O padre que se tornou o primeiro pastor evangélico brasileiro

Chamado de 'padre louco' e 'padre protestante' por outros padres e fiéis, José Manuel da Conceição (1822-1873) abandonou o sacerdócio e se converteu ao presbiterianismo — virando hoje símbolo de liberdade de escolha religiosa.

13 jan 2026 - 07h21
O pastor José Manuel da Conceição, em imagem de autor desconhecido, no século 19: 'Eu estava destinado ao sacerdócio, mas a leitura da Bíblia e os meus contatos com os protestantes tornaram-me um mau candidato'
O pastor José Manuel da Conceição, em imagem de autor desconhecido, no século 19: 'Eu estava destinado ao sacerdócio, mas a leitura da Bíblia e os meus contatos com os protestantes tornaram-me um mau candidato'
Foto: Domínio Público / BBC News Brasil

Há 160 anos, pela primeira vez, uma pessoa nascida no Brasil se tornava pastor evangélico.

Para além desse marco, o pregador presbiteriano José Manuel da Conceição (1822-1873) teve uma biografia e tanto: foi padre católico, passou a ser hostilizado por sua simpatia com o protestantismo e chamado de "padre louco" e morreu em desgraça no dia de Natal.

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Hoje, Conceição é visto como um símbolo da liberdade de escolha religiosa e a data de sua ordenação como pastor em 1865, 17 de dezembro, tornou-se o Dia do Pastor Presbiteriano.

Mas como essa trajetória incomum, de padre católico e pastor evangélico, começou?

Inspiração em tio que era padre

José Manuel da Conceição nasceu em uma família católica da cidade de São Paulo — seu pai era um imigrante português que ganhava a vida como pedreiro, sua mãe era neta de açorianos.

Eles se mudaram para Sorocaba, no interior paulista, quando o futuro pastor tinha apenas 2 anos.

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"O menino cresceu em ambiente de devoção católica, mas um catolicismo popular, baseado em práticas ritualísticas e não em formação teológica mais profunda", conta à BBC News Brasil o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Conceição tinha um tio-avô que era padre, com quem aprendeu a ler e a escrever — cultivando também o desejo de seguir o sacerdócio.

Nos anos 1840, voltou para São Paulo para estudar teologia.

Na mesma época, ainda antes de se tornar padre, envolveu-se em atividades católicas na Fazenda Ipanema, área próxima à cidade de Sorocaba onde funcionava a Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema — também chamada de Fundição Ipanema, siderúrgica onde trabalhavam diversos imigrantes europeus.

Ali, acabou conhecendo famílias de fé protestante, na maioria ingleses e alemães, e demonstrou ficar impressionado com a maneira como eles se dedicavam à fé aos domingos e como eram ávidos leitores da Bíblia.

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Ficou muito amigo de um médico dinamarquês que vivia no povoado — e com ele aprendeu geografia, história e alemão.

Segundo Gerson Leite de Moraes, provavelmente foi neste momento, no contato com os europeus, que Conceição começou a se aproximar do protestantismo.

'Padre louco'

José Manuel da Conceição passou a ser acusado de ser iconoclasta, aquele que se opõe à veneração de imagens — uma postura que se aproxima do protestantismo
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mesmo assim, antes da conversão definitiva para o protestantismo, Conceição começou a se formar para ser padre.

Mas a historiadora e antropóloga Lidice Meyer afirma que, já durante essa preparação para o sacerdócio, Conceição começou "a ter questionamentos sobre algumas doutrinas do catolicismo, como o celibato".

"O contato com estrangeiros de origem protestante o levou a refletir sobre a vivência da religião no protestantismo, com mais leitura e estudo da Bíblia, contraposta à religiosidade católica existente no Brasil do século 19", comenta a historiadora, professora na Universidade Lusófona, em Lisboa.

Em 1845, Conceição foi ordenado padre católico. A Igreja decidiu enviá-lo então para Limeira, no interior paulista.

Logo ele chamou a atenção por sua postura um tanto heterodoxa.

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O jovem padre não parecia muito preocupado com o rigor dos rituais e era um grande incentivador da leitura bíblica, praxe então vista como mais comum aos protestantes.

Gerson Leite de Moraes conta haver relatos de que, certa vez, uma paróquia sob comando do padre iria substituir as imagens dos santos e Conceição teria sugerido que as antigas podiam ser quebradas e enterradas, o que foi visto como sinal de desrespeito por católicos mais fervorosos.

Passou a ser visto como iconoclasta, aquele que se opõe à veneração de imagens.

Na tradição católica, as imagens fazem parte do ambiente religioso — embora se entenda que não se trata de venerá-las, mas sim de utilizá-las como forma de associação ås personalidades religiosas que, estas sim, são veneradas.

