A eleição presidencial polarizada entre Flávio Bolsonaro e Lula reflete visões opostas para o Brasil, segundo Monica de Bolle. A economista aponta riscos institucionais e alerta para o populismo econômico em ambas as campanhas. Geopoliticamente, o pleito opõe o multilateralismo ambiental de Lula ao alinhamento com os EUA de Bolsonaro, o que pode ameaçar acordos com a União Europeia. O interesse global foca no peso democrático, ambiental e nas ricas reservas minerais do país diante dessa disputa.
Matheus Santa Rita, da RFI em Paris
O primeiro turno foi marcado por forte polarização: Flávio Bolsonaro ficou em primeiro lugar, com 47% dos votos, e Lula, em segundo, com 45%. As pesquisas mais recentes apontam para um empate técnico, com os dois candidatos separados por apenas um ponto percentual.
Do ponto de vista geopolítico, estas eleições podem ser vistas como uma escolha entre o multilateralismo e a proximidade com a China e a União Europeia, que Lula representa, ou uma maior aproximação com os Estados Unidos e o presidente Donald Trump, do lado de Flávio Bolsonaro.
"Em primeiro lugar, está em jogo a própria institucionalidade do Brasil", explica Monica de Bolle, economista, professora na Universidade de Georgetown, em Washington, D.C., e senior fellow do Peterson Institute for International Economics. Ela lembra que "o candidato Flávio Bolsonaro já falou em alterar a Constituição e fazer mudanças na Suprema Corte e uma série de outras alterações institucionais que podem ser bem problemáticas para a democracia brasileira".
A segunda coisa em jogo na eleição é a própria economia, ela continua. "Até aqui, essa campanha tem sido uma campanha especialmente peculiar. De modo geral, as medidas econômicas de que o Brasil precisa e as discussões sobre economia geralmente dominam as campanhas eleitorais. Desta vez não foi assim, não houve qualquer discussão mais ampla e aprofundada sobre a economia", diz.
"No primeiro turno, isso certamente não aconteceu. E agora, na reta final do segundo turno, começaram a aparecer algumas propostas, sobretudo do candidato Flávio Bolsonaro, já que do presidente Lula já se sabe mais ou menos o que ele pretende fazer", continua.
"Mas, até aqui, o que surgiu nos últimos dias da campanha do senador Flávio Bolsonaro para a economia parece bastante irresponsável, porque o Brasil, neste momento, está com uma dívida muito alta e as propostas do senador são bastante populistas", avalia de Bolle. "Elas envolvem gastos que o Brasil não tem como sustentar. Ele está falando em fazer um ajuste fiscal, mas esse ajuste fiscal não tem nenhum detalhamento. Então fica difícil saber precisamente o que eles estão pretendendo fazer", continua a economista. "De modo geral, a discussão econômica está muito ruim. Do lado de Lula também não há grandes propostas e existe um certo populismo e uma campanha repleta de demagogia para todo lado", avalia.
Para Mônica de Bolle, o Brasil está numa situação complicada, tanto do ponto de vista doméstico quanto do ponto de vista externo. "Lula e Flávio Bolsonaro representam propostas muito distintas em relação à política externa. No caso de Lula, seria a continuação de uma política externa que prioriza esse pragmatismo que o Brasil tem em suas relações internacionais: uma espécie de multilateralismo pragmático, em que o Brasil se relaciona com todos os seus parceiros e não dá preferência a ninguém", explica. "Mas Flávio Bolsonaro claramente defende um alinhamento mais forte com os Estados Unidos, dada a proximidade que existe entre a família e o governo Trump e a própria conexão que já existe entre membros da equipe de Flávio Bolsonaro e integrantes do entorno de Donald Trump nos Estados Unidos", completa.
"Eu diria que são quase dois Brasis distintos: o Brasil governado por Flávio Bolsonaro vai ser completamente diferente de um Brasil governado pelo presidente Lula", diz.
RFI: Está todo o mundo de olho nas eleições do Brasil. Como explicar este interesse?
Monica de Bolle: Eu acho que o grande interesse em torno dessas eleições se deve, essencialmente, a três fatores.
O primeiro deles é que o Brasil é a segunda maior democracia das Américas; os Estados Unidos são a maior. Então, há claramente uma preocupação pelo tamanho do país. É uma economia muito grande, que oferece muitas oportunidades para investidores estrangeiros, e é um país cheio de recursos naturais que todo mundo quer. O Brasil tem muitas reservas de minerais críticos, tem o segundo maior depósito do mundo de terras raras e é o principal exportador de nióbio do mundo. O Brasil produz e exporta 90% do nióbio global, fundamental para a indústria de defesa, para aviões e automóveis. É, de fato, um minério estratégico. Então, há muitas coisas em jogo: a democracia brasileira, a disputa pelo mercado brasileiro e pelos recursos naturais, minerais críticos e terras raras.
