê a família como uma espécie de ativo político que pode ser mobilizado sempre que interesses americanos estiverem em jogo na relação bilateral.
"Há uma frustração do ponto de vista do governo Trump, porque não conseguiu dominar todo o continente com governos subservientes. Então, nessa reorganização política, vai interessar os Bolsonaro, são uma moeda de troca. Apoiá-los e protegê-los é um instrumento de pressão sobre o governo brasileiro."
Momento 'extraordinário'
Na avaliação de Ramalho, o Brasil produziu um fato político que transcende suas fronteiras: mostrou que uma rede internacional de extrema direita, apoiada por recursos financeiros, tecnologia e estruturas de comunicação altamente organizadas, pode ser derrotada. Não apenas nas urnas, mas também na disputa pela opinião pública. É essa experiência que, segundo ele, desperta interesse em outros países confrontados com desafios semelhantes.
"O que aconteceu aqui no Brasil foi extraordinário. As mesmas ferramentas utilizadas pela extrema direita para manipular a opinião pública, para instigar a polarização e criar bolhas foram compreendidas por lideranças políticas brasileiras, que fizeram uso dessas ferramentas para ocupar esses espaços com mensagens progressistas, legalistas, em defesa do Estado de Direito e das liberdades individuais."
O Brasil mostrou que é possível disputar esse espaço. Isso não tinha acontecido em nenhum outro lugar. Por isso, essa experiência vem sendo acompanhada com interesse por forças políticas de diferentes países que enfrentam dilemas semelhantes diante do avanço da extrema direita.
"Na Espanha isso já está acontecendo. No México isso está acontecendo. Na Sérvia aconteceu algo parecido. Na Índia aconteceu. Então algo diferente está acontecendo, e o êxito desse movimento aqui no Brasil, da maneira como foi pacífica, está sendo percebido em outras partes do mundo como um exemplo a ser seguido", destaca.
Para Ramalho, seria precipitado concluir que o avanço da extrema direita entrou em refluxo. O que existe, na sua avaliação, são sinais de reação em diferentes países, ainda insuficientes para indicar qual dos campos sairá fortalecido nos próximos anos.
"A beleza do momento que a gente está vivendo, e ao mesmo tempo o drama associado a ele, é isso: nós estamos vendo a história se desenrolar na nossa frente. E ela não tem um ponto de chegada antecipado. Vai depender do que as pessoas fizerem com essas informações, com esses movimentos e com essas emoções nas próximas semanas", afirma.
Para ilustrar essa incerteza, ele recorre a uma comparação histórica.
"É como o período que marcou a queda do Muro de Berlim. Todo mundo tinha consciência de que era um momento histórico. As coisas estavam acontecendo, mas ninguém sabia para que lado aquilo ia. É exatamente isso que nós estamos vendo agora."
A derrota da família Bolsonaro nesta eleição não deve ser interpretada como o fim da capacidade de influência da extrema direita. Na avaliação de Ramalho, os grupos articulados em torno de Trump seguem dispondo de recursos financeiros, apoio empresarial e instrumentos tecnológicos suficientes para continuar exercendo pressão política em diferentes países, inclusive no Brasil.
"Que o governo Trump sai enfraquecido, ninguém tem dúvida. Fracassou em realizar aqui no Brasil as mudanças que conseguiu levar a efeito em outros países. Ele não vai desistir. Esse pessoal não trabalha em silêncio, tem muito dinheiro, tem muito interesse, e vai manter essa pressão."
Num cenário em que Lula iniciará o novo mandato diante de um Congresso no qual a oposição mantém forte presença, o professor da UnB acredita que os Bolsonaro continuarão úteis à estratégia republicana, ainda que de forma diferente daquela imaginada por seus apoiadores.
Nesta quinta-feira (29), Trump classificou as eleições presidenciais brasileiras como uma "vergonha" e afirmou ter acompanhado o processo, embora tenha negado ter tomado partido. Questionado sobre quem seria o vencedor legítimo da eleição, evitou responder, mas voltou a criticar o resultado e afirmou que os mercados reagiram negativamente.
Para Ramalho, a reação de Trump demonstra que os Bolsonaro seguem sendo um ativo político para o trumpismo. Mas, sem o controle de estruturas de poder e sem o mesmo acesso a redes de influência e financiamento no Brasil, o valor estratégico de Flávio e Eduardo Bolsonaro tende a diminuir aos olhos do presidente americano.