Em Nova York para abrir a 81ª Assembleia Geral da ONU pela décima vez, o presidente Lula cumpre agenda diplomática com líderes internacionais e figuras da esquerda americana, como o prefeito Zohran Mamdani e o senador Bernie Sanders. Em seu discurso na tribuna, Lula enfatizará o multilateralismo e a reforma da governança global, pautas alinhadas à nova iniciativa internacional que cofundou para enfrentar conflitos armados, crises climáticas e a crescente fragmentação geopolítica mundial.
Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
Lula desembarcou em Nova York por volta das 18h15 deste domingo (20), no horário local, e seguiu para a residência oficial do representante permanente do Brasil nas Nações Unidas, Sérgio Danese, no leste de Manhattan, onde ficará hospedado. O presidente cumprimentou alguns apoiadores que aguardavam sua chegada, mas não conversou com a imprensa.
A previsão é que Lula permaneça na residência durante praticamente toda a segunda-feira, quando receberá autoridades e realizará reuniões bilaterais. Um dos principais compromissos da agenda é a reunião com Zohran Mamdani, prevista para as 11h30, no horário de Nova York. O encontro ocorre na residência oficial onde Lula está hospedado.
A reunião chama a atenção pelo perfil político de Mamdani, que se tornou uma das figuras de maior projeção da esquerda americana nos últimos anos. O democrata socialista assumiu a Prefeitura de Nova York em janeiro, após uma campanha centrada principalmente no alto custo de vida na maior cidade dos Estados Unidos.
O encontro também ocorre em um dia de intensa movimentação política para o prefeito. Mamdani tem uma reunião prevista nesta segunda-feira com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Gracie Mansion, residência oficial do prefeito de Nova York. Segundo seu gabinete, os dois devem discutir questões que afetam a cidade e seus moradores.
Lula também recebe nesta segunda o senador independente Bernie Sanders, de Vermont, um dos nomes mais conhecidos da esquerda americana. A audiência está prevista para as 18h, também na residência oficial. Outro encontro marcado é com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, às 10h30. Orsi assumiu a Presidência em março de 2025, marcando o retorno da Frente Ampla ao governo uruguaio.
A agenda de segunda-feira ainda estava sendo finalizada durante a viagem presidencial. A comitiva recebeu dezenas de pedidos de reuniões bilaterais, mas não havia confirmado uma lista definitiva de encontros. Lula também tem prevista pela manhã uma entrevista gravada com a jornalista Christiane Amanpour, da CNN.
Décimo discurso de Lula na Assembleia Geral
O principal compromisso da passagem de Lula por Nova York ocorre na terça-feira (22), quando o presidente participa da abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU. Será a décima vez que Lula discursará na abertura do encontro anual de líderes mundiais na ONU. O presidente brasileiro ocupou a tribuna anteriormente em 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2023, 2024 e 2025.
Antes do início do debate geral, Lula tem previsto um encontro com o secretário-geral da ONU, António Guterres, às 8h40. A sessão começa às 9h. Por tradição diplomática, o Brasil é o primeiro Estado-membro a discursar na abertura do debate geral da Assembleia Geral, seguido pelos Estados Unidos, país anfitrião da sede das Nações Unidas. Com isso, Lula e Donald Trump devem ocupar a tribuna na mesma manhã.
Até o momento, não há reunião bilateral anunciada entre os dois presidentes durante a passagem por Nova York.
Soberania e multilateralismo
O discurso de Lula deve reforçar temas recorrentes da política externa brasileira, com destaque para a defesa da soberania nacional, do multilateralismo e da reforma das instituições de governança global.
A expectativa é que o presidente também aborde democracia e interferências externas, além de conflitos internacionais, combate ao crime organizado transnacional, comércio internacional e mudanças climáticas.
A defesa do multilateralismo ganhou novo impulso às vésperas da Assembleia Geral. Neste domingo, Lula, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, o presidente do Quênia, William Ruto, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, lançaram a iniciativa "Parceiros pelo Multilateralismo" (P4M).
No manifesto publicado no Financial Times, que apresenta a iniciativa, os líderes defendem que a cooperação internacional não enfraquece a soberania dos países, mas é necessária para enfrentar problemas que ultrapassam fronteiras nacionais.
Geopolítica fragmentada
O texto chama a atenção para um paradoxo: enquanto o mundo está cada vez mais conectado econômica e tecnologicamente, com um comércio global de cerca de US$ 35 trilhões e 6 bilhões de pessoas com acesso à internet, a geopolítica está mais fragmentada. O documento cita 65 conflitos armados registrados em 2025, o maior número desde 1946, e gastos militares globais que chegaram ao recorde de US$ 2,9 trilhões.
O P4M também defende o respeito ao direito internacional e aos princípios da Carta das Nações Unidas, como a igualdade soberana dos Estados, a integridade territorial e a solução pacífica de conflitos. Entre as propostas está a reforma das instituições multilaterais, incluindo o Conselho de Segurança da ONU, para ampliar sua representatividade e capacidade de responder às crises atuais.
Mudanças climáticas, riscos de novas pandemias, instabilidade econômica e o avanço da inteligência artificial aparecem entre os desafios que, segundo os signatários, exigem maior coordenação internacional. A proposta não é criar um novo bloco geopolítico nem uma nova burocracia, mas uma plataforma flexível de cooperação destinada a fortalecer e modernizar o sistema multilateral.
Uma reunião de alto nível da iniciativa está prevista para esta segunda-feira (21), em Nova York, às margens da Assembleia Geral da ONU. Apesar de Lula ser um dos quatro líderes que assinam o manifesto de lançamento do P4M, a participação do presidente brasileiro nesse encontro não consta, até o momento, da agenda oficial divulgada pelo Palácio do Planalto.
O grupo afirma que não pretende criar um novo bloco geopolítico nem uma nova estrutura burocrática, mas fortalecer e reformar o sistema multilateral existente e adaptar as Nações Unidas aos desafios atuais.
A mensagem dialoga diretamente com uma das principais bandeiras da política externa defendidas por Lula em suas participações anteriores na ONU: a necessidade de reformar as instituições internacionais para ampliar a representação dos países em desenvolvimento e recuperar a capacidade das Nações Unidas de responder a conflitos e crises globais. Depois dos compromissos na ONU, a previsão é que Lula siga diretamente para o aeroporto JFK e retorne ao Brasil ainda na terça-feira (22).