E há também a questão ambiental, a Amazônia e tudo o que envolve a transição verde e a transição energética. O governo Lula tem uma visão favorável à transição energética e à economia verde. Já Flávio Bolsonaro representa exatamente o contrário. É a mesma coisa que vimos no Brasil durante o governo do pai dele. Então, há a expectativa de que, em um eventual governo Flávio Bolsonaro, ocorra um certo desmonte da legislação ambiental brasileira, o que pode ter um impacto bastante complicado no acordo que entrou em vigor provisoriamente em maio entre a União Europeia e o Mercosul.
RFI: Enquanto Lula prefere o multilateralismo, a relação com vários parceiros ao mesmo tempo, o Mercosul e uma maior proximidade com a China, Flávio Bolsonaro dará mais prioridade às relações com os Estados Unidos e com o presidente Trump, podendo aderir à iniciativa "Escudo das Américas", uma aliança entre países latino-americanos e os EUA para combater os cartéis. Mas, apesar da proximidade ideológica entre os novos dirigentes da direita latino-americana e Trump, não é certo que isso implique um afastamento da China. No Brasil também?
Monica de Bolle: Eu acho que um Brasil governado por Flávio Bolsonaro não vai conseguir se afastar da China, e nem acredito que essa seja a intenção, porque a China está tão entranhada na economia brasileira, assim como está na Colômbia, na Argentina, no Peru e em vários países da região, que é impossível promover uma espécie de alinhamento ideológico, econômico, político e geopolítico exclusivo com os Estados Unidos. Esse alinhamento tem limitações.
Agora, o que pode acontecer? Dada a preferência pelos Estados Unidos, isso abre menos espaço para outros parceiros do Brasil, como a União Europeia. Estou pensando, por exemplo, no acordo entre Mercosul e União Europeia. Todos esses acordos contemplam regras e salvaguardas ambientais consideráveis. Tenho um certo temor de que, com Flávio Bolsonaro na presidência e havendo um desmonte da legislação ambiental brasileira, possa haver uma reviravolta nesses acordos, sobretudo porque o acordo Mercosul-União Europeia ainda está em caráter provisório. Poderia haver um revés nessas relações, e isso seria bastante prejudicial para todos, inclusive para o Brasil.
O que eu acho é que, em uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro, embora não haja um cenário de afastamento do Brasil em relação à China, pode haver um afastamento do Brasil em relação a outros parceiros.
RFI: Olhando para o mapa político da América Latina, hoje muito inclinado para a direita radical e a extrema direita, como aconteceu recentemente na Colômbia e no Peru, e sendo agora a maior democracia da região a ir às urnas, como explicar essa guinada à direita do Brasil?
Monica de Bolle: Eu acho que essa guinada é menos sólida do que parece, assim como, de certa maneira, foi a chamada Pink Tide. Não existe propriamente uma mudança completa na sociedade e nos valores. Acho que não é exatamente isso o que acontece. O que acontece é uma fadiga em todos esses países. E nisso eles se parecem muito com o que vemos acontecer no restante do mundo e, em particular, na Europa, com os protestos que vemos na França, por exemplo.
Existe um cansaço generalizado com governos que não conseguem entregar o que prometem. E, no caso do Brasil, acho que o país é um pouco diferente dos demais. Quando digo dos demais, estou falando especificamente da América Latina, porque Lula já está em seu terceiro mandato. Então, essa fadiga de que falo é compreensível por vários motivos, inclusive porque o próprio Lula já foi presidente três vezes. As pessoas estão, de fato, buscando alguma coisa diferente.
Infelizmente, o sistema político brasileiro falhou, como têm falhado outros sistemas políticos mundo afora, ao apresentar candidatos realmente novos e com propostas verdadeiramente novas.
Lula, concorrendo à Presidência pela quarta vez, não é uma novidade. E Flávio Bolsonaro também não, porque, afinal, representa uma linha de governo e de pensamento que já ocupou a Presidência da República entre 2019 e 2022.
Então, o caso brasileiro é um pouco diferente do de Javier Milei, na Argentina. Milei se apresentou de fato como uma novidade e foi eleito por isso. O mesmo vale para Abelardo de la Espriella, na Colômbia, embora também tenha sido uma eleição extremamente disputada e muito polarizada. Acho que a história da América Latina é muito mais uma história de aprofundamento da polarização do que uma história de que 'todos estão preferindo a extrema direita'.