Jovens brasileiros se afastam das urnas, mas não da política

24 ago 2026 - 06h40
Resumo
O eleitorado jovem no Brasil vem se afastando da política institucional, com quedas expressivas no registro de eleitores, filiações e candidaturas devido à falta de representatividade e ao descompasso dos partidos tradicionais. Contudo, isso não indica apatia: a juventude permanece engajada por meio de redes sociais, debates e coletivos. Para especialistas, a renovação democrática depende de os partidos oferecerem protagonismo real e comunicação acessível a essa nova geração.

Queda entre fatia do eleitorado, número de filiados e de candidatos indica distanciamento da política institucional, especialmente da partidária. Mas novas formas de engajamento ganham espaço entre a juventude.Os jovens sabem como mobilizar a internet. Viralizam vídeos, criam tendências nas redes sociais e colocam temas sociais, ambientais e políticos no centro das discussões. Mas quando o assunto é participação eleitoral, a disposição parece menor. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que os brasileiros mais jovens estão se afastando das eleições.

A redução aparece em diferentes frentes: no número de eleitores da faixa etária em que o voto é facultativo, na quantidade de filiados a partidos e também nas candidaturas jovens.

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Ysabella Almeida estará com 17 anos nas eleições de 2026, idade em que o voto ainda não é obrigatório. Ela decidiu adiar o primeiro compromisso eleitoral e justifica seu afastamento por enxergar que falta representatividade da juventude e pelo sentimento de que seu voto individual é irrelevante. "O meu voto não vai ser uma coisa que mudaria [a realidade] e eu não me sinto representada. Eu não sinto essa pressão [por votar]."

Na visão dela, o distanciamento não decorre apenas de desinteresse pessoal. Os partidos, afirma, falham ao dialogar com os adolescentes. "Hoje, os partidos falam sobre coisas que não interessam à juventude. Eu acho que os partidos tradicionais são muito distantes dos jovens e do que interessa para eles. Eles falam de uma forma que não faz o jovem parar sua vida para ver um vídeo sobre o que eles estão falando."

A percepção de Ysabella Almeida encontra respaldo nos números. Segundo o TSE, o contingente de eleitores com até 18 anos caiu 14,52% em relação às eleições de 2022. São 606,4 mil registros a menos. Hoje, esse grupo representa apenas 2,25% do eleitorado brasileiro. Enquanto isso, o número de eleitores com mais de 60 anos segue crescendo.

Vale lembrar que, nessa faixa etária, quando o voto não é obrigatório, os partidos, além de precisarem convencer os eleitores de que seus candidatos são a melhor opção para governar o país, precisam também convencê-los a votar.

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Para especialistas, o fenômeno vai além do voto facultativo. O desafio de atrair jovens aparece em praticamente todas as etapas da política institucional, da filiação partidária às disputas eleitorais.

Filiação e candidaturas jovens

Um levantamento do cientista político Murilo Medeiros, com base em dados do TSE, mostra que o número de filiados entre 16 e 34 anos diminuiu 54% entre 2010 e 2026. Nesse período, os partidos perderam 1,47 milhão de jovens filiados.

Para Medeiros, o dado evidencia uma mudança importante: os jovens continuam engajados em debates e causas públicas, mas já não se sentem representados por estruturas partidárias no atual modelo.

Entre os jovens de 16 anos, houve um pequeno saldo positivo de 346 filiações no período analisado. A partir dos 17 anos, porém, todas as faixas etárias até os 34 anos registraram retração.

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O retrato mais recente, entre 2022 e 2026, é um pouco mais favorável. Houve crescimento nas filiações de jovens de 16 e 17 anos, com saldos de 447 e 832 novos registros, respectivamente.

Segundo o cientista político, esse avanço foi impulsionado sobretudo por partidos associados a lideranças jovens de grande visibilidade nas redes sociais, como Erika Hilton (PSOL) e Nikolas Ferreira (PL). O fenômeno reflete o que ele chama de "personalismo": quando o jovem se identifica mais com figuras políticas específicas do que com o partido em si.

O funil das candidaturas

As barreiras estruturais nas candidaturas jovens também se somam ao cenário. Uma pesquisa da Legisla Brasil, organização que atua pela qualificação e representatividade do Legislativo, mostrou que candidatos jovens recebem significativamente menos recursos de campanha do que concorrentes mais velhos.

Em 2024, uma candidatura jovem recebeu, em média, R$ 23.028, equivalente a 64% do valor destinado às candidaturas de faixas etárias superiores, que era de R$ 36 mil.

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Participantes ouvidos pela pesquisa relataram sentir-se tratados como "massa de manobra" dentro das siglas, mobilizados para atuar em campanhas, mas raramente incentivados a ocupar posições de protagonismo político.

Para Synthya Maia, pesquisadora da Legisla Brasil, a desigualdade na distribuição dos recursos produz efeitos duradouros. "A candidatura para vereador é o primeiro cargo que a juventude pode se candidatar, e travar essa entrada trava a carreira inteira. Se o jovem não vencer a primeira eleição, esse caminho que anos depois o levaria a uma candidatura do estadual, federal, por exemplo, já é mais dificultado".

O estudo identificou dificuldades adicionais para quem tenta conquistar o primeiro mandato. "A dificuldade do município não é só municipal. Ela define, por exemplo, quem o Congresso vai ter daqui a 10 anos. Se essa base do funil está obstruída, o topo também não vai se renovar", ressalta Maia.

Segundo ela, o problema afeta especialmente mulheres jovens e negras, reduzindo as possibilidades de renovação do sistema político.

