Do caipira ao agronejo: como a música sertaneja se tornou a mais ouvida do Brasil contemporâneo

Gênero perdeu um de seus expoentes, Rick, da dupla Rick e Renner; em quase um século, música que nasceu retratando a vida no campo incorporou influências estrangeiras, romantismo, pop e funk até se tornar um dos principais fenômenos do país

23 set 2026 - 16h28
Resumo
Da moda de viola pioneira em 1929 ao atual agronejo, a música sertaneja consolidou-se como o gênero mais ouvido do país ao espelhar a urbanização e a modernização do Brasil. Ao longo de quase um século, o estilo reinventou-se em cinco grandes fases: passou pelas crônicas rurais e a nostalgia do migrante, absorveu o pop e o romantismo e, mais recentemente, incorporou o funk e a música eletrônica, focando em narrativas de consumo, ostentação e na força econômica do agronegócio nacional.
A dupla sertaneja Rick e Renner em show em 2013
A dupla sertaneja Rick e Renner em show em 2013
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Jonathan Scarello dos Anjos não é um nome conhecido no Brasil. Mas Panda, sua identidade artística, sim: é a voz do hit musical mais ouvido no país atualmente, a sertaneja Eu Te Seguro — segundo o mais recente levantamento da Pró-Música Brasil, entidade representativa do mercado fonográfico nacional, com base na somatória das reproduções de plataformas de streaming.

Mas o sertanejo que está no topo não é exatamente aquela música caipira que começou a surgir em gravações na virada dos anos 1920 para os 1930.

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Tampouco a vertente romântica com contornos bregas que fez a fama de duplas como a que Rick — o Geraldo Antônio de Carvalho, que morreu nesta semana em acidente de helicóptero — formou com Renner — nome artístico de Ivair dos Reis Gonçalves.

Como costuma acontecer com exemplos de sucesso da indústria cultural, o gênero se reinventa constantemente conforme o tempo passa.

Os exemplos que sucedem os anteriores são, na definição do historiador Gustavo Alonso, "modernizadores no sentido da antropofagia cultural, de incorporar valores e músicas de outras searas, de outras origens".

Alonso é professor na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor do livro Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira.

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"Houve uma transformação estrutural que acompanhou o processo de modernização e o deslocamento do meio rural para o consumo urbano", analisa a especialista Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema e audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Jordão vê o gênero mudando dos versões "que registravam as rotinas do trabalho agrícola" e "causos locais" para "a dor nostálgica do migrante desiludido no meio urbano". Depois, com o avanço da fronteira pecuária para o Centro-Oeste, uma exaltação do "heroísmo do boiadeiro".

Gradualmente, as canções sertanejas passaram a incluir "narrativas das culturas de massas" e se afastar "das referências rurais", dando mais ênfase aos "sentimentalismos amorosos".

Por fim, neste século, veio a ênfase em "paqueras, bebidas, desencontros e consumo ostentatório".

A gravação pioneira

Em geral, entende-se como uma espécie de marco fundador da música sertaneja no Brasil o episódio que tornou o gênero acessível enquanto produto de consumo de massa: a primeira gravação de uma canção do segmento, no caso a música Jorginho do Sertão, composição do jornalista e folclorista Cornélio Pires (1884-1958) a partir de fragmentos de causos populares, na voz da dupla Mariano e Caçula. Foi em 1929.

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"Nenhuma gravadora queria gravar música caipira. Cornélio Pires alugou um estúdio e pagou a prensagem do próprio bolso", enfatiza a empresária artística Anita Carvalho, fundadora da escola Music Rio Academy e pesquisadora da ESPM.

"Para mim isso é o primeiro lançamento independente da história da música brasileira, e diz muito sobre o quanto a indústria erra ao julgar o que o público quer."

Mariano e Rubens da Silva, o "Caçula", eram irmãos e viviam em Piracicaba no interior paulista. A música que eles entoavam era aquela conhecida como moda de viola.

