Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
No embate pessoal, a votação vai dizer como Lula encerrará sua carreira política e até quando o ex-presidente Jair Bolsonaro cumprirá pena. Sobre aspectos gerais, estão na mesa visões divergentes sobre meio ambiente, política social, armamento e soberania.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu a largada de sua campanha em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, onde morou e foi líder sindical. Ele destacou a trajetória pessoal de vida, preocupação com a educação de jovens e a questão da violência. O petista mostrou que uma das estratégias é comparar seus anos de governo com os de Jair Bolsonaro.
"Quanto eu era presidente, nós queimamos quase 500 mil armas do povo, armas que o povo devolveu. Sabe o que eles fizeram? Eles distribuíram, venderam mais de um milhão de armas. E venderam um bilhão de balas. Essa gente fala de segurança. Mas quem ficou com esse um bilhão de balas? Foi o crime organizado, que travestido de boa vontade foi comprar revólver, pistola, fuzil para continuar matando gente", discursou o candidato do PT.
Flávio Bolsonaro em Copacabana
Já Flávio Bolsonaro escolheu a orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, berço político da família, para abrigar seu primeiro evento de campanha. O candidato do PL disse que está diante de uma missão divina e tentou mostrar que é a encarnação da figura do pai.
"Eu estou aqui com toda a humildade, aceitando essa missão que o presidente Bolsonaro me passou porque eu tenho a convicção de que há um propósito de Deus para o nosso país. Eu não sei qual é o medo que eles têm dessa palavrinha mágica chamada Bolsonaro. Porque hoje todo mundo vê que Bolsonaro nunca foi ameaça para a democracia. Nós sempre fomos o último obstáculo para que esse país não virasse uma ditadura de uma vez por todas. Volta, Bolsonaro", pregou o nome do PL.
Para afastar críticas que o clã Bolsonaro atuou pelo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros, Flávio Bolsonaro afirmou que é o único que tem condições de negociar com outros países acordos favoráveis para o Brasil.
Tarifaço de Trump na campanha
Em meio à disputa política, vários setores são diretamente afetados como calçados, madeira, derivados de alumínio e aço, ainda que a lista de exceção seja muito mais ampla nesse novo tarifaço de Trump. O economista e professor do IBMEC, Gilberto Braga, disse à RFI que a reciprocidade, anunciada pelo Brasil, é uma estratégia de defesa que na prática é construída gradativamente.
"Essa negociação é como se fosse um jogo de xadrez, em que os Estados Unidos jogam com as peças brancas no tabuleiro, ou seja, eles fazem os primeiros movimentos. E o Brasil joga com as peças pretas, reagindo e se defendendo ao movimento das brancas."
O analista afirmou que uma certa distensão poderia ser obtida com uma conversa direta entre os dois mandatários, Lula e Donald Trump. O novo diálogo já foi aventado pelo chefe brasileiro, mas o economista ressalta que isso também é afetado pelo clima eleitoral.
"O que é diferente nesse momento é que nós estamos em plena corrida eleitoral no Brasil. E há um interesse norte-americano deflagrado e confessado de apoiar o candidato de oposição ao governo atual. Isso dá um contorno especial que não existia nas conversas bilaterais anteriores. Por isso a gente não sabe ainda se uma conversa vai ser tão efetiva quanto as anteriores, mas há a sensação de que um contato não prejudica o ambiente econômico e que poderá eventualmente trazer algum grau de melhora", analisa Braga.