A presença das artistas no circuito europeu nasceu de um encontro inesperado. "Toda essa exposição começa por um curador de arte bruta que visitou a nossa galeria no Rio para conhecer os trabalhos", conta Isabela Carpena, pesquisadora e diretora da galeria carioca Nau Cultural, especializada em arte popular brasileira. O contato com o curador abriu "uma porta totalmente nova", diz, ao colocá-los diante de conceitos "completamente diferentes dos nossos".
Foi nesse diálogo que o trabalho das irmãs Petuba chamou atenção imediata. Ainda assim, ela relativiza as classificações: "Na nossa galeria, a gente está num limite entre naïf, folk art e arte bruta, porque há várias nuances entre essas categorias".
Entre categorias europeias e identidade brasileira
Se na França o enquadramento tende a passar pela arte naïf ou bruta, no Brasil a leitura é outra. "Lá a gente traz esse conceito de arte popular", explica Felipe Pithan, que dirige a galeria junto com Carpena. "São pessoas do povo, trabalhadores, muitas vezes de locais afastados, que não passam por formação formal. É uma educação cultural transmitida dentro das comunidades."
Para ele, o trabalho das irmãs Petuba expressa algo mais profundo. "É uma arte que traz o espírito do povo mesmo." Nos painéis, diz, estão presentes memórias das tradições artesanais do Nordeste: "Os potes de barro feitos à mão, o cordel cantado". Mais do que representação, trata-se de um gesto de preservação. "Há uma preocupação muito grande em compartilhar e eternizar essa memória."
Essa dimensão ganha ainda mais força no contraste com o presente. "Num mundo em que tudo é acelerado e padronizado, vejo esse trabalho como um convite a valorizar outro tempo, outra forma de viver e produzir", afirma Pithan.
Do sertão à capital francesa: uma travessia estética
Levar essa produção a Paris, no entanto, não é um gesto neutro para os organizadores. "Certamente é um desafio", reconhece Felipe. "Aqui a gente vê uma cidade com cores muito similares. Quando você entra e vê esse multicolor, isso põe em xeque a própria forma como a cidade se constrói."
Ele levanta uma dúvida que atravessa a recepção da exposição: "Será que o parisiense vai entrar aqui e achar que isso é uma arte válida?" Para o pesquisador, o impacto está justamente nesse deslocamento. "A gente propõe isso como uma travessia. A pessoa tem que sair de uma margem e ir para outra."
Essa travessia também passa pela recusa de certos rótulos. "A arte delas não se vê como periferia", afirma. "É o agreste, o Nordeste, a cultura delas no centro da imagem." Ao fazer isso, ele acredita que o trabalho desafia "valores mais convencionais" do circuito europeu.
Viagem e "apaixonamento"
O encontro com as artistas foi resultado de uma longa jornada. Em 2019, pouco antes da pandemia, Isabela e Felipe percorreram mais de 8 mil quilômetros pelo Nordeste em uma Kombi, em busca de núcleos de arte popular. "As irmãs Petuba eram um sonho antigo", lembra Isabela. "A gente conhecia o trabalho por livros."
Quando finalmente chegaram até elas, o impacto foi imediato. "Ficamos completamente apaixonados", diz. "É um suporte totalmente singular, um trabalho autêntico, cheio de camadas e significados."
Felipe reforça que o encantamento ultrapassou a obra. "Foi um apaixonamento não só pela arte, mas pela personalidade. As três são figuras únicas. Vai demorar para nascer outras iguais."
Técnica, memória e invenção
A singularidade do trabalho começa pelo processo criativo. "Elas são muito intuitivas, não planejam", explica Isabela Carpena. "Vão construindo a paisagem a partir do encontro com os materiais." Os tecidos variam - seda, brim, malha - e recebem bordados que "pontilham" as imagens.
Um dos elementos mais marcantes são as pequenas bonecas de pano, que criam relevo nas obras, segundo a também pesquisadora de arte popular brasileira. "Elas têm uma conexão direta com a vida das artistas, porque a mãe produzia essas bonecas e elas brincavam com elas", diz Isabela. "Os quadros têm muitas camadas de memória."
Essa memória aparece tanto no conteúdo quanto na técnica. "A própria forma como elas inventaram essa estética já é uma composição de memórias", afirma.
Arte como resistência e imaginação
Do ponto de vista técnico, Felipe Pithan descreve o trabalho como "costuras aplicadas", feitas a partir de retalhos. Mas insiste que o essencial está em outro lugar. "A imagem é sempre aquilo que elas querem. Elas não se submetem a outros imaginários."
Esse imaginário é profundamente enraizado no território. "É o Nordeste, o agreste, esse emaranhado cultural formado por mouros, ibéricos, ciganos, povos originários e afrodiáspóricos", explica. "O agreste é uma encruzilhada cultural."
Nesse sentido, a obra das irmãs Petuba também é política, segundo os diretores da Nau Cultural. "É um projeto que combate o apagamento dessas narrativas", afirma Felipe. "Uma fronte contra um mundo de desencantamento." Ao revisitar a memória pela arte, ele conclui, o trabalho transforma o documental em algo vivo: "ganha ares de ficção, é renovado pela imaginação".
"Reencantamento"
Para a Nau Cultural, levar esse trabalho ao exterior também é um gesto consciente. "A gente tem uma pegada decolonial ao fazer uma exposição assim, de trazer essa arte viva brasileira", diz Isabela. "É o que move o nosso trabalho."
Ela vê nesse movimento uma resposta histórica. "Todo esse processo colonial apagou, maltratou, tirou o poder de muitos povos. Agora é o momento de trazer esses povos de volta. Esses frutos rebrotaram - parecia que a árvore tinha morrido, mas não morreu."
No caso das irmãs Petuba, esse gesto aparece na própria obra. "O trabalho delas é um manifesto decolonial", afirma. "A região onde vivem ficou muito mais tempo isolada da globalização. A modernidade chegou tarde, e ainda está chegando lentamente." Isso permitiu a preservação de múltiplas matrizes culturais. "A gente consegue enxergar ali um Brasil pré-colonial, até medieval", diz. "É um grande caldeirão cultural que o Nordeste representa, uma realidade singular, de outro tempo."
Felipe Pithan recorre a um poema para sintetizar essa perspectiva. Ele cita Nego Bispo:
"Quando nós falamos tagarelando e escrevemos mal ortografado, quando nós cantamos desafinando e dançamos descompassado, quando nós estamos borrando e desenhamos enviesado, não é porque estamos errando, é porque não fomos colonizados."