A paralisia e as disputas internas no STF sobre as suspeitas envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro deixam a sociedade sem respostas e prejudicam politicamente o presidente Lula. Em meio a discussões procedimentais, pedidos de vista e acusações mútuas entre magistrados, o escândalo desvia o foco da campanha eleitoral e derruba a aprovação do governo petista, cuja imagem segue associada a Moraes às vésperas do pleito, enquanto o tribunal adia decisões cruciais.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
Houve troca de acusações, baixarias, dedos em riste num tribunal dividido que não apresentou resposta diante das graves suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. As discussões ficaram apenas em preliminares burocráticas até o pedido de vista de Flávio Dino, adiando a decisão.
"Eles conseguem transformar o debate numa discussão procedimental. Os leigos não conseguem acessar. Você fica assistindo e se sentindo um idiota. É uma disputa de poder, fundamentalmente. Um espetáculo de horrores e feito propositadamente, para confundir. O tribunal não tem o menor objetivo de tranquilizar a sociedade nem de investigar", afirmou à RFI o cientista político Leonardo Barreto.
A autodeclaração de impedimento de Nunes Marques, sob justificativa de que estando à frente do TSE precisa se ater às eleições, mas que veio após divulgação de mensagens do celular de Vorcaro sugerindo pagamento ao filho do magistrado — que é advogado — além de falas e movimentação de ministros, apontam que outras autoridades podem aparecer no material do Banco Master.
Mas ao menos até aqui o resultado político da paralisia do Supremo é muito negativo para o presidente Lula, que não está implicado no escândalo, ao contrário de Flávio Bolsonaro, que pediu dinheiro ao banqueiro. Porém a imagem que o eleitor tem de uma ligação entre o governo petista e Alexandre de Moraes, relator dos atos golpistas e da condenação de Jair Bolsonaro, tem peso relevante, especialmente porque a crise institucional da corte acontece às vésperas da eleição.
"Nessa estratégia de sobrevivência de uma parte do Supremo, existe uma escolha. E essa escolha é claramente por sacrificar a campanha do presidente Lula", ressalta Barreto.
Segundo o cientista político, o governo não encontra espaço para reagir porque o escândalo desvia a atenção da campanha. "Você vê piorando as avaliações de ótimo e bom, a aprovação do governo caindo, e o governo não consegue defender o seu legado. Esse é o primeiro governo na história cuja avaliação não melhora durante a campanha. E, em grande medida, porque as pessoas estão hipnotizadas por esse processo", reitera.
Vazamentos e atuação seletiva
Durante a sessão, o juiz Gilmar Mendes acusou o relator do processo, André Mendonça, de atuação eleitoral, com vazamento de informações seletivas e em momentos simbólicos com o 7 de setembro.
Na análise de questões de ordem, especialistas avaliam que o presidente da corte, Edson Fachin, poderia votar duas vezes, o que garantiria que os processos de Moraes e Mendonça fossem analisados separadamente. Porém com o pedido de vista, Alexandre de Moraes ganha tempo e a possibilidade de se livrar das apurações, já que em tese na análise real do caso, um placar de empate em questões penais favorece o suspeito.