Após mais de 25 anos de negociações, o tratado econômico entre os países que compõem o Mercosul e a União Europeia (UE) foi assinado.
A cerimônia que ratificou o tratado aconteceu neste sábado (17/1), em Assunção, no Paraguai.
Estavam presentes Santiago Peña, presidente do Paraguai, Javier Milei, presidente da Argentina, Yamandú Orsi, presidente do Uruguai, Rodrigo Paz, presidente da Bolívia, José Raúl Mulino, presidente do Panamá, Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu.
Em seu discurso, Peña lembrou do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não foi ao evento, e disse que, "sem ele, não haveria acordo".
Já Paz e Milei aproveitaram a ocasião para prestar solidariedade ao povo venezuelano após a prisão de Nicolás Maduro.
Pelo lado europeu, Costa celebrou a assinatura do acordo em um mundo "cada vez mais turbulento" e von der Leyen destacou que a aliança dos blocos busca um "comércio justo no lugar de tarifas".
A assinatura do acordo, no entanto, não significa que ele já entrará em vigor.
Ele ainda precisará ser ratificado pelos parlamentos dos países envolvidos, algo que pode enfrentar muitas resistências e gerar modificações na configuração final do tratado (entenda mais a seguir).
Para os brasileiros, analistas projetam que o acordo Mercosul-UE pode significar uma redução no preço de alguns produtos importados, como vinhos, azeites, queijos e lácteos.
Também é esperada a chegada de algumas marcas que não eram comercializadas no país, como a de alguns chocolates premium.
Uma redução de preços também poderá acontecer com outros itens, como veículos, medicamentos e insumos para o agro (como maquinários e produtos veterinários).
Já na exportação, a tendência é que produtos agropecuários e calçados brasileiros cheguem com mais facilidade (e menos taxas) aos países europeus.
As negociações entre os blocos tinham chegado a um impasse, que só foi destravado no final de 2025, quando o Parlamento Europeu aprovou salvaguardas para proteger produtos agrícolas europeus.
As salvaguardas são mecanismos que haviam sido sugeridos pela França como forma de proteger os agricultores do país contra uma possível invasão de produtos agrícolas do Mercosul, em especial de carne.
Elas definem em quais circunstâncias a União Europeia poderia suspender temporariamente as vantagens tarifárias concedidas ao Mercosul.
Por que Lula não participou do evento
Lula não esteve presente na cerimônia em Assunção.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo e pelo G1, o governo brasileiro entendeu que o evento de assinatura deveria envolver apenas os representantes de Relações Exteriores dos países sul-americanos e foi elevado para o nível dos chefes de Estado a partir da iniciativa do presidente do Paraguai, Santiago Peña, que atualmente ocupa a presidência do bloco sul-americano.
Peña, aliás, citou Lula em seu discurso durante a assinatura do acordo e destacou o presidente brasileiro como "fundamental" no processo de aproximação entre Mercosul e UE.
"Sem ele, esse acordo não seria possível", destacou o presidente paraguaio.
Lula se reuniu com von der Leyen, no dia anterior (16/1), no Rio de Janeiro.
Na ocasião, a presidente da Comissão Europeia celebrou o acordo e prometeu que "o melhor está por vir".
"É assim que a gente cria a prosperidade verdadeira, que é a prosperidade compartilhada. Nós concordamos que o comércio internacional não é um jogo de zero a zero", pontuou ela.
Já Lula prometeu "padrões elevados de respeito aos direitos trabalhistas e à defesa do meio ambiente".
"Não nos limitaremos ao eterno papel de exportador de commodities. Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado", discursou o presidente brasileiro.
O que é o acordo Mercosul-UE e quais impactos ele pode ter?
O acordo Mercosul-UE prevê a redução de tarifas comerciais e a facilitação de investimentos entre os dois blocos, que englobam mais de 700 milhões de pessoas e formarão uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.
A principal expectativa é que a parceria alavanque o comércio entre os dois continentes e seja um instrumento de fortalecimento das duas regiões, em um mundo cada vez mais polarizado entre China e Estados Unidos.
