Luta pelo poder no STF deixa sociedade sem resposta e prejudica campanha de Lula

A tão esperada sessão do Supremo Tribunal Federal se mostrou um show de horrores que conseguiu afastar ainda mais a corte da sociedade. Especialista ouvido pela RFI diz que eleitoralmente a inanição proposital dos magistrados tem um peso muito ruim para a campanha de Lula.

16 set 2026 - 05h21
Resumo
A paralisia e as disputas internas no STF sobre as suspeitas envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro deixam a sociedade sem respostas e prejudicam politicamente o presidente Lula. Em meio a discussões procedimentais, pedidos de vista e acusações mútuas entre magistrados, o escândalo desvia o foco da campanha eleitoral e derruba a aprovação do governo petista, cuja imagem segue associada a Moraes às vésperas do pleito, enquanto o tribunal adia decisões cruciais.

Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

O relator do processo no STF sobre o Banco Master, André Mendonça (à esquerda), ao lado do juiz Alexandre de Moraes, em Brasília, 15 de setembro de 2026.
O relator do processo no STF sobre o Banco Master, André Mendonça (à esquerda), ao lado do juiz Alexandre de Moraes, em Brasília, 15 de setembro de 2026.
Foto: AFP - ROSINEI COUTINHO / RFI

Houve troca de acusações, baixarias, dedos em riste num tribunal dividido que não apresentou resposta diante das graves suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. As discussões ficaram apenas em preliminares burocráticas até o pedido de vista de Flávio Dino, adiando a decisão.

Publicidade

"Eles conseguem transformar o debate numa discussão procedimental. Os leigos não conseguem acessar. Você fica assistindo e se sentindo um idiota. É uma disputa de poder, fundamentalmente. Um espetáculo de horrores e feito propositadamente, para confundir. O tribunal não tem o menor objetivo de tranquilizar a sociedade nem de investigar", afirmou à RFI o cientista político Leonardo Barreto.

A autodeclaração de impedimento de Nunes Marques, sob justificativa de que estando à frente do TSE precisa se ater às eleições, mas que veio após divulgação de mensagens do celular de Vorcaro sugerindo pagamento ao filho do magistrado — que é advogado — além de falas e movimentação de ministros, apontam que outras autoridades podem aparecer no material do Banco Master.

Mas ao menos até aqui o resultado político da paralisia do Supremo é muito negativo para o presidente Lula, que não está implicado no escândalo, ao contrário de Flávio Bolsonaro, que pediu dinheiro ao banqueiro. Porém a imagem que o eleitor tem de uma ligação entre o governo petista e Alexandre de Moraes, relator dos atos golpistas e da condenação de Jair Bolsonaro, tem peso relevante, especialmente porque a crise institucional da corte acontece às vésperas da eleição.

"Nessa estratégia de sobrevivência de uma parte do Supremo, existe uma escolha. E essa escolha é claramente por sacrificar a campanha do presidente Lula", ressalta Barreto.

Segundo o cientista político, o governo não encontra espaço para reagir porque o escândalo desvia a atenção da campanha. "Você vê piorando as avaliações de ótimo e bom, a aprovação do governo caindo, e o governo não consegue defender o seu legado. Esse é o primeiro governo na história cuja avaliação não melhora durante a campanha. E, em grande medida, porque as pessoas estão hipnotizadas por esse processo", reitera.

Publicidade

Vazamentos e atuação seletiva

Durante a sessão, o juiz Gilmar Mendes acusou o relator do processo, André Mendonça, de atuação eleitoral, com vazamento de informações seletivas e em momentos simbólicos com o 7 de setembro.

Na análise de questões de ordem, especialistas avaliam que o presidente da corte, Edson Fachin, poderia votar duas vezes, o que garantiria que os processos de Moraes e Mendonça fossem analisados separadamente. Porém com o pedido de vista, Alexandre de Moraes ganha tempo e a possibilidade de se livrar das apurações, já que em tese na análise real do caso, um placar de empate em questões penais favorece o suspeito.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se