Por que os centros das cidades brasileiras se tornaram tão vazios e inseguros?

Expansão urbana desordenada e priorização do transporte privado colaboraram para o esvaziamento dos centros

9 ago 2026 - 06h46
(atualizado às 07h56)
Região da 25 de março, no centro de São Paulo, é marcada pelo comércio popular de dia, mas fica esvaziada à noite
Região da 25 de março, no centro de São Paulo, é marcada pelo comércio popular de dia, mas fica esvaziada à noite
Foto: Gustavo Basso/DW

Até meados do século 20, as regiões centrais das grandes cidades brasileiras ainda figuravam como seus centros nevrálgicos. Seria comum ver um morador de São Paulo ou do Rio de Janeiro caminhando à noite depois do trabalho, passando em um bar ou indo ao teatro.

Nas últimas décadas, porém, a intensa transformação urbana afetou a maneira como os brasileiros se relacionam com os centros das grandes cidades. O esvaziamento e a sensação de insegurança são marcas registradas desse processo.

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Mas por que os centros das grandes cidades brasileiras sofreram com esse fenômeno e como isso nos ajuda a entender o crescimento urbano no país?

O crescimento urbano

Para isso temos que voltar algumas décadas e entender a mudança que ocorreu no Brasil especialmente a partir da segunda metade do século 20. Com o avanço da industrialização e a migração em massa das áreas rurais para os espaços urbanos, diversas cidades brasileiras viram um grande crescimento demográfico em um curto período.

O Censo de 1950 apontava que a cidade de São Paulo contava com 2 milhões de habitantes. Vinte anos depois, esse número já tinha quase triplicado para 5,9 milhões. Atualmente, são 11,5 milhões de moradores.

O rápido crescimento demográfico fez com que as cidades tivessem que se expandir, com a criação de novos bairros. Esse movimento, segundo especialistas, ocorreu de maneira descoordenada em diferentes cidades brasileiras. Em maior ou menor grau de Porto Alegre ao Recife, do Rio de Janeiro a Belém.

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Áreas afastadas dos centros eram mais baratas para se construir, fazendo com que novos empreendimentos surgissem nessas regiões. Com a criação de novos bairros, expandiu-se a área urbana, enquanto a manutenção dos centros das cidades como local de moradia e trabalho ficou em segundo plano.

"É um problema, em geral, de todas as cidades brasileiras. Desde o processo de colonização, o proprietário fundiário sempre teve muito poder econômico e político. A estrutura das cidades tem muito a ver com os interesses sobre ela", afirma Éber Marzulo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Sem uma política de priorização da centralidade urbana, esse movimento levou gradualmente mais pessoas para longe dos centros. Em algumas cidades, até mesmo prédios da administração pública foram movidos para bairros afastados.

"No caso de São Paulo, foi a iniciativa privada que foi ocupando a cidade de maneira irregular por meio de loteamentos. A cidade não tinha infraestrutura nessas novas áreas, mas era a opção que muitas pessoas podiam pagar", afirma Ariadne Natal, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP).

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"O Estado teve que suprir essa demanda e até hoje não conseguiu construir completamente a infraestrutura para conectar essas novas áreas. Não é simples lidar com isso em poucas décadas", diz Natal. Ela se refere à falta de serviços públicos básicos nas novas regiões, como transporte público, saneamento básico ou postos de saúde.

"Para as cidades grandes o que faz sentido é adensar mais o centro para garantir que não se tenha que expandir continuamente essa infraestrutura", complementa Natal.

Espaços privados

Ao mesmo tempo, a priorização do modal rodoviário a partir da década de 1950 fez com que linhas de bondes elétricos nas áreas centrais fossem gradualmente desativadas, enquanto o transporte de automóveis era priorizado. A criação de novas avenidas que interligavam regiões distantes das cidades foram surgindo.

Diferentes gerações viam o automóvel como um bem essencial para se ter a melhor experiência de locomoção urbana. Enquanto isso, os novos bairros, com os empreendimentos mais novos e atrativos para uma classe média que emergia, estavam cada vez mais longe do centro.

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"Essa lógica de organização urbana é chamada de fragmentação socioespacial. Sempre houve bairros de ricos, classe média e pobres, mas hoje a maior parte das novas áreas já nascem com essa demarcação, e isso está diretamente ligado à desigualdade social", afirma a professora Maria Beltrão Sposito, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisadora de geografia urbana.

Ela explica que, ao longo do tempo, esse modelo de expansão urbana, que inclui a criação de condomínios fechados e o avanço dos shopping centers como espaço de interação pública para a classe média e alta contribuiu para uma nova maneira de os moradores se relacionarem com as cidades.

"Essa forma de estruturação coloca em xeque um elemento estrutural da vida urbana do ponto de vista social, que é a cidade ser um ambiente que favorece a ocorrência da esfera pública", explica Sposito.

Esse movimento também pode ser visto em outras cidades ao redor do mundo onde uma urbanização difusa afetou o planejamento urbano, defende a professora. "No Brasil, esse movimento, combinado a uma enorme desigualdade, leva a uma disparidade socioespacial muito mais marcante", diz Sposito.

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Esvaziamento e criminalidade

Esse movimento gradual de saída do centro fez com que a região se tornasse cada vez menos habitada, com predominância de comércio popular durante o dia, mas pouca ou quase nenhuma atividade durante a noite e aos finais de semana.

"O tipo de ocupação que foi desenhado para o centro de São Paulo não envolve moradia. Ocupar esses espaços significa repensar a vocação deles", afirma Ariadne Natal do NEV-USP.

Esse vazio em determinados momentos do dia contribui para a sensação de insegurança. O conceito de "olhos na rua", da ativista americana Jane Jacobs, descreve esse fenômeno. Quando há menos pessoas utilizando e ocupando uma região, diminui a vigilância informal naturalmente exercida por quem circula pelo local. Basicamente, ruas movimentadas e ativas geram maior sensação de segurança do que locais vazios ou pouco frequentados. Mas essa sensação não necessariamente corresponde aos índices reais de violência.

"A sensação de segurança e a percepção de risco não traduzem diretamente de maneira empírica os dados da criminalidade", explica Natal.

Revitalização

O poder público vem há alguns anos tentando contornar essa situação em diferentes cidades do país.

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O Rio de Janeiro, por exemplo, revitalizou parte da zona portuária no centro. São Paulo teve diferentes projetos de conservação do centro histórico, como os que buscavam requalificar a região do Vale do Anhangabaú. Já São Luís começou há décadas o projeto Reviver, que buscou revitalizar a região central da capital maranhense.

Mas a principal dificuldade é conseguir consistência nas diferentes ações e atrair mais moradores para o centro das cidades, fazendo com que a região seja ocupada durante todos os períodos do dia.

"Para um político, a inauguração de um espaço renovado é o auge, mas não existe uma preocupação tão grande com o que vem depois", afirma Maria Beltrão Sposito da Unesp. "Acompanhar é tão importante quanto inaugurar o espaço", complementa.

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