'O clã Bolsonaro é uma empresa familiar que funciona muito bem', diz professor da Universidade Livre de Bruxelas

A performance surpreendente do candidato da extrema direita Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições, no domingo (4), é dissecada por especialistas em política brasileira na Europa, que acompanham com interesse os resultados do pleito no Brasil. Em entrevista à RFI, o professor de Ciência Política Frédéric Louault, diretor do Centro de Estudos das Américas da Universidade Livre de Bruxelas, avalia o sucesso do bolsonarismo no pleito.

5 out 2026 - 15h40
Resumo
Consolidado como uma bem-sucedida empresa familiar, o clã Bolsonaro demonstrou força ao eleger parentes e colocar Flávio Bolsonaro como favorito no segundo turno presidencial, com 47,03% dos votos. Mesmo em prisão domiciliar, Jair Bolsonaro transferiu seu capital político ao filho, superando denúncias e investigações. O PL também conquistou governos e expressiva bancada, sinalizando uma base conservadora sólida que soma 55% dos votos e dificulta a reeleição de Lula.

Para o especialista, não há dúvidas de que o bolsonarismo está enraizado e se tornou uma força majoritária no cenário político brasileiro, seja para voltar à presidência, no Congresso ou nos governos estaduais. Muito mais do que um grupo político, Frédéric Louault acredita que a família hoje representa uma marca.

O ex-presidente Jair Bolsonaro (à esquerda), ao lado dos filhos Carlos, Flávio, Jair Renan, e a esposa, Michelle, em comício realizado em 6 de abril de 2025 em São Paulo. Foto de arquivo.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (à esquerda), ao lado dos filhos Carlos, Flávio, Jair Renan, e a esposa, Michelle, em comício realizado em 6 de abril de 2025 em São Paulo. Foto de arquivo.
Foto: AFP - MIGUEL SCHINCARIOL / RFI

"O clã Bolsonaro é também, e talvez acima de tudo, uma empresa familiar que funciona muito bem", avalia. "Percebe-se claramente que toda a família está mobilizada, que o nome Bolsonaro é, por si só, uma publicidade e que os permite se eleger com relativa facilidade no Brasil", reitera.

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Embora Jair Bolsonaro esteja cumprindo prisão domiciliar, o filho mais velho, Flávio, obteve 47,03% dos votos no domingo, e é visto agora como o favorito para o segundo turno da eleição presidencial, no próximo 25 de outubro. Dois dos irmãos dele, Carlos e Jair Renan, se elegeram como senador e deputado federal, respectivamente, pelo Estado de Santa Catarina. A esposa do ex-presidente, Michelle, também conseguiu uma vaga para o Senado pelo Distrito Federal. O cunhado dela, Renato Bolsonaro, se elegeu deputado federal pelo Estado de São Paulo. 

Segundo Louault, mesmo detido, é o ex-presidente quem gerencia o movimento, tendo ele próprio escolhido o filho mais velho para disputar a presidência. "Na época, final de dezembro de 2025, pouca gente acreditava que Flávio Bolsonaro conseguiria ser competitivo contra Lula", relembra o especialista. "Alguns integrantes do bolsonarismo achavam que era preciso lançar alguém mais experiente, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Mas, no fim das contas, a aposta de Jair Bolsonaro de transferir seu capital político diretamente para o filho e manter a linhagem familiar parece ter funcionado", reitera.

O Partido Liberal (PL) também elegeu cinco governadores no primeiro turno, conquistou 19 das 54 vagas em disputa no Senado e teve os dois deputados federais mais votados da história. No entanto, para o professor de Ciência Política, o sucesso não se baseia na legenda em si, mas na dinâmica do bolsonarismo, surgido em 2018. "O próprio Flavio Bolsonaro, quando foi eleito senador em 2018 e sua carreira política deslanchou, o fez na esteira da candidatura presidencial de seu pai", aponta. 

Suspeitas de corrupção não prejudicaram Flávio

Flávio Bolsonaro disputou o primeiro turno sob uma investigação no Supremo Tribunal Federal (STF), conduzida pela Polícia Federal (PF), por suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas relacionadas ao financiamento de "Dark Horse", um filme sobre a trajetória de seu pai. Já o candidato a vice em sua chapa, Alfredo Gaspar, é alvo de uma acusação de estupro de vulnerável. Mas nada disso parece ter abalado a confiança do eleitorado da extrema direita. 

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"Escândalos de corrupção mancharam toda a classe política nos últimos meses -  incluindo o círculo próximo de Lula e até mesmo um filho dele, que se viu envolvido em casos polêmicos, e, de forma mais ampla, a Suprema Corte brasileira, cujo um dos ministros, que havia proferido a sentença de prisão contra Jair Bolsonaro, acabou no centro de um escândalo político-financeiro", reitera o especialista. "No fim das contas, as acusações contra Flávio Bolsonaro acabaram ficando um pouco diluídas em meio a essa enxurrada de denúncias", completa. 

Segundo Louault, essa mesma tendência do primeiro turno deve se repetir dia 25 de outubro, ainda que os outros candidatos que brigaram pela presidência não tenham se pronunciado se apoiarão Flávio ou Lula. O especialista lembra que os concorrentes da direita que foram eliminados obtiveram cerca de 7,5% dos votos no domingo, o que prejudicaria o líder petista matematicamente. "A direita e a direita radical somaram cerca de 55% dos votos no primeiro turno, enquanto Lula obteve apenas 45% e não conta realmente com uma reserva de votos para o segundo turno", conclui. 

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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