Cornélio Pires foi o 'mecenas' da primeira gravação de música sertaneja
Foto: Creative Commons / Wikimedia Commons / BBC News Brasil

Nesses quase cem anos que se passaram, o sertanejo atravessou fases distintas e pode ser entendido não só como fenômeno musical: o gênero deixa pistas, a partir do seu sucesso e de sua disseminação, para compreender a sociedade e a urbanização brasileira.

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Professor na Universidade de São Paulo (USP), o violeiro e pesquisador Ivan Vilela divide o sertanejo em cinco grandes fases — Vilela é autor do livro Cantando a Própria História: Música Caipira e Enraizamento e apontado como o grande especialista no tema.

Os primeiros passos do gênero enquanto produto vai da gravação de Mariano e Caçula até a década de 1940. "A radiodifusão dessas músicas ajudou no processo de re-enraizamento dos migrantes que trocavam o campo pelas cidades grandes", pontua.

Vilela nota que esse período viu o nascimento da profissionalização dos cantores. Foi o caso de Raul Torres (1906-1970), paulista de Botucatu que cantava mas pretendia conciliar a vida artística com a profissão de farmacêutico.

Torres acabou vendo que a música era um bom filão e deixou o balcão para trás — chegou a formar dupla com um sobrinho, mas fez história mesmo com Florêncio, nome artístico de João Batista Pinto (1910-1971).

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"Ele cantava embolada, mas percebendo que havia espaço de trabalho muito grande [para a música caipira], acabou entrando no segmento", diz Vilela. Ou seja: a música caipira deixava de ser uma expressão de gente da roça; virava entretenimento que seguia a lógica de oferta e demanda do mercado.

"[Foi quando] a música caipira consolidou-se no mercado fonográfico, sobretudo, com o trabalho de músicos urbanos que passaram a se dedicar ao gênero", comenta o violeiro e pesquisador Leandro Valentin, doutor pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e atualmente escrevendo a biografia do cantor sertanejo Tião Carreiro (1934-1993).

Estima-se que, naquela época, o gênero já dominava 40% da incipiente indústria fonográfica brasileira.

O violeiro, obra de Almeida Júnior de 1899, ilustra o gênero da música caipira
Foto: Domínio Público / BBC News Brasil

O sucesso Tonico & Tinoco

"A segunda fase veio com a música já difundida pelo rádio, com a produção chegando também a cidades pequenas e zonas rurais", explica o professor da USP.

A música que nasceu no campo, migrou para a cidade cantando o campo e agora voltava ao campo empacotada pelas ondas radiofônicas.

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O maior nome dessa fase, segundo Vilela, é a dupla Tonico & Tinoco. Foi um retumbante sucesso. Eram os irmãos João Salvador Perez (1917-1994), nascido em São Manuel, e José Salvador Perez (1920-2012).

Na profícua carreira, gravaram quase 1 mil canções, lançaram 83 discos, venderam milhões e milhões de cópias e fizeram mais de 40 mil shows.

Para Vilela, essa dupla significou o início de um processo de furar a bolha — e a música caipira passou a ser ouvida até por pessoas que não tinham relação alguma, nem afetiva nem biográfica, com o mundo rural.

Ele estima que Tonico & Tinoco tenham vendido cerca de 150 milhões de discos, no total. "Somados todos os formatos, são a dupla que mais vendeu discos no mundo", crava.

"É quando se firmou com mais força um padrão: a dupla, o violão e a viola, não mais instrumentais de choro que se usavam antigamente", diz Vilela.

"Os músicos eram caras da roça que cresceram ouvindo pelo rádio e agora compunham com características muito masi rurais, incorporando ritmos como catira, folia de reis."

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Se na primeira leva, os sertanejos narravam o dia a dia rural, na segunda essa vida no campo passa a ser vendida com contornos de saudade — afinal, o público já se consolidava também nas cidades e tinha aquele ideal imaginário do bucolismo como válvula de escape sentimental.

