Fim da várzea? Como a formação mudou o futebol brasileiro

4 ago 2026 - 12h16

Menos futebol de rua, especialização precoce e maior pressão sobre jovens atletas levantam dúvidas sobre os impactos da formação atual na identidade e no estilo de jogo do Brasil.O desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo deste ano gerou questionamentos sobre a formação dos atletas de futebol do país. As razões apontadas para que o talento nacional tenha deixado de sobressair são muitas, mas especialistas reforçam a importância de que os jovens tenham mais contato lúdico com a bola desde cedo, uma característica comum a grandes craques nacionais. Outro ponto é a estrutura atual das categorias de base dos clubes, embora projetos venham tentando mudar esse cenário.

Para muitos, o chamado "jogo bonito" brasileiro é uma espécie de mistério ou dom. No entanto, para analistas que observam mais de perto o desenvolvimento nacional, o estilo é, em parte, fruto da adaptação à prática em terrenos adversos desde a infância. Geralmente na rua ou em campos esburacados e de areia, tendências que vêm sendo limitadas.

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Além de questões urbanísticas, que extinguiram muitos campos de várzea e limitaram a possibilidade de se jogar na rua, a formação dos atletas hoje muitas vezes restringe a prática "sem compromisso".

"Nossa formação sempre ocorreu muito por meio da prática de jogar. Já na estrutura formal, como nos clubes hoje, há menos espaço para isso, um contato menor com o jogo, e isso ocorre cada vez mais cedo. Além disso, a atividade é mais controlada para evitar desgastes", avalia Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy.

Ele lembra que enquanto atletas de sua geração costumavam sair de treinos para praticar com amigos na rua, hoje há maior controle nas atividades dos jovens, visando, inclusive, preservá-los de lesões, uma vez que muitos já contam com compromissos semelhantes aos de profissionais.

Além disso, ainda que o futebol seja visto como um esporte aberto a todas as classes sociais, seguir o sonho de virar profissional hoje, em uma estrutura que demanda maior acompanhamento físico, pode acabar limitando clubes e atletas com menos recursos.

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"A formação esportiva ficou mais cara, ainda que alguma desigualdade sempre existisse. Muitas vezes, garotos talentosos sem condição financeira não conseguem chegar aos clubes", aponta Heglison Toledo, professor na Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Durante a Copa, o ex-jogador da seleção americana Landon Donovan criticou a estrutura da formação de jovens no futebol em seu país, dizendo que teria "zero chance" de se tornar atleta do esporte com os custos atuais. Ainda que o cenário brasileiro seja diferente, as chamadas escolinhas têm se tornado um negócio que representa a alta dos custos da prática para muitos, incluindo franquias com centenas de unidades e mensalidades que chegam a R$ 700.

Nestes casos, as disputas de torneios que podem atrair melhores oportunidades costumam ser as grandes ofertas e justificativa para o custo, incluindo intercâmbios e campeonatos fora do país. Outro serviço em alta é a produção de conteúdo com atuações dos jovens atletas, algo cada vez mais levado em conta em avaliações.

Pressão desde muito cedo

Quando se trata do quadro da formação atual, Machado faz dois questionamentos: "estamos nos especializando para revelar atletas ou para formamos os jogadores? Será que estamos desenvolvendo a metodologia certa para todas essas capacidades?".

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Para Toledo, em um cenário com grande pressão para que jovens estreiem profissionalmente o mais cedo possível, "um garoto de 14 anos que começa a assinar contratos não vislumbra muitas vezes a melhoria do desempenho, e sim a melhor oportunidade".

Machado lembra o grande número de jogadores brasileiros no exterior para reforçar que a revelação de atletas segue ocorrendo, mas que a questão é se "as características destes jogadores são suficientes para que o Brasil tenha o protagonismo esperado no futebol de seleções".

Em sua visão, na estrutura atual, "as formações dos atletas se adaptaram para atender uma demanda mundial que busca os jogadores brasileiros", o que influencia nas características de jogo desenvolvidas desde cedo.

O Brasil é o país do mundo com o maior número de jogadores atuando no exterior, aponta o Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudos Esportivos (CIES). Segundo relatório, mais de 1,4 mil atletas brasileiros jogam fora do país, distribuídos em 135 ligas estrangeiras.

