Bets no Brasil: o papel dos governos Temer, Bolsonaro e Lula no mercado de apostas

Lula endurece discurso pela proibição das apostas online, mas foi seu governo que regulamentou os jogos, depois que Temer e Bolsonaro deixaram decretos no apagar das luzes dos seus governos.

25 set 2026 - 14h04
Resumo
Legalizadas por Temer em 2018 e sem regras na gestão Bolsonaro, as apostas online foram regulamentadas por Lula em 2023. O setor movimentou bilhões e fez do Brasil um dos maiores mercados globais, mas gerou impactos severos, como o endividamento popular e o uso de verbas sociais. Diante da pressão pública, alertas do Banco Central, milhares de processos e ações no STF, o governo Lula avalia restringir ou até proibir as bets, medida que sofre forte resistência de grandes clubes de futebol.
Propaganda de bet em uma rua.
Propaganda de bet em uma rua.
Foto: NELSON ALMEIDA / AFP via Getty Images / BBC News Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve apresentar nesta sexta-feira (25/9) "novas medidas de proteção às famílias e à economia popular". A BBC News Brasil apurou que Lula deve anunciar medida restringindo ou até mesmo proibindo as bets no Brasil.

A publicação de algo nesse sentido era esperada em edição extra do Diário Oficial desta sexta, ou, no máximo, na segunda (28/9), e vem na esteira das recentes críticas que o presidente tem feito às apostas online.

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Nesta semana, Lula afirmou que o Brasil "não vai tolerar" o modelo de negócios das bets, que, segundo ele, transforma o vício em lucro e contribui para o endividamento de famílias.

Se confirmada a proibição, o anúncio ocorrerá em meio a pressões da sociedade: pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na quarta-feira (23/9) apontou que 75% dos brasileiros são a favor da proibição das apostas.

Segundo estudo publicado pela BBC News Brasil, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano.

Por outro lado, alguns clubes de futebol afirmam que o esporte "acabará" se as bets forem proibidas. Em manifesto divulgado na semana passada, clubes como o Palmeiras, Santos, São Paulo, Botafogo, Flamengo e Fluminense, pediram a regulação das apostas e o combate à ilegalidade.

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"O torcedor não pode pagar essa conta. Se acabar o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é que acaba", diz o manifesto.

Embora o assunto esteja no centro do debate hoje, a discussão sobre a legalização e regulamentação das bets atravessa três governos. Entenda abaixo o papel de cada um no mercado que se tornou bilionário em poucos anos.

2018: Governo Temer, a entrada das bets nos últimos dias de governo

Em 12 de dezembro de 2018, no fim do governo de Michel Temer (MDB), o presidente sancionou a Lei nº 13.756/2018, que criou a modalidade lotérica de "quota fixa", sistema no qual o apostador sabe exatamente quanto vai receber se acertar o palpite.

Essa lei, que dispõe principalmente sobre as regras e reestruturação do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) e sobre a destinação do produto da arrecadação das loterias, representou o marco inicial da legalização das apostas esportivas no Brasil.

Pela legislação, havia um prazo de dois anos (prorrogáveis por mais dois) para que o Ministério da Fazenda regulamentasse o mercado.

Mas o prazo expirou sem a devida tributação e fiscalização estruturada.

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Governo Bolsonaro: bets liberadas, sem regulamentação nem impostos

Em 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro (PL), o Ministério da Economia, sob Paulo Guedes, abriu consulta pública com uma minuta de decreto que regulamentava a modalidade.

Em agosto do ano seguinte, o decreto 10.467 qualificou as apostas de quota fixa no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) incluindo a modalidade no Programa Nacional de Desestatização, com o BNDES responsável pelo processo.

Mas a norma acabou revogada.

Antes de deixar a presidência, no fim de 2022, Bolsonaro deixou um decreto de regulamentação da lei sancionada por Temer em 2018, mas não o publicou.

Enquanto não houvesse regulamentação, as bets operariam sem fiscalização e sem pagar impostos. Ou seja: ficaram assim por 7 anos, até 2023.

Para especialistas, nesse intervalo as bets colocaram em prática um arsenal de estratégias para atrair apostadores sem nenhum tipo de controle.

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Com isso, transformaram o Brasil em uma espécie de "laboratório", onde facilidades como o uso massivo do celular e até o Pix ajudaram na popularização.

Governo Lula: regulamentação, impostos e endividamento

Em 29 de dezembro de 2023, no fim do primeiro ano do governo Lula, o presidente sancionou a Lei 14.790/2023, conhecida como Lei das Bets.

Lula vetou alguns pontos, mas a nova legislação abrangeu as apostas esportivas em eventos reais e os jogos online de quota fixa, como os cassinos virtuais tipo "Tigrinho".

Em 2024, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) foi criada no Ministério da Fazenda.

Naquele momento, o Banco Central (Bacen) já fazia um alerta: cinco milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família haviam enviado dinheiro a empresas de apostas usando o Pix, segundo nota técnica do Bacen.

Os dados levaram o Supremo Tribunal Federal (STF) a determinar a restrição ao uso de recursos de programas assistenciais para apostas online, medida implementada neste mês de outubro pela Secretaria de Prêmios e Apostas.

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Em documento anexado ao relatório do STF, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pedia que as bets e os jogos do "Tigrinho" voltassem à ilegalidade. Ele afirmou que a legislação vigente gerava um "quadro grave de violação a direitos fundamentais", diante do "caráter predatório que o mercado de apostas virtuais ostenta".

Temer sancionou a lei que autorizou as bets, mas deixou para Bolsonaro regulamentá-la
Foto: Patricia Monteiro/Bloomberg via Getty Images / BBC News Brasil

Ainda em 2024, o STF aprovou por unanimidade a suspensão da publicidade de bets dirigida a crianças e adolescentes e mandou o governo impedir o uso de recursos do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) em apostas.

No ano passado, uma projeção da consultoria internacional Regulus Partners, focada no setor de esportes e lazer, mostrou que as empresas de apostas online faturariam US$ 4,139 bilhões (cerca de R$ 22 bilhões) no Brasil.

O montante posicionou o país como quinto maior mercado do mundo para o setor, conforme mostrou reportagem da BBC News Brasil na época.

Foi a primeira vez que o Brasil passou a ser considerado na lista de maiores mercados da Regulus Partners, já que até 2024 não havia regulamentação para a operação das bets no país.

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Segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, o Brasil tem atualmente 188 bets autorizadas em operação.

O aumento da penetração dos jogos de azar online no Brasil e a expansão do mercado em torno deles renderam R$ 37 bilhões em receita para as empresas do segmento no ano passado.

Ao mesmo tempo, brasileiros abriram mais de 10 mil processos contra empresas de apostas online desde que a Lei das Bets foi sancionada, em 2023. A principal reclamação, segundo levantamento feito a pedido da BBC News Brasil pela Predictus, é que o consumidor não consegue sacar o prêmio.

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