A adolescente que liderou uma das maiores revoltas no Brasil e ficou conhecida como 'Joana D'arc do Contestado'

Maria Rosa presidia rituais, mantinha a moral dos sertanejos e, ao mesmo tempo, organizava a logística e dava ordens táticas no combate.

7 jul 2026 - 05h53
Sem imagens oficiais, a figura de Maria Rosa foi sendo construída ao longo do tempo por meio de representações artísticas
Sem imagens oficiais, a figura de Maria Rosa foi sendo construída ao longo do tempo por meio de representações artísticas
Foto: Museu Willy Zumblick / BBC News Brasil

Em guerras, figuras femininas nem sempre são lembradas ou associadas à linha de frente dos conflitos. No Sul do Brasil, no início do século 20, uma adolescente rompeu esse padrão ao assumir um papel importante em uma das maiores revoltas camponesas do país.

A Guerra do Contestado foi um conflito armado travado entre 1912 e 1916 em uma área cuja posse era disputada pelos estados do Paraná e de Santa Catarina — daí o nome "Contestado".

Publicidade

Embora tenha ficado conhecida pela disputa de limites, pesquisadores afirmam que essa foi apenas uma das dimensões de um conflito marcado por disputas por terra, pela expulsão de pequenos agricultores e posseiros da região e pelas transformações econômicas provocadas pela construção da ferrovia que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul e pela exploração madeireira.

"Com a concessão de grandes áreas de terra a empresas estrangeiras para a construção da ferrovia, milhares de caboclos, como eram conhecidos os moradores do interior que viviam da pequena agricultura, perderam suas terras e, depois da conclusão das obras, também o trabalho", explica Nilson Cesar Fraga, professor do departamento de Geografia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e coordenador do Observatório da Região e da Guerra do Contestado.

Nesse contexto, parte dessa população passou a se organizar em torno da liderança religiosa do monge José Maria, que defendia uma sociedade mais justa e inspirou comunidades conhecidas como "redutos". Após sua morte, em 1912, o movimento continuou mobilizado e passou a ser visto pelo governo da recém-instaurada República como uma ameaça à ordem.

A resposta foi o envio de tropas do Exército para combater os redutos. Ao longo de quatro anos, ocorreram sucessivos confrontos entre militares e caboclos, que utilizavam táticas de guerrilha e o conhecimento da região para resistir. O conflito terminou em 1916, após uma campanha militar de grande escala, e deixou entre 10 mil e 20 mil mortos, embora pesquisadores acreditem que esse número possa ter sido maior.

Publicidade

Além de definir as atuais divisas entre Paraná e Santa Catarina, a Guerra do Contestado é considerada por especialistas um dos principais conflitos sociais da Primeira República por evidenciar disputas fundiárias, a atuação do Estado diante de populações rurais e os impactos da expansão econômica sobre comunidades que viviam na região.

É nesse cenário que surge Maria Rosa, jovem que, ainda na adolescência, passou a liderar combatentes e a ocupar também um papel religioso dentro do movimento.

Conhecida como a "Joana d'Arc do Sertão", ela se tornou uma das figuras mais emblemáticas da guerra, mesmo sem registros fotográficos que confirmem sua aparência.

No reduto de Caraguatá, em Santa Catarina, onde ganhou projeção em 1914, Maria Rosa combinava práticas espirituais com funções estratégicas. Segundo Fraga, sua atuação extrapola o campo religioso.

Publicidade

"Ela não foi apenas uma figura religiosa, mas uma estrategista militar que liderou milhares de sertanejos contra as forças da República", afirma.

Ainda de acordo com o pesquisador, a jovem, filha de um pequeno agricultor, tinha cerca de 15 anos e se destacou pela capacidade de mobilização em meio ao conflito.

Sem imagens oficiais, sua figura foi sendo construída ao longo do tempo por meio de representações artísticas, encenações e narrativas populares. Para Fraga, esse