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Sozinho, longe dos pais

Hoje, para muitos que buscam uma chance no futebol, o caminho costuma envolver deixar a família bem cedo. Caso emblemático é o do jogador Endrick, que aos dez anos foi aprovado no Palmeiras e recebeu uma rara oportunidade de que um de seus pais deixasse Valparaíso de Goiás para acompanhar o filho em São Paulo com os custos de moradia pagos pelo clube. Mas essa não é a realidade da maioria.

"Muitas vezes, o garoto com menos de 14 anos tem de se deslocar a grandes centros sendo submetido a uma pressão social muito grande e responsável pelo sucesso da família", aponta Toledo. "Há casos ligados à depressão, perda de motivação, muitos desistem. Por mais que se ofereçam psicólogos e assistência social, se está longe da família", afirma.

"Hoje, você vê garotos que nem estrearam como profissionais com um currículo de atuação com mais clubes que o meu quando joguei, e isso depois de já terem rodado por vários estados. Quando esse ambiente é conturbado, pode ser muito negativo", pontua Machado.

Para Toledo, grandes clubes poderiam fomentar o desenvolvimento de jogadores, usando, por exemplo, cidades satélites. "Com uma política de territorialidade, os que se destacam podem ser direcionados aos maiores centros, mas sem uma grande pressão, que é o que acontece na Europa", aponta Toledo.

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A França estruturou sua política de formação de atletas a partir dos anos 1970. Sob impulso da Federação Francesa de Futebol, os clubes profissionais passaram a criar centros de formação, que se tornaram um dos pilares do desenvolvimento do futebol no país.

Além disso, há o Instituto Nacional de Futebol Clairefontaine (INF Clairefontaine), no sudoeste de Paris, um centro de desenvolvimento para jovens a partir dos 13 anos que treinam de cinco a seis dias por semana para depois jogarem por seus clubes locais em dias livres. Artilheiro da última Copa, Kylian Mbappé foi um dos atletas que passaram pelo espaço.

A distribuição da formação pelo território nacional também é um caminho na visão de Machado. "A grande contribuição que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) poderia dar seria espalhar escolas de formação pelo país e estimular cada vez mais competições amadoras para impulsionar esses jogadores", aponta.

Além dos grandes centros

Fora dos holofotes dos grandes clubes, projetos vêm tentando fazer frente aos desafios colocados na formação. Um destes casos é o Azuriz, equipe criada no interior do Paraná e que tem como uma das grandes propostas o foco no tempo de bola.

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"A ideia ocorreu visando mudar essa formação mecanizada e tática, que seguiu a Europa e acabou perdendo identidade brasileira", conta Pedro Weber, CEO da NextPlay e fundador do clube. Entre as práticas adotadas, está o futsal desde os seis anos de idade para os jogadores até que haja a transição completa para o campo.

A modalidade é apontada como uma fonte das habilidades de jogadores como Ronaldinho e Neymar. Além disso, o projeto conta com campos de areia visando desenvolver um repertório mais amplo. Outro ponto destacado por Weber é o fato de a equipe se localizar no interior e não contar com torcida, o que ameniza as cobranças por resultados e pressões na formação.

Aos 12 anos, Lucas Alvim treina hoje ao longo da semana em equipes de futsal e futebol na região metropolitana de São Paulo. Ainda assim, busca seguir jogando com amigos. "Acho bom, porque você joga mais relaxado, sem pressão, nem nada". Sobre a mudança de comportamento de companheiros quando se sentem avaliados, ele confirma que é algo que percebe. "Tem quem gosta muito de aparecer para jogar em times maiores e ganhar melhores salários", conta.

Atualmente, na UFJF, Toledo coordena um projeto com crianças de oito a 12 anos no qual o foco principal não está nos resultados das partidas. "Nossa ideia é trazer os mais novos para terem uma formação motora, e não uma especialização precoce. A ideia é dar repertório para que o garoto consiga evoluir ao longo do tempo", aponta.

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"Não queremos embutir tão cedo a pressão pela vitória e o desempenho. Deve haver competição, mas a formação deve prevalecer ao resultado", afirma.

Por exemplo, na Noruega, que eliminou o Brasil na última Copa, até os nove anos de idade, as crianças disputam apenas partidas entre clubes locais e sem tabelas de classificação, divulgação de resultados ou troféus. Somente aos 13 anos os torneios passam a ganhar os formatos mais conhecidos.

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