"A vida no campo e o êxodo rural são tematizados com uma dose de nostalgia e coexistem com o romantismo que começa a ganhar força aos poucos", nota Valentin.

Vilela contextualiza. No início, eram os migrantes, "gente da roça que [tinha se mudado para as cidades mas] via valores na roça" os que ouviam sertanejo. Depois, "com esse povo já vivendo todo na cidade, as narrativas passam a ser anacrônicas".

"O público de Tonico & Tinoco, a grande linha de vendagem já era o urbano, então eram histórias de saudade", comenta.

"O termo música sertaneja se tornou hegemônico a partir dos anos 1950", pontua Alonso. "Antes, desde a primeira gravação de 1929, se falava música caipira, música do interior, música do sertão, música do campo…"

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Nessa década, o gênero incorporou elementos estrangeiros, sobretudo da guarânia paraguaia e da ranchera mexicana.

"Esses gêneros dialogaram com as culturas locais e alguns vão se tornar adeptos", explica o historiador. "Nessa fase, houve o uso cada vez mais demarcado de ritmos tradicionais como o recortado, o cururu e o cateretê", acrescenta Valentin.

Sertanejo trouxe a representação do caipira na música. O quadro Caipira Picando Fumo, de Almeida Júnior, é do fim do século 19
Foto: Domínio Público / BBC News Brasil

Jovem Guarda e o romântico exagerado

Nos anos 1960, a música sertaneja passou por outra grande transformação. O Brasil já tinha um processo bastante consolidado de êxodo rural e o mercado fonográfico entendeu que os novos ouvintes do gênero, os filhos dos migrantes, eram já nascidos nas grandes cidades.

"Eles tinham uma educação tradicional em casa e uma educação moderna nas ruas, no trabalho, na escola. Para eles, foi criada uma música que juntava vertentes da Jovem Guarda com a música caipira", conta Vilela. "Na terceira fase, a música caipira deixa de ser cronista do mundo rural e se torna também cronista do mundo urbano."

A primeira dupla desse subgênero foi Léo Canhoto & Robertinho, respectivamente Leonildo Sachi (1936-2020) e José Simão Alves, hoje com 82 anos. Para Valentin, foi "uma tentativa de modernização do sertanejo, seja com o uso de guitarras elétricas, seja com uma ênfase a elementos tipicamente mexicanos na sonoridade das canções, e com uma presença cada vez mais marcante da temática amorosa na letra das canções".

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A guinada pop viria nos anos 1980 — obra principalmente dos esforços comerciais da gravadora Sony. "[Os executivos das gravadora] perceberam que a música caipira poderia receber um novo tipo de vestimenta, roupagem sonora e visual, e aí iniciou-se a vertente chamada hoje de sertanejo romântico", comenta Vilela.

"Neste balaio estão sucessos incontornáveis como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel, entre outros. Rick & Renner entram na derivação do sertanejo romântico, embora tenham vindo um pouco depois", pontua Vilela.

Valentin diz que somente nessa fase "o sertanejo foi finalmente aceito pela grande mídia como o gênero mais popular do país, embora já o fosse havia décadas".

"Nessa época houve a incorporação do brega enquanto estilo, como gênero musical", afirma Alonso. Era o amor exagerado. "Uma fixação. Hoje chamamos de sofrência, na época era 'música de corno' mesmo."

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Era uma época de jabá institucionalizado e uma indústria ávida por novidades. "O mercado já estava muito voraz, em cima da produção musical", avalia Vilela.

"O romântico acompanha o pagode da época, também romântico, e segue uma vertente da música romântica norte-americana que ganhou muito campo nos anos 1980", analisa o professor e violeiro.

Universitário e agro

Na virada do século surge o estágio atual do sertanejo, chamado de sertanejo universitárIo. O gênero fica pop, à media que o pop internacional também é incorporado e "vira norteador", complementa o professor da USP.

"Eles são astros pop, tocam música pop em língua portuguesa, da maneira deles, mas a ideia é essa", resume.