O protestantismo aboliu essa prática e não tem a tradição de representar as figuras consideradas sagradas com imagens.

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Todo esse quadro fez com que bispos buscassem transferir Conceição como forma de abafar o constrangimento social que ele poderia estar causando para a instituição.

Por isso, o padre trabalhou em Piracicaba, Monte Mor, Taubaté, Ubatuba, Santa Bárbara d'Oeste, e Brotas, além de Limeira, onde teve duas passagens.

Segundo Meyer, Conceição "nunca foi bem-visto pela hierarquia católica romana".

De acordo com uma publicação datada de 1900 do jornal presbiteriano O Puritano, que circulou no Rio entre 1899 e 1953 — portanto após a morte de Conceição —, o religioso teria comentado sua inadequação perante ao catolicismo.

"Eu estava destinado ao sacerdócio, mas a leitura da Bíblia e os meus contatos com os protestantes tornaram-me um mau candidato e depois um pobre, muito pobre padre católico romano. Todos os outros padres, exceto o bispo, chamavam-me padre protestante", teria dito Conceição.

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O então padre realmente manteve contato com pastores e leigos protestantes.

Alguns emprestavam a ele obras de teologia reformista. Gradualmente, Conceição via que tinha mais afinidade com uma vertente não católica do cristianismo.

A essa altura, ele já era chamado pelo povo de "padre louco" ou de "padre protestante".

A jornalista Magali do Nascimento Cunha, autora do livro Do Púlpito às Mídias Sociais, relata que Conceição debatia consigo mesmo e falava sozinho nas pregações.

Ainda de acordo com ela, o padre tinha uma postura confrontadora.

"Questionava muito a Igreja Católica, não se conformava com algumas posições sobre a salvação e se identificava com perspectivas dos protestantes", resume Cunha, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião e integrante do Grupo de Estudos em Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

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Conceição comungava da ideia protestante histórica de que só a fé bastava para salvar os pecadores; já o catolicismo tem consolidada a tese de que é necessário praticar boas obras.

Outro ponto advogado por Conceição, consonante com a fé protestante e dissonante da doutrina católica, era que os pecados poderiam ser confessados diretamente a Deus, sem a necessidade de um padre como intermediário.

Moraes afirma que o padre também não tinha paciência para as burocracias institucionais e se incomodava em ter de seguir protocolos.

Pastor itinerante

Em 1864, Conceição largou a batina e rompeu definitivamente com o catolicismo — apresentou renúncia ao bispo em setembro daquele ano.

No mês seguinte, quando o pastor norte-americano Alexander Latimer Blackford (1829-1890), pioneiro na implantação da Igreja Presbiteriana no Brasil, visitou Brotas, Conceição se converteu publicamente a essa denominação, sendo batizado.

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Ele havia conhecido Blackford na cidade de Rio Claro, quando ainda atuava como padre.

Cunha explica que os presbiterianos são considerados "a primeira grande igreja protestante estabelecida no Brasil", porque chegaram ao país no século 19 com uma grande estrutura e número de missionários, expandindo-se bastante, sobretudo no interior de São Paulo.

O primeiro templo dessa denominação foi inaugurado no Rio em 1862. A conversão de Conceição insere-se neste contexto.

Em 17 de dezembro de 1865, um ano depois da sua conversão, Conceição foi ordenado pastor evangélico — o primeiro nascido no Brasil.

Um feito notável, em parte porque os poucos clérigos de outras igrejas evangélicas eram missionários estrangeiros.

Além disso, era época de catolicismo oficial. Os sacerdotes católicos recebiam remunerações do governo, já que vigorava o regime do padroado. Este era baseado em um acordo no qual a Igreja Católica concedia ao rei o controle burocrático e administrativo da Igreja sob seus domínios.

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Com a Independência do Brasil, o padroado acabou mantido. O regime só foi extinto com a República.

O rompimento de Conceição com a Igreja Católica não foi fácil.

No seu livro Profissão de Fé Evangélica, o próprio religioso cita que sofria "perseguições" devido à sua conversão ao presbiterianismo, dizendo ter sido alvo de violência física "incitada" por padres.

Cunha afirma que era comum na época uma postura violenta de católicos contra missionários protestantes.

Moraes ratifica que o ex-padre "sofreu preconceitos por parte da Igreja Católica que ele abandonou".

"Romper com o catolicismo naquela maneira era abrir mão de uma carreira estável e aderir a uma fé que era demonizada. A sociedade recebeu a notícia como uma coisa ruim. Muitas pessoas passaram a olhar para ele com desconfiança", afirma o professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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Segundo o teólogo, alguns protestantes passam a ver em Conceição, "com um certo exagero", uma espécie de versão brasileira de reformadores históricos como o alemão Martinho Lutero (1483-1546), o francês Jean Calvino (1509-1564) e o suíço Ulrico Zwinglio (1484-1531).

