Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.
A Justiça de São Paulo tornou o deputado estadual Lucas Bove (PL) réu em um segundo processo criminal envolvendo a ex-mulher, a influenciadora Cíntia Chagas. A nova ação foi aberta após o parlamentar descumprir 10 medidas protetivas concedidas a Cíntia no âmbito de outro processo, no qual ele responde por violência doméstica, psicológica, ameaça e perseguição.
A decisão foi tomada pelo juiz Felipe Pombo Rodriguez, da Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, que acolheu denúncia oferecida pelo Ministério Público.
"O fato criminoso está devidamente descrito na exordial acusatória, imputando ao réu 10 (dez) episódios de descumprimento de medidas protetivas. O acusado está suficientemente identificado e a classificação jurídica dos fatos coaduna-se com a narrativa apresentada", afirmou Rodriguez em trecho da decisão, obtida pela reportagem.
O magistrado acrescentou ainda que há provas que demonstram o descumprimento das medidas por parte do deputado estadual, "preenchendo a justa causa necessária para o exercício da ação penal. Ambos os processos tramitam em segredo de Justiça.
A reportagem procurou a defesa do deputado, mas ainda não obteve retorno. O espaço segue aberto. Em outras oportunidades, os advogados de Bove afirmaram que ele é inocente e negaram as acusações de violência.
Em nota, a advogada Gabriella Manssur, que representa Cíntia Chagas, afirmou que a decisão de tornar Lucas Bove réu em outro processo representa uma resposta a "todas as mulheres que encontram coragem para denunciar a violência".
"As medidas protetivas não são meras formalidades: são instrumentos essenciais de salvaguarda da integridade física e psicológica da vítima, e seu descumprimento deve ser tratado com a máxima seriedade pelo sistema de Justiça", acrescentou.
Na decisão, o juiz também marcou as audiências de instrução e julgamento: 6 de outubro de 2025, às 13h, para oitiva da vítima e das testemunhas de acusação; 7 de outubro, às 13h, para as testemunhas de defesa; e 8 de outubro de 2025, às 13h, para o interrogatório do réu.
No ano passado, após a Justiça acolher denúncia do Ministério Público, o magistrado negou o pedido de prisão preventiva — por tempo indeterminado —, mas aplicou multa de R$ 50 mil ao deputado. Lucas Bove não está preso e responde a ambos os processos em liberdade.
Em razão do caso, o Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) informou, no início de março, a reabertura do processo por quebra de decoro parlamentar contra o deputado. O colegiado havia decidido pelo arquivamento da denúncia, mas voltou atrás após Bove se tornar réu.
Violência doméstica
Cíntia registrou um boletim de ocorrência acusando o ex-marido de violência psicológica e ameaça em 4 de setembro do ano passado. Ela relatou viver um relacionamento abusivo, marcado por ciúmes, possessividade e controle por parte do deputado.
Na denúncia, oferecida à Justiça em 23 de outubro do mesmo ano, a promotora Fernanda Raspantini Pellegrino afirmou que Bove é acusado de crimes praticados durante e após o relacionamento. O documento descreve uma escalada de violência física, moral e emocional entre 2022 e 2025.
O texto cita episódios em que ele teria beliscado e apertado o corpo da vítima, inclusive na presença de outras pessoas, enquanto fumava "maconha". Segundo a denúncia, o deputado também teria apontado uma arma de fogo em direção à ex-esposa "como se fosse uma brincadeira" e arremessado uma faca contra a perna dela.
Ainda de acordo com a acusação, Bove teria ameaçado "matá-la" caso descobrisse uma traição, além de repetir intimidações em mensagens enviadas a pessoas próximas.
A promotora afirmou ainda que ele controlava as roupas, a rotina e as interações sociais da ex-mulher, exigindo comprovações de localização, restringindo viagens de trabalho e interferindo em campanhas publicitárias.
Conforme laudos psicológicos anexados ao processo, a vítima desenvolveu transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e passou a viver sob escolta e em veículo blindado, por medo do ex-marido.