A empresária Andréia Gaspar, de 51 anos, morreu no dia 12 de agosto poucas horas depois de ser submetida a seis cirurgias plásticas simultâneas no rosto, em Goiânia. Ela havia pago R$ 118 mil pelos procedimentos, realizados pelo otorrinolaringologista Lessandro Martins, em um hospital que não possuía leitos de UTI. Menos de um mês após a morte, um inquérito, com mais de 1.300 páginas obtido pelo Fantástico, da TV Globo, reúne detalhes sobre o atendimento prestado antes, durante e depois da cirurgia.
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A preparação para os procedimentos começou ainda na Espanha, onde Andréia morava. Segundo a irmã, Djianne da Silva, a empresária "juntou o dinheiro para fazer essa cirurgia. E era o sonho dela". Andréia conheceu o trabalho de Lessandro pelas redes sociais. As consultas e orientações anteriores à operação ocorreram de forma remota.
"Toda a conversa foi feita pelo WhatsApp", explica a irmã. Em um vídeo, o próprio médico dava as boas-vindas à paciente: "É com satisfação que estamos criando esse grupo de WhatsApp aonde estará você, eu -- Doutor Lessandro Martins -- e toda a minha equipe para lhe servir".
Djianne afirma que Andréia "tava confiando no doutor Lessandro". A empresária chegou ao Brasil em 3 de agosto, mas não conseguiu se consultar pessoalmente com o médico antes da cirurgia. No dia 11 de agosto, às 7h30, Andréia deu entrada no hospital. Antes de entrar no centro cirúrgico, gravou um vídeo em que aparecia animada: "Maninha... (risos) Se organizando pro grande dia!".
Foi somente naquele momento que ela conheceu o médico pessoalmente. A cirurgia durou cerca de sete horas e reuniu procedimentos de rejuvenescimento facial, tratamento do pescoço, redução da testa, correção do queixo, cirurgia nas pálpebras e preenchimento facial com gordura retirada por lipoaspiração.
Às 17h40, a empresária deixou o centro cirúrgico e foi encaminhada diretamente para um quarto comum. O hospital não tinha leitos de UTI, embora publicações institucionais da unidade nas redes sociais anunciassem: "O Instituto Belcorp agora é Hospital Ankar... Só que agora com mais salas de cirurgia, maior número de leitos e com Centro de Tratamento Intensivo".
Pouco depois de chegar ao quarto, Andréia começou a apresentar complicações. "Quando a Andréia chega, ela está com o rosto todo cheio de sangue. Minha irmã estava com a boca muito inchada", lembra Djianne. Por volta das 20h, Lessandro esteve no quarto para avaliar a paciente e, segundo a irmã, minimizou a agitação apresentada por Andréia. Ele teria dito: "Dejane, fica tranquila. Tem paciente que chega até a puxar o soro, tipo uma crise de pânico. É normal, fica tranquila".
Cerca de meia hora depois, porém, Andréia relatou dificuldade para respirar: "Minha glote, não tô respirando direito". A equipe de enfermagem teria informado que os sintomas eram esperados no pós-operatório. A situação se agravou durante a madrugada. "Mais ou menos meia-noite, quase uma hora da manhã... eu acendo a luz do quarto e Andréia gritando: 'Mana, mana, mana, eu tô morrendo, eu tô morrendo'", descreve a irmã.
A médica plantonista chegou ao quarto à 0h50. Em depoimento, afirmou que "a paciente permanecia estável" e que "explicou que o desconforto era comum no pós-operatório". Pouco depois das 2h, Andréia sofreu uma parada cardiorrespiratória. A irmã começou a gravar o atendimento e registrou a médica dizendo: "Eu não consigo falar com nenhum dos médicos".
Segundo Djianne, a profissional também afirmou não conseguir contato com a equipe do cirurgião. Lessandro retornou ao hospital por volta das 2h20, mas Andréia já havia morrido. "Quando ele chega ali, a Andréia não estava mais ali, a Andréia já tinha morrido", lamenta a irmã.
Em 28 de agosto, o corpo de Andréia foi exumado em uma medida acompanhada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil. As autoridades investigam as circunstâncias da morte e a possibilidade de responsabilização do médico e do hospital por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.
Em publicação feita no instagram neste último domindo, o médido disse que não causou a morte de Andreia e que continuará colaborando com as investigações. "Eu sei o que fiz. Sei dos cuidados que tomei, das avaliações realizadas e da assistência prestada. Documentos, laudos e prontuários demonstram que minha conduta não causou a morte da Andreia", afirma.
O Terra procurou o Hospital Ankar para questionar sobre a ausência dos leitos de UTI, mas não obteve resposta até esta publicação.