Moraes ressalta que esse tipo de conversão, de padre para pastor, era atípico. Mas facilitava, já que a base teológica comum fazia com que o religioso pudesse exercer o novo ofício de fé sem muita necessidade de novos estudos ou uma nova formação.

Para Meyer, a conversão de Conceição "estabeleceu um precedente" e levou outros padres a "seguirem o mesmo caminho".

Entre os exemplos mais ilustres estão os casos de Hipólito de Oliveira Cassiano, Manoel Vicente Ferreira e Anibal Nora, ex-padres que também se tornaram pastores.

"Antes de Conceição, todos os missionários protestantes [no Brasil], do século 16 ao 19, eram oriundos de outros países, majoritariamente França e Estados Unidos", afirma Meyer.

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"Embora já houvesse a presença de pastores luteranos e anglicanos, estes não se voltavam à pregação aos brasileiros, mas sim a atender aos imigrantes de fala alemã e inglesa."

Segundo o especialista, relatos de quem assistiu às pregações protestantes de Conceição destacavam como qualidade o diferencial de ele ser brasileiro e assim, conseguir se comunicar de maneira mais direta com seus ouvintes.

A personalidade do religioso seguiria exótica dentro da nova instituição.

Ao contrário do que costuma acontecer, ele não quis ser nomeado para atuar em uma jurisdição — inquieto, preferiu tornar-se um pregador itinerante.

Quase sempre se deslocando a pé, como andarilho, atuou como missionário em boa parte do interior paulista, no sul de Minas Gerais e também no Rio de Janeiro.

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"Era pastor conversionista. Viajava pelas cidades, pregando e convertendo pessoas", explica Magali Cunha.

Conceição visitou diversas comunidades católicas onde antes havia celebrado missas como padre — com isso, acabaria convertendo católicos, que o admiravam, para a Igreja Presbiteriana.

Segundo Moraes, ele era um "evangelista nato" e um "homem muito abnegado".

Distribuía edições da Bíblia por onde passava. E também foi vítima de preconceitos, desconfiança pública e, em alguns casos, violência física.

Catedral Presbiteriana do Rio; segundo pesquisadora, os presbiterianos são considerados 'a primeira grande igreja protestante estabelecida no Brasil'
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Morte

Aos 51 anos, o pastor tinha a saúde debilitada, o que atribuía às andanças como pregador itinerante que era. Seus últimos dias foram de infortúnio.

Na semana do Natal de 1873, ele seguia ao Rio de Janeiro, a convite de Blackford. A ideia era descansar um pouco.

Tarde da noite, precisou abrigar-se na estação de trem do bairro do Campinho, no que é hoje a capital fluminense.

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"Vendo-o, um policial o tomou por um mendigo, devido à pobreza de suas roupas", relata Meyer.

Ele foi preso, enquadrado por vadiagem, como era praxe na época.

Ficou detido por três dias, até que confirmou sua identidade.

"Posto em liberdade, sem dinheiro para uma passagem de trem, pôs-se a viajar a pé, mas acabou por desmaiar próximo a um armazém", conta a professora da Universidade Lusófona.

"Um soldado o levou para uma enfermaria [em Campinho], onde ele foi tratado como indigente, morrendo no mesmo dia."

O ex-padre e pastor morreu em 25 de dezembro, dia de Natal.

Meyer afirma que provavelmente Conceição faleceu devido à fraqueza e às condições de sua prisão, talvez propiciando uma pneumonia.

Moraes acrescenta que, segundo alguns relatos, o pastor teve em seus momentos finais problemas mentais, falando coisas desconexas.

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"Uma morte muito triste, como um maltrapilho, um sujeito que foi visto como um sem-teto, um preguiçoso, alguma coisa assim. Preso por vadiagem. Não foi reconhecido", diz o professor.

Liberdade de escolha

Para a história do cristianismo no país, Conceição é um marco da diversidade.

"Sua trajetória revela o nascimento do pluralismo religioso no Brasil", avalia Moraes.

"Carrega a ideia da liberdade de mudança de religião e também o fim do monopólio católico na administração dos bens de salvação", acrescenta, destacando que o pastor teve um impacto "muito grande" no protestantismo brasileiro.

Para Meyer, a história de Conceição "é emblemática por mostrar a capacidade de um indivíduo de romper com as estruturas convencionais a partir de sua própria escolha".

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"Hoje a liberdade de escolha da religião a que se segue bem como o grande trânsito religioso que existe no Brasil não deixa de ser uma herança de alguns revolucionários como José Manuel da Conceição, que ousaram desafiar as normas pré-estabelecidas", argumenta ela.

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