O acordo prevê a redução de tarifas de importação, que pode ser imediata ou gradual (em até 15 anos), a depender dos setores.
Essa liberação vai atingir 91% dos bens que o Brasil importa da União Europeia e, do outro lado, 95% dos bens que o bloco europeu importa do Brasil.
Quando entrar em vigor, o acordo vai alavancar alguns setores brasileiros (principalmente o agronegócio) e pode prejudicar outros, mas governo e economistas têm uma visão otimista sobre o saldo desse impacto para o crescimento do país.
Além disso, pode beneficiar o consumidor, com o potencial barateamento de produtos importados, como azeites, queijos, vinhos e frutas de clima temperado (frutas secas, peras, maçãs, pêssegos, cerejas e kiwis).
Esse impacto, porém, vai ser gradual e pode ser compensando por outros fatores que afetam os preços dos produtos, como a taxa de câmbio, ressalta o economista Felippe Serigatti, pesquisador da FGV Agro.
Fernando Ribeiro, coordenador de estudos de comércio internacional do Ipea, ressalta que o principal impacto nos preços do consumidor será indireto, ao deixar a produção brasileira mais barata, devido à importação de máquinas e insumos a preços menores.
"E quando a gente vê os produtos cuja importação mais cresce [nas simulações sobre o impacto do acordo], são exatamente máquinas, equipamentos elétricos e outros itens usados como insumos para produção industrial", reforça Ribeiro.
Um estudo divulgado em 2024 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou que o acordo Mercosul-UE pode ter impactos positivos sobre o Produto Interno Bruto do Brasil (PIB).
Segundo a pesquisa, entre 2024 e 2040 o PIB do país teria um aumento acumulado de 0,46%, o equivalente a US$ 9,3 bilhões por ano.
Para elaborar o estudo, os pesquisadores do Ipea utilizaram projeções de crescimento econômico do Fundo Monetário Internacional (FMI) entre 2014 e 2026 e replicaram as taxas de crescimento para os anos seguintes, até 2040.
O estudo também aponta que o Brasil pode ter um aumento de 1,49% nos investimentos.
A dinâmica das importações e exportações também pode ser transformada.
As importações brasileiras pode crescer rapidamente nos primeiros anos do acordo, atingindo um pico de US$ 12,8 bilhões em 2034, antes de recuar para US$ 11,3 bilhões em 2040.
Já as exportações podem ter um aumento contínuo no mesmo período, alcançando um ganho acumulado de US$ 11,6 bilhões.
Esse movimento pode ser impulsionado por fatores como a redução de tarifas na União Europeia, concessões de cotas de exportação e queda nos custos domésticos de insumos e bens de capital, o que tornaria os produtos brasileiros mais competitivos no mercado global.
Quando o acordo com o Mercosul foi aprovado pelo Conselho Europeu, na primeira semana de 2026, von der Leyen também destacou os impactos positivos que isso traria para os países do continente.
"As exportações da UE para o Mercosul devem crescer quase 50 bilhões de euros [R$ 311,5 bilhões] até 2040, enquanto as exportações do Mercosul, por sua vez, poderão aumentar em até 9 bilhões de euros [R$ 56 bilhões]", calculou ela.
Críticas e resistências ao acordo Mercosul-UE
Nem todos os países estão satisfeitos com a assinatura do tratado.
A França lidera, ao lado da Polônia, Hungria, Áustria e Irlanda, o grupo que se opõe de forma contundente ao acordo.
Para muitos agricultores europeus, o acordo representa a abertura do mercado para uma concorrência desleal, já que esses produtos sul-americanos tendem a ser mais baratos em razão de custos trabalhistas e ambientais mais baixos.
Nos últimos dias, agricultores franceses voltaram a ocupar as ruas em protestos contra o acordo.
Cerca de 350 tratores invadiram a icônica avenida Champs-Élysées, em Paris (capital francesa), e acamparam nas proximidades do edifício do Parlamento.
Os protestos refletem um profundo mal-estar no setor agrícola francês, e a assinatura prevista do acordo entre a União Europeia e o Mercosul é vista como a gota d'água.
