Uma força-tarefa resgatou 42 estrangeiros submetidos a trabalho análogo à escravidão na colheita de frutas cítricas no Norte do Rio Grande do Sul. Aliciadas em seus países com falsas promessas, as vítimas enfrentavam servidão por dívidas, jornadas exaustivas de até 12 horas e alojamentos degradantes. Os trabalhadores foram acolhidos para regularização e recebimento de verbas, enquanto a polícia investiga os suspeitos foragidos por tráfico internacional de pessoas e exploração ilegal.
Uma força-tarefa conjunta resgatou 42 trabalhadores estrangeiros submetidos a condições análogas à escravidão em municípios da Região Norte do Rio Grande do Sul. A operação integrada mobilizou a Polícia Civil, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Brigada Militar, com vistorias concentradas em propriedades rurais de Aratiba, Três Arroios, Severiano de Almeida e Getúlio Vargas.
As diligências tiveram início no dia 19 de outubro após denúncias de exploração na Linha Três Barras, interior de Aratiba, onde os agentes encontraram os primeiros sete estrangeiros e um brasileiro instalados em habitações sem salubridade. Com o avanço das inspeções regionais em 20, 21 e 23 de outubro, outros grupos foram localizados em situação de extrema precariedade vinculados à colheita de frutas cítricas.
Aliciamento, servidão por dívida e rotina degradante
Os depoimentos tomados pelos auditores fiscais e policiais apontam para uma rede estruturada de tráfico de pessoas, com aliciamento executado ainda nos países de origem sob falsas promessas de salário fixo, estadia, alimentação e documentação:
Entrada clandestina: os imigrantes foram orientados a ingressar em território brasileiro por rotas ilegais, fora dos postos oficiais de controle migratório;
Cobranças abusivas e servidão: ao chegarem às lavouras, os trabalhadores foram informados sobre dívidas retroativas de hospedagem, comida e frete, com retenção ou atraso sistemático dos vencimentos contratuais;
Jornadas exaustivas e transporte irregular: os relatos descrevem turnos diários de até 12 horas, ausência de folga semanal e deslocamentos até os pomares na carroceria aberta de caminhões mediante cobrança de tarifa;
Estrutura habitacional precária: os imóveis não tinham colchões nem camas em quantidade suficiente, apresentavam higiene inadequada e isolamento geográfico deliberado, com bloqueio prático de contato com parentes devido à falta de sinal celular e internet.
Assistência e desdobramentos penais
Todas as vítimas identificadas foram retiradas das frentes de trabalho e transferidas para abrigos emergenciais com o suporte das redes municipais de assistência social de Aratiba, Erechim, Severiano de Almeida, Três Arroios e Getúlio Vargas. O Ministério Público do Trabalho coordena a garantia das verbas rescisórias e a regularização migratória.
A Polícia Civil já identificou suspeitos de intermediar o aliciamento e a logística do grupo, que permanecem foragidos. As autoridades continuam as inspeções na região para apurar a presença de mais trabalhadores nas mesmas condições e concluir o inquérito policial por redução a condição análoga à de escravo e tráfico internacional de pessoas.