O julgamento dos três policiais militares acusados de matar o empresário Antonio Vinicius Gritzbach, o delator do Primeiro Comando da Capital (PCC), começou nesta segunda-feira, às 10 horas, na Vara do Júri de Guarulhos. Após a escolha dos sete jurados - quatro homens e três mulheres - o tribunal passou a ouvir a primeira das nove testemunhas arroladas pela acusação: o funcionário do aeroporto Willian Souza Santos, de 41 anos, que foi baleado no atentado. "Vi o corpo dele (Gritzbach) caído e a fumaça levantando", afirmou.
O depoimento de Willian foi rápido. Durou menos de 30 minutos. Ele disse que nunca havia passado por essa situação antes - uma bala perdida acertou três de seus dedos. O atentado mudou a sua vida. Ele chegou a deixar o emprego - onde trabalhava havia sete anos - cinco meses depois do crime e só retornou recentemente ao trabalho. Relatou ainda aos jurados o pânico que se seguiu aos disparos.
Logo após seu depoimento, começou o depoimento da outra sobrevivente do crime, a gerente de TI Samara Lima de Oliveira, de 30 anos. Ela disse que foi atingida de raspão na barriga enquanto caminhava para pegar um carro de aplicativo após voltar de Salvador. "Achei até que eram fogos de artifício, que estava tendo um jogo ou algo assim", disse.
"Senti um choque na barriga, dei uma paralisada e corri para atrás de uma coluna", acrescentou. Como o ferimento foi superficial, ela foi atendida na enfermaria do aeroporto e liberada logo em seguida. Seu depoimento terminou às 11h15. O plano da Vara do Júri era ouvir ainda hoje as nove testemunhas arroladas pela acusação, entre elas a delegada Luciana Peixoto, que presidiu o inquérito do caso, feito pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
A sessão do júri começou com a escolha do conselho de sentença. Era dez horas quando os 21 jurados pré-escolhidos se apresentaram com suas malas. A expectativa é que o julgamento termine somente na sexta-feira, dia 26. Os defensores dos réus recusaram sete dos jurados que foram sorteados, enquanto a acusação usou o direito de rejeitar um dos sorteados. Logo em seguida à escolha dos sete jurados, a primeira testemunha foi chamada a depor.
Gritzbach foi assassinado com oito tiros de fuzil em 8 de novembro de 2024, na área de desembarque do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Os tiros disparados pelos assassinos, que desceram de um Gol preto para emboscar a vítima mataram ainda o motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, de 42 anos. "Eu quero Justiça. Não só para o Vinícius, mas o meu filho Celso precisa de Justiça. E isso significa a condenação dos réus. Meu filho estava trabalhando e era pai de três filhos", afirmou Aparecida Camila de Araújo, mãe de Celso.
Além de familiares das vítimas, jornalistas ocupavam o plenário da Vara do Júri. À esquerda estavam sentados os advogados dos réus, que chegaram ao tribunal reafirmando que os três PMs são inocentes. A defesa tentará convencer os jurados que eles foram vítimas de uma armação da Polícia Civil, responsável pela investigação com o objetivo de encobrir os verdadeiros assassinos.
"Hoje nós vamos desmascarar essa hipótese da acusação e mostrar que havia a banda podre da Polícia Civil extorquindo o Gritzbach e que tinha o interesse e motivação para dar cabo da vida dele advogado Claudio Dalledone Júnior, que defende o soldado Ruan Silva Rodrigues, de 33 anos, um dos dois policiais acusados de disparar com fuzis contra as vítimas. Além dele, são acusados os cabo Dênis Antonio Martins, de 41 anos, e o tenente Fernando Genauro da Silva, de 35 anos. Dênis é acusado de ser o outro atirador enquanto o tenente seria o homem que dirigia o Gol e deu fuga aos assassinos. Todos alegam inocência.
Segundo a acusação, eles foram pagos com criptomoedas pelo crime - o PCC oferecia uma recompensa de R$ 3 milhões para quem matasse Gritzbach, que prometia revelar em seu acordo de delação premiada os esquemas de lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas em São Paulo. A promotoria pede a condenação dos policiais por homicídio quadruplamente qualificado e ainda pelo assassinato do motorista de aplicativa e pelas tentativa de homicídio de Wilson e de Samara.