Os tratores de agricultores irlandeses também se fizeram ouvir nas últimas semanas. Dezenas ocuparam em massa as estradas de Athlone (Irlanda), no centro do país, exibindo faixas com slogans como "Pare UE-Mercosul" e a bandeira da União Europeia com a palavra "vendidos".
O mesmo ocorreu na Polônia, Hungria e Áustria: estradas bloqueadas, agricultores indignados e tratores nas capitais cobrando de seus parlamentares que reconsiderem um tratado negociado há 25 anos.
O temor generalizado em alguns países europeus é o de perda de renda em um setor submetido a normas de produção consideradas muito mais rigorosas do que as sul-americanas, o que implica custos mais elevados.
Especialistas concordam que as diferenças nas regras sanitárias e de bem-estar animal entre o bloco do Mercosul e o europeu são significativas. Na União Europeia, há normas rígidas sobre rastreabilidade, uso de pesticidas, hormônios e bem-estar animal.
Há receio de que produtos importados não cumpram padrões equivalentes, mas ainda assim concorram em preço, um ponto que gera rejeição tanto entre produtores quanto entre consumidores.
Embora o impacto no setor agropecuário europeu seja algo previsível, existem outros setores econômicos onde esses países podem se beneficiar do acordo com o Mercosul, apontam analistas.
É o caso, por exemplo, da indústria automobilística e de serviços. A Europa também pode ter um acesso ampliado aos minerais raros que vêm da América do Sul, o que diminuiria a dependência de importação desse material da China.
Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia concentram uma parte considerável dos recursos mundiais de lítio, grafite e níquel.
O acordo também é criticado pelas Centrais Sindicais do Cone Sul (CCSCS), grupo que reúne lideranças sindicais da América do Sul, como a Central Única dos Trabalhos (CUT) do Brasil.
A entidade avalia que o tratado "não contempla direitos, proteção e desenvolvimento social para trabalhadores".
"Não há mecanismos de participação social e ameaça a estrutura produtiva da região", critica Quintino Severo, secretário adjunto de Relações Internacionais da CUT e secretário-geral da CCSCS.
"A perspectiva é de desindustrialização, menos produção nacional e maior dependência de produtos industrializados da Europa. Isso significa enfraquecimento da indústria local e perda de empregos de qualidade", complementa ele.
Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) vê a assinatura como "um passo significativo para avançar na inserção internacional do Brasil e para o fortalecimento da indústria nacional".
Para a entidade, "o acordo deve promover impactos mais significativos sobre os investimentos bilaterais, ao ampliar a previsibilidade regulatória, reduzir barreiras tarifárias e fortalecer disciplinas relacionadas à facilitação de comércio e investimentos".
Reforço ao multilateralismo
Uma vez plenamente implementado, o acordo significará que os exportadores da União Europeia economizarão cerca de US$ 4,6 bilhões (aproximadamente R$ 24,7 bilhões) por ano em tarifas, principalmente em produtos químicos e farmacêuticos, máquinas industriais em geral e automóveis.
Mas, para muitos analistas, o acordo do Mercosul é mais estratégico do que macroeconômico e ajudaria a reduzir a influência chinesa na região.
"As implicações econômicas e os benefícios para empresas de capital aberto são modestos, mas o acordo comercial fortalece a posição geopolítica da União Europeia na América do Sul", avalia Nenad Dinic, do Equity Strategy Research da Julius Baer (Suíça).
Max Maton, economista da Oxford Economics, no Reino Unido, concorda com este ponto: "O impacto econômico total do acordo será modesto se for aprovado definitivamente. No entanto, politicamente, ele reflete um compromisso com o multilateralismo e o livre comércio, que parece estar em declínio diante das crescentes tensões geopolíticas, da transição para acordos bilaterais e da chegada de Trump [presidente dos Estados Unidos, que assumiu o cargo em 2025]."
*Com reportagem de Cristina J. Orgaz, da BBC News Mundo, e Mariana Schreiber e Leandro Prazeres, da BBC News Brasil