Fevereiro de 2026 tem recorde de alertas de desastres naturais emitidos pelo Cemaden. Mudanças climáticas estão por trás deste cenário.Quando chove mais forte, a passagem por algumas ruas de Petrópolis, no Rio de Janeiro, é impedida. Cancelas interrompem o tráfego, sirenes são disparadas e viaturas monitoram quem insiste em avançar sobre as barreiras. O protocolo faz parte do plano de contingência adotado na região serrana depois de um trauma coletivo.
Em 15 de fevereiro de 2022, chuvas intensas atingiram a cidade causando enchentes e deslizamentos de terra. Dois ônibus foram arrastados pela correnteza. Até então, esses veículos de até 26 toneladas eram considerados uma opção segura para passageiros cercados por enchentes. Os motoristas sobreviveram e ajudaram a salvar muitas vidas. A tragédia deixou ao todo 234 mortos na cidade, segundo a Defesa Civil.
A tragédia forçou ainda o município a focar na prevenção. Quando pluviômetros específicos registram 10 milímetros de chuva num período de uma hora, a Defesa Civil já espera um transbordamento do rio na parte urbana. "Motoristas de ônibus, táxi, aplicativo e guias de turismo também foram capacitados para saber como reagir", conta Guilherme Moraes, Secretário de Defesa Civil da cidade.
Desde que o plano de contingência para o enfrentamento de emergências e desastres entrou em vigor, nenhum cidadão morreu afogado, garante Moraes. Mas as chances de inundações e deslizamentos, além do medo constante, aumentaram com o passar do tempo.
Alertas em disparada
Os riscos de enchentes e deslizamento de terra aparecem em formas de mapas e cores no enorme painel formado por 24 telas do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden). Na tarde em que a DW visitou a sede, 21 alertas estavam em vigor em todo o país.
Fevereiro de 2026 entrou para a história dos 15 anos de funcionamento do órgão: foi o período com o maior número de alertas já emitidos para esse mês. No total, foram 668 entre os níveis moderado, alto e muito alto - quase o dobro do registrado em fevereiro de 2025, por exemplo.
"Alerta de nível alto significa alta probabilidade e grande impacto para a população, e recomenda-se deflagrar o plano de contingência no município. Muito alto é um cenário de desastre", explica Marcelo Seluchi, coordenador geral de operações do Cemaden.
O centro foi criado em 2011 em resposta a uma tragédia vivenciada na região serrana do Rio de Janeiro, incluindo Petrópolis. Naquela ocasião, 947 pessoas morreram, milhares ficaram desalojadas, moradias e infraestrutura urbana foram destruídas.
Em funcionamento 24 horas por dia com revezamento dos 50 membros da equipe, o Cemaden avalia os cenários com base em uma rede de pluviômetros, radares e previsão do tempo. Cada time de plantão tem autonomia para interpretar os dados e disparar os alertas - um documento técnico detalhado que indica áreas de risco e população vulnerável.
"Eles são enviados às Defesas Civis, e não diretamente ao público em geral. Fazemos a assessoria técnica, mas a decisão de agir é da Defesa Civil, principalmente municipal", afirma Seluchi.
Planeta extremo
O aumento no disparo de alertas não se explica apenas pela experiência da equipe e melhorias tecnológicas no monitoramento. A principal razão, aponta o meteorologista, é a maior frequência de eventos climáticos extremos.
"Registramos mais eventos extremos, e também uma expansão da população em áreas de risco. Hoje, há municípios que não eram tão vulneráveis a desastres e que agora são. Então, vamos ajustando o critério para enviar alertas", explica Seluchi.
Dentre os exemplos estão a capital baiana, Salvador. Quando o centro iniciou suas atividades, o risco aumentava quando uma chuva de 70 milímetros caia. Atualmente, bastam 40 milímetros para a Defesa Civil receber o alerta.
Em 2025, mais de 336 mil brasileiros foram diretamente afetados pela intensidade de chuvas torrenciais, ondas de calor e secas prolongadas - fenômenos classificados como eventos climáticos extremos. O prejuízo estimado foi em torno de R$ 2,9 bilhões, principalmente em cidades do Sudeste.
Desastres do tipo mais do que triplicaram nas últimas décadas, aponta um relatório coordenado pelo climatologista José Marengo. "O aquecimento global tem elevado as temperaturas médias e alterado os padrões atmosféricos, tornando eventos como estes mais comuns e intensos", concluem os cientistas que assinam o estudo.
Segundo Seluchi, o maior problema hoje é a capacidade limitada de muitas Defesas Civis municipais, que sofrem sem estrutura logística, ausência de planos de contingência detalhados e comunicação precária com a população.
"E mesmo quando as pessoas recebem o aviso de perigo, muitas desconfiam e não querem abandonar suas casas. E quando o desastre está prestes a acontecer, muitos municípios também não informam seus habitantes claramente para onde evacuar", diz.
Convivência e prevenção
Em Petrópolis, o sistema de transporte coletivo se preparou para lidar com o pior. Com apoio da Defesa Civil, as três empresas que atuam na cidade em 225 linhas diferentes treinaram seus colaboradores para agir quando a água começa a subir. Quando há sinal de chuva intensa, muitas rotas param de circular. Caso algum veículo seja pego de surpresa por um início de enchente, ele tenta estacionar em uma das 15 ilhas de segurança, locais sinalizados como pouco prováveis de serem atingidos.
Do lado de fora de todos os veículos, uma linha no meio da roda foi desenhada. Quando a água atinge está marca, o motorista, treinado, recomenda que os passageiros desembarquem dos passageiros e indica um local seguro.
"Fazemos a ponte entre os órgãos responsáveis e as empresas de transporte, avisando quando há risco elevado", comenta Carla Rivetti, superintendente do Sindicato das Empresas de Ônibus (Setranspetro).
Por causa das tragédias recentes, o medo das chuvas tem afetado o setor e toda a economia da cidade. Motoristas relatam tensão constante durante o verão. Nos últimos três anos, a demanda pelo transporte coletivo tem caído entre 6% e 7% a cada fevereiro, e o temor dos moradores andarem de ônibus nesta época e serem surpreendidos por uma inundação é apontado como uma das causas.
"A nossa única alternativa é aprender a conviver com esses riscos e fortalecer a resiliência", diz Rivetti sobre o trauma coletivo e as marcas profundas deixadas na cidade.