A pesquisadora destaca ainda uma contradição recorrente: os jovens são infantilizados quando buscam poder decisório, mas adultizados quando se exige comportamentos tradicionais, como a forma de falar ou se vestir.

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Dados do TSE reforçam esse diagnóstico: de 1994 a 2014, a participação de candidatos jovens (18 a 29 anos) no total de candidaturas aumentou, subindo de 4,0% para o pico de 6,8%. Mas desde então, a proporção vem caindo a cada eleição geral: no pleito de 2026, os jovens representam 4,6% dos candidatos, o menor patamar em mais de três décadas.

Para Synthya Maia, os números revelam um funil cada vez mais estreito. "Essa travessia para o jovem é como um funil. Muitos jovens ainda estão dentro dos partidos enquanto filiados, alguns poucos se candidatam, mas menos ainda conseguem ser eleitos. Os partidos estão envelhecendo e uma parte desses jovens está saindo porque, de fato, estão se desengajando com a política partidária", diz a pesquisadora do Legisla.

Na avaliação do cientista político Murilo Medeiros, esse esvaziamento pode gerar consequências que vão desde o atraso na renovação das lideranças do país à redução da qualidade da representação nas próximas legislaturas. "Sem a presença de jovens, vamos ver os partidos tentando correr, recrutar figuras, como youtubers ou representantes de corporações em cima da hora, somente para cumprir a tabela e disputar a eleição, sem a presença de quadros de qualidade", complementa o cientista político.

Juventude não abandonou a política

Apesar do afastamento das urnas e dos partidos, os especialistas rejeitam a ideia de uma geração apática com a política. Para Medeiros, o que está em curso é uma mudança na forma de participação política.

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"O jovem continua militando por suas causas nas redes sociais, nas escolas, nas universidades, nos coletivos, mas não conseguem mais enxergar nos partidos tradicionais e também no exercício do voto, caminhos reais de transformação", descreve o cientista político.

Evillin Barbosa, que completou 16 anos em 2026, é prova disso: ela também optou por não tirar o título eleitoral neste momento, mas ressalta que, na verdade, o objetivo é ter uma formação cidadã mais sólida antes de votar.

Ela justifica sua escolha de não votar precocemente pela necessidade de maior estudo e compreensão sobre o sistema eleitoral, e ressalta que a falta de preparo contribui para essa insegurança.

"Eu preciso estudar mais sobre a política, sobre os projetos dos políticos e eu vou aproveitar esse tempo que eu não preciso obrigatoriamente votar para começar isso. Entre os meus colegas, eles têm um tipo de conhecimento político, mas eles também estão pretendendo estudar mais sobre como funciona a política do nosso país porque nas escolas, por mais que os nossos professores tentem sempre colocar a política na nossa educação, ainda falta ensino sobre o assunto, sobre como funciona cada cargo, mas eles [os colegas] sempre estão expressando as decisões políticas que pretendem ter no futuro", diz ela.

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Mesmo sem participar das eleições neste momento, ela afirma que debates sobre racismo, misoginia e outros temas sociais estão presentes no cotidiano dos estudantes.

"Tem muita diversidade de opinião política na minha sala e na escola. Estamos sempre conversando com sobre alguns assuntos que a gente vê na internet, alguma coisa que algum político falou ou sobre projetos", diz Evilin Barbosa.

Para Medeiros, há uma desconexão entre as estruturas partidárias e as novas formas de engajamento político. "Esse descasamento e falta de conexão entre o jovem e os partidos acaba colaborando para esse afastamento do processo eleitora."

Ele acrescenta que fatores socioeconômicos também ajudam a explicar o fenômeno.

Jovens de menor renda e escolaridade tendem a demonstrar mais descrença na política institucional, muitas vezes porque enfrentam prioridades imediatas ligadas à sobrevivência econômica e não percebem no voto uma ferramenta capaz de transformar sua realidade.

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Como reaproximar os jovens?

Para Rafael Dias, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, as novas tecnologias estão transformando a relação entre juventude e política.

Segundo ele, as mobilizações digitais, os abaixo-assinados online, os boicotes e a produção e disseminação de conteúdo político nas redes sociais por jovens dessa faixa etária criaram novas formas de a juventude se relacionar com a política a partir das possibilidades das tecnologias.

Na avaliação dos especialistas, partidos políticos precisarão oferecer espaços de participação efetiva no processo para reconquistar a nova geração. Sem isso, o afastamento tende a se aprofundar, comprometendo a renovação das lideranças e a representatividade da democracia brasileira nas próximas décadas.

Dias acrescenta que há mudanças nas referências de organização de coletivos que têm impacto na política e nas eleições. Em eleições ao redor do mundo, tem sido observada uma relação forte entre fanbases (grupos de fãs) e política (caso dos Swifties nos EUA, por exemplo). O professor diz que movimentos semelhantes de influência de grupos de fãs podem ocorrer também no Brasil, onde personalidades da internet alcançam milhões de seguidores e portanto detêm potencial significativo para influenciar o debate e decisões políticas.

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É justamente esse tipo de aproximação que a jovem Ysabella Almeida considera necessário. Ela acredita que a política precisaria dialogar mais diretamente com pautas cotidianas que atravessam a realidade da juventude, como tecnologia, educação e redes sociais.

Ela e Evilin Barbosatambém defendem o uso de linguagens mais acessíveis e de figuras de influência capazes de estabelecer pontes entre a juventude e o debate sobre política no país.

Já em relação às filiações e candidaturas, os especialistas defendem que os partidos devem oferecer aos jovens espaços de participação efetiva com impacto social concreto, saindo do papel de figurante para protagonista do processo.

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