A médica Alicia Dudy Muller Veiga, acusada pelo desvio de quase R$ 1 milhão dos fundos da festa de formatura de sua turma na Universidade de São Paulo (USP), foi condenada a 3 anos de prisão, em regime inicial semiaberto, por aplicar um golpe de mais de R$ 190 mil em uma lotérica da capital paulista.
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A decisão, publicada na última quarta-feira, 26, é da juiza Adriana Costa, da 32ª Vara Criminal do Foro Central Criminal da Barra Funda, em São Paulo. Além da pena de prisão, Alicia também foi condenada ao pagamento de multa no valor de um salário mínimo.
O caso aconteceu em julho de 2022. Alicia, à época estudante de medicina da USP, tentou realizar R$ 891,5 mil em apostas em uma lotérica localizada na zona sul de SP, mas pagou apenas R$ 891,53, valor mil vezes menor que o era devido.
De acordo com o Ministério Público, a estudante afirmou que pagaria pelas apostas com transferências via Pix. Quando a compra já somava R$ 193,8 mil, o gerente da lotérica questionou a transação e constatou que havia apenas um agendamento de transferência, e não o pagamento completo.
Os funcionários da lotérica pediram que a estudante mostrasse o comprovante. Alicia, por sua vez, teria apresentado um extrato de transferência no valor de R$ 891,50 e, em seguida, deixado o local com cinco apostas registradas, de R$ 38,7 mil cada uma, apontou a Promotoria.
Na decisão, a juíza afirmou que há prova de materialidade do crime e indícios suficientes de autoria para condenar a médica.
Relembre o caso da formatura na USP
O caso veio à tona no começo de 2023, quando estudantes de Medicina da USP abriram um boletim de ocorrência contra a colega de turma. As investigações apontaram que a então estudante, que era presidente da comissão de formatura, usava o dinheiro levantado para a festa em proveito próprio, para a compra de celular, relógio, aluguel de carros e gastos com aluguel de apartamento.
A polícia percebeu a melhora do padrão de vida da jovem em pouco tempo e a denúncia por estelionato contra Alicia foi feita pelo Ministério Público em março de 2023. A peça, assinada na época pelo promotor Fabiano Pavan Severiano, afirma que a jovem teria praticado estelionato por oito vezes e tentado em uma nona oportunidade, que não chegou a ser concretizada.
A quantidade de crimes praticados pela jovem se refere ao número de ocasiões em que ela teria pedido à empresa contratada para organizar a festa para transferir o montante da conta bancária da comissão para a sua particular. Os repasses teriam começado em novembro de 2021 e se estendido ao longo de 2022 em outras sete ocasiões.
Os oito pedidos totalizaram a transferência de R$ 927.765,33 para as contas de Alicia. Ela teria tentado uma nova transferência em janeiro de 2023, mas a empresa, já ciente da situação por colegas da turma, não efetuou o que seria o nono repasse.
Ainda em janeiro de 2023, Alicia admitiu aos colegas de turma ter perdido o dinheiro arrecadado pela comissão. Primeiro, disse que tinha investido o dinheiro e sido vítima de um golpe praticado por uma empresa de investimentos.
Dias depois, após o episódio tornar-se público e os colegas registrarem boletim de ocorrência, ela admitiu, em depoimento à Polícia Civil, que usou os valores acumulados no fundo da formatura para gastos pessoais e apostas em casas lotéricas para tentar, sem sucesso, reaver o dinheiro perdido.
Em julho de 2024, Alicia Dudy Muller Veiga foi condenada a cinco anos de prisão pelo desvio dos valores. Mesmo condenada ao cumprimento de pena em regime semiaberto, ela terminou a faculdade e conseguiu o registro no Conselho Federal de Medicina (CFM) como médica em dezembro do mesmo ano.
O juiz Eduardo Balbone Costa, da 7ª Vara Criminal da Capital, que assina a decisão por estelionato contra os colegas de turma, diz que a então estudante de medicina da USP se prevaleceu da sua condição de presidente da comissão de formatura "para engendrar um plano" para apossar o dinheiro arrecadado ao longo de meses "a fim de obter lucro para si com a aplicação especulativa daquele capital".
*Com Estadão Conteúdo.