Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília
Cerca de 35% dos eleitores brasileiros veem a chancela do republicano de forma negativa, segundo pesquisa. O percentual pode não parecer elevado quando comparado aos que avaliam o apoio de forma positiva (26%) ou aos indiferentes (32%), mas, em uma disputa acirrada como a projetada para outubro, a decisão tende a ocorrer justamente na margem.
Entre os eleitores de Lula, a rejeição ao apoio de Trump é maior, como era esperado: 48%. Entre os de Ciro Gomes (PSDB), o índice é de 42%. O cenário muda no caso de Flávio Bolsonaro (PL), apontado pelas pesquisas mais recentes como o principal adversário do presidente. Entre seus eleitores, 25% veem Trump como um mau cabo eleitoral, enquanto 41% avaliam sua imagem de forma positiva e 27% se dizem indiferentes.
Ainda assim, isso está longe de significar que a busca por esse apoio fortaleceria a campanha. Não por acaso, integrantes da equipe próxima ao filho do ex-presidente vêm orientando Flávio Bolsonaro a evitar comentários sobre o republicano. A explicação matemática é simples: o fato de um quarto dos eleitores que pretendem votar no candidato da oposição rejeitar a ideia de vê-lo alinhado ao presidente dos Estados Unidos indica um potencial de perda de cerca de 11 pontos percentuais.
Mesmo que apenas metade desse contingente se concretize, o impacto seria suficiente para alterar o resultado da eleição. Recentemente, após um discurso em um evento da extrema direita no Texas, Flávio foi rotulado de "entreguista" ao sugerir que o Brasil "é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China".
Entre os eleitores de Ronaldo Caiado (PSD), 32% veem o apoio de Trump de forma positiva, 30% de maneira negativa e 35% se dizem indiferentes. Já entre os prováveis eleitores de Romeu Zema (Novo), 35% avaliam o apoio positivamente, 31% negativamente e 27% se mostram indiferentes.
Esses dados não são propriamente novidade. A recente eleição na Hungria, que retirou do poder Viktor Orbán, mesmo após o vice-presidente americano, JD Vance, ter feito campanha pessoalmente para o primeiro-ministro de extrema direita, é apontada como evidência de que o apoio do americano pode ser tóxico. O mesmo ocorreu no Canadá e na Austrália. Ainda assim, Trump tem tentado emplacar aliados próximos na América Latina.
Encontro entre Trump e Lula
Nesta terça-feira, espera-se que o Palácio do Planalto e a Casa Branca confirmem se será realizado o encontro presencial entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos em Washington, previsto para esta quinta-feira. A viagem tem como objetivo negociar novas bases para a relação bilateral e expor até que ponto vai a boa vontade da administração Trump em relação ao governo Lula, além da simpatia com a possibilidade de Flávio Bolsonaro se apresentar como candidato da direita.
O enfrentamento de Lula às medidas unilaterais anunciadas até aqui por Trump contra o Brasil rendeu ganhos de popularidade ao presidente. A estratégia é demonstrar que o petista dialoga de igual para igual com o líder da maior economia do mundo, manter abertos os canais institucionais e fechar aqueles ainda acessíveis à família Bolsonaro na Casa Branca. Na pauta do encontro estão minerais críticos, big techs e eventuais novas tarifas que os EUA estariam dispostos a impor às exportações brasileiras após o término da validade da taxa atual de 10%.
Desde que a Suprema Corte americana derrubou o tarifaço de 50%, o governo Trump passou a aplicar uma tarifa provisória de 10% para todos os países. Paralelamente, mantém abertas duas investigações sobre o que alega serem práticas comerciais desleais adotadas pelo Brasil. Em uma delas, são alvo o Pix, o tratamento dado às big techs americanas, a tarifa de importação do etanol dos EUA, questões de propriedade intelectual e até o comércio da Rua 25 de Março, em São Paulo.
Os eleitores ouvidos pela pesquisa do Instituto Real Time Big Data, também afirmam acreditar que o conflito entre Irã e Estados Unidos elevará os preços de alimentos e combustíveis no Brasil. Essa percepção é compartilhada por 77% dos eleitores de Lula, 82% dos que pretendem votar em Flávio Bolsonaro e 85% dos apoiadores de Caiado. Entre os eleitores de Zema, o índice chega a 88%, e entre os de Ciro Gomes, a 81%.