O escândalo do Banco Master, envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, escancarou relações promíscuas entre os Três Poderes e o mercado financeiro. Ao atingir figuras de diversos partidos, como Flávio Bolsonaro e integrantes do PT, o caso reforçou o desencanto popular e a percepção de que a corrupção é generalizada. Embora a complexidade do esquema confunda os eleitores e o impacto inicial nas urnas tenha sido limitado, a crise aprofundou a apatia e o voto nulo às vésperas do segundo turno.
Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a Belo Horizonte
O ex-banqueiro nasceu há 43 anos na capital mineira, onde ajudou o pai a expandir a fortuna iniciada no ramo imobiliário. A participação na construção do que seria o maior hotel da cidade, o Golden Tulip com 37 andares - e jamais concluído -, ilustra o perfil megalomaníaco de Vorcaro.
Mas foi em São Paulo, ao comprar o antigo banco Máxima, em liquidação judicial, que o mineiro aos poucos se tornou um dos nomes de maior influência nas elites brasileiras. As investigações da Polícia Federal e o escândalo do Master escancararam as relações promíscuas entre as três esferas da República, a mídia e o sistema financeiro.
"É uma situação vergonhosa para o nosso país. Quase todo mundo está envolvido, então é por isso que vai ser uma eleição complicada de ir votar", comentou à RFI a vendedora Maria Aparecida, nas ruas de Belo Horizonte. "No segundo turno eu vou votar em branco. Não quero participar da vitória de nenhum dos dois candidatos", completa.
O envolvimento de políticos dos principais partidos - do PL ao PT - e da cúpula do Judiciário com o banqueiro acentuaram pelo país a percepção de que todos os políticos são corruptos, observa o cientista político Lucas Gelape, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
"O escândalo do Banco Master acabou sendo um equalizador. Até o início dessa campanha, o tema da corrupção prejudicava principalmente o PT e a esquerda", ressalta o pesquisador. "Só que, com o áudio do Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro para o Daniel Vorcaro para o filme sobre o pai dele, ele basicamente se iguala nesse tema. Para o eleitor, na corrupção, é todo mundo igual."
Impacto eleitoral pequeno no 1° turno
O analista comercial Alvaro Luiz, 26 anos, relata que o escândalo contribuiu para que decidisse não comparecer às urnas no primeiro turno. No segundo, ele vai votar, mas ainda não escolheu em quem. "Fiquei bem desanimado em relação a tudo isso", indica. "Não espero muita mudança, que vá fazer alguma diferença. A política se tornou um campo de guerra, não é mais um campo de mostrar os benefícios para a população."
Apesar da extensão das denúncias, o impacto nas urnas parece limitado - no primeiro turno, 13 de 16 candidatos que mantinham ligações documentadas com Vorcaro foram eleitos para cargos no país. Agora, Flávio Bolsonaro lidera a disputa para o segundo turno à presidência enquanto é investigado pela Polícia Federal por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no caso do financiamento do filme Dark Horse pelo Banco Master.
"Os dois lados, a meu ver, são candidatos ruins. Os dois são faces da mesma moeda", afirma Leandro, analista de marketing de 28 anos. "Vou pender para um lado em função do que eu penso sobre a economia. Mas independente de quem a gente colocar ali, eu acho que a corrupção sempre vai existir", diz ele, evocando a perda do poder aquisitivo como o aspecto mais importante para a escolha do seu voto.
Corrupção é prioridade para eleitores
Já a técnica em administração Vitória, 26 anos, faz questão de acompanhar diariamente as novas revelações. "Tem muita gente envolvida, muita gente importante e poderosa. Eu acho que envolve todos os partidos", aponta. "Mas eu acho que, mais do que isso, as pessoas esqueceram que ele roubou dos aposentados. Então ele roubou da gente, ele roubou das pessoas. E por isso, com certeza, o escândalo influenciou o meu voto."
As pesquisas revelam que a corrupção é uma das principais preocupações do eleitor brasileiro. Entretanto, o caso Master é tão vasto e complexo que muitos eleitores ficam perdidos em meio aos fatos, levando ao desinteresse.
"Vários dos detalhes do escândalo do Banco Master são relacionados ao mercado financeiro, que é algo que não é fácil para o cidadão comum entender e até mesmo para o cidadão com alta escolaridade", analisa o cientista político. "Acaba pegando muito mais a questão de tráfico de influência, as festas, as prostitutas que ele pagou para alguém. Mas a relação disso com a corrupção às vezes não fica tão clara", diz.
Em Minas, as revelações acabaram relevadas a segundo plano, ofuscadas por debates mais focados no endividamento do estado e a carga tributária. "Vorcaro era mencionado aqui e ali, às vezes para tentar provocar o adversário. Ele não foi um grande ator, até porque, aparentemente, era um lobby muito mais nacional do que estadual", salienta.