Valentin explica o sertanejo universitário como um momento de "fusão crescente com estilos como o pop, o rock e o axé". "E a temática das letras passa a dialogar cada vez mais com o público jovem urbano, com uma abordagem que transita entre o romantismo tradicional e a efemeridade de relações amorosas contemporâneas", pontua.

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É uma safra longa que já tem muitos desdobramentos.

Caso do feminejo, surgido mais ou menos 10 anos atrás. Trata-se de um movimento em que mulheres — que sempre foram minoritárias entre os artistas do gênero — se tornaram as vozes mais ouvidas. Marília Mendonça (1995-2021), Maiara & Maraísa, Simone & Simaria, Naiara Azevedo, Paula Mattos e Paula Fernandes são as maiores expoentes.

Mais recentemente, há o chamado agronejo, o subgênero que alimenta uma idolatria, em geral não crítica e subserviente, ao agronegócio. "São artistas que defendem a cultura do latifúndio e todas essas derivações", aponta Vilela. "Houve uma apropriação pela extrema-direita."

O professor acredita que boa parte do setor esteja ligado a problemas de corrupção, por meio de uma lógica de cachês milionários em shows bancados por prefeituras e empresas ligadas ao agro em todo o país.

O agronejo, lembra Valentin, incorpora "batidas eletrônicas e traços do pop e do funk ao sertanejo". "Não raro, a ostentação e os aspectos sensuais de relações amorosas efêmeras ou casuais são tematizados nessa fase", diz ele.

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"A música sertaneja contemporânea é a música das cidades pequenas e médias. Grande parte desses caras vieram das cidades pequenas e médias. O Brasil se tornou um país de cidades pequenas e médias", analisa o historiador Alonso, lembrando que as cidades grandes "pararam de inchar" nos anos 1990 e são as demais que crescem econômica e demograficamente desde então. "De certa forma, a música sertaneja retrata esse fenômeno."

E segue antropofágica, incorporando novas estéticas. "Cada geração nova faz isso a seu modo. Ai Se Eu Te Pego [que fez sucesso com Michel Teló] é um forró. Você tem exemplos que são funk, tem reggaeton e agora o agronejo grava até música eletrônica", comenta o historiador.

"Eles vão incorporando outras estéticas, de outros gêneros. É o que faz o sertanejo se tornar um grande guarda-chuva geral de gêneros popularzões."

A ideia da dupla

Embora dentre os nomes atuais esteja longe de ser unanimidade, a ideia da "dupla caipira" como símbolo do gênero permanece no imaginário. Segundo Vilela, essa forma de cantar "tem origem nos primórdios das gravações de música caipira", sempre com a ideia "de dois cantando juntos, muitas vezes irmãos".

"A questão da dupla tem a ver com o canto em terças. Eles cantam em terças, ou seja, se um canta em dó, o outro canta em mi", explica Alonso. "Isso é padrão desde que se fazia música caipira lá atrás, antes mesmo de a indústria cultural abraçar o gênero." Ele observa que, curiosamente, o modelo do sertanejo universitário não mais prefere as duplas — a maioria dos astros faz carreira solo.

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Vilela lembra também que outra característica inerente ao gênero é a canção-romance, a canção-crônica, aquela que conta uma história. "A base da música caipira são as narrativas das histórias. Os povos não grafocêntricos, que não tinham a escrita, se apoiavam na música para registrar suas histórias, porque a música cantada preserva a integridade", explica o professor.

"O sertanejo sempre foi crônica: histórias de fazenda, de cidade do interior, do sujeito que foi parar na capital, além de traição, jogo e bebida, que são temas de toda música popular", acredita Carvalho. "O que mudou de verdade foi o retrato do campo."

Nessa perspectiva, não foi o olhar do gênero que mudou, mas sim o objeto. O mundo rural virou agronegócio — e a música acompanhou isso.

"[A música caipira] é uma etnomúsica que traz traços muito característicos, instrumentais e de ritmos. São 17 ritmos presentes no universo da música caipira", enaltece Vilela.

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