"Carnaval é política", diz diretor de documentário sobre fundadora da Lavagem da Sapucaí

O documentário "Oní Sáà Wúre - Lavagem da Sapucaí", dirigido por Saullo Farias Vasconcellos, acompanha a trajetória de Maria Moura, idealizadora da Lavagem do Sambódromo do Rio de Janeiro, em 2011. O filme foi lançado no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, no início de abril, e fará sua estreia no Brasil em outubro.

27 abr 2026 - 11h57

"O meu caminhar, durante todos esses anos foi sempre rua e terreiro": diz a ekedi Maria Moura, 95 anos, nos primeiros minutos do documentário de Saullo Farias Vasconcellos. Ela, que é uma das maiores personalidades do candomblé do Rio, célebre militante do Movimento Negro, feminista e advogada, tem ares de um personagem fictício de tão cativante. Mas diante das câmeras do cineasta cearense revela um perfil verdadeiro de lutas e conquistas, entre elas, a de ter criado a Lavagem da Sapucaí, evento que chama de "o Carnaval Popular do Rio".

O cineasta Saullo Farias Vasconcellos, diretor do documentário “Oní Sáà Wúre – Lavagem da Sapucaí” e fundador da associação “La Terreirada”, em Paris.
O cineasta Saullo Farias Vasconcellos, diretor do documentário “Oní Sáà Wúre – Lavagem da Sapucaí” e fundador da associação “La Terreirada”, em Paris.
Foto: © Divulgação / RFI

Longe do glamour dos desfiles televisionados e das celebridades, o evento vem sendo realizado há 15 anos, antes do último ensaio técnico das escolas de samba do Grupo Especial do Rio. O sucesso foi tamanho que a tradição se consolidou como um grande momento de celebração pública e coletiva, tornando-se um marco oficial do calendário pré-carnavalesco.

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Em entrevista à RFI, Saullo conta que conheceu Maria Moura em 2012, no Centro Cultural Cartola, na Mangueira, onde dentro de sua função de "griô" (mestre), ela participava de um programa de contação de histórias para crianças. "Quando eu a encontrei, eu fiquei muito encantado", afirma o cineasta, ressaltando o vasto conhecimento que a ekedi tem do samba, do carnaval e do candomblé. "Ela é uma referência, uma pessoa empoderadíssima, eu precisava registrar essa mulher que tem muita coisa para contar e que a gente não conhece. Eu achava que o Brasil precisava saber o que ela passou e conhecer a vida dela", diz.

Na época, Maria Moura estava iniciando o projeto da lavagem do sambódromo, e convidou Saullo para conhecer o evento. "Ali eu já vi que ela tinha uma potência de um personagem, porque ela contava as histórias e eu ficava encantado. Aí a gente começou a ter uma relação muito próxima, porque eu a escutava e ela via que eu tinha interesse em aprender. E hoje nós somos amigos, como se fôssemos da mesma família até", conta.

A relação do cineasta com Maria Moura se tornou o fio condutor do documentário, que é narrado pela personagem. No filme, Saullo aparece frequentando a casa da militante e filma até os próprios diálogos com ela. "Foi uma escolha minha ter toda essa narração por ela. O filme é uma contação de história dela comigo e da nossa relação", diz.

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Além disso, o documentário também é uma forma que Saullo encontrou para propagar a denúncia do racismo e da intolerância à cultura afrobrasileira. "O Brasil ainda é um país, infelizmente, racista. Muitos terreiros são violados e destruídos. As pessoas não respeitam a diversidade religiosa", observa.

Por isso, para o cineasta, muito mais do que um evento cultural, a lavagem promovida por Maria Moura é um ato político. "Carnaval é festa, é folia, mas carnaval é política. Quando ela leva essa tradição afrobrasileira do candomblé para um espaço institucionalizado como o sambódromo, isso é um gesto de resistência, das mulheres pretas, das mães-de-santo e do samba", diz.

Aumento dos feminicídios no Brasil

No lançamento do documentário, no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, realizado no início de abril no cinema Arlequin, Maria Moura fez um emocionante discurso denunciando o aumento dos feminicídios no Brasil. "Estamos todas nós, mulheres, correndo risco. É preciso alertar as autoridades", declarou, lembrando que sua idade não é um impedimento para que ela siga na causa feminista.  

"Foi muito importante, diz Saullo, lembrando a vinda de Maria Moura a Paris. "Ela, com a força de seus 95 anos, fez essa viagem, atravessou o Atlântico e, ao chegar, ela me disse: 'meu filho, vim para cá porque eu tenho uma missão'", relembra. "Depois que acabou a sessão [no festival], várias mulheres vinham falar comigo e com ela, agradecendo a fala dela e também a denúncia. O percurso de Maria Moura sempre foi de denúncia. Ela nunca foi de ficar calada. Ela mesmo diz que só chegou até aqui porque teve que falar muito, teve que insistir muito no que queria, porque senão ela não ia conseguir conquistar o que conquistou", aponta.

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Segundo Saullo, o filme fará sua estreia no Brasil em outubro, no Festival do Rio. O diretor também inscreveu o documentário em outros festivais, como o de Biarritz, no sudoeste da França, e no de Xangai, na China. "Eu gostaria muito de levar o filme para lá, porque acho que é um país muito interessante dentro da tradição, principalmente do carnaval. Eles dialogam muito com a gente e acho que eles vão se reconhecer um pouco na nossa tradição", diz.

Associação La Terreirada

Saullo também é o fundador da associação La Terreirada, em Paris. O espaço promove a cultura brasileira e acolhe artistas vindos do Brasil.

Na programação do local, está um evento dedicado ao Super 8 em 24 de maio, com a presença do cineasta pernambucano Ivan Cordeiro.

Em 27 de junho, a Terreirada acolhe uma festa junina. Nos dias 11 e 12 de julho, a associação promoverá um festival de verão, com a previsão de projetar, durante o evento, "Oní Sáà Wúre - Lavagem da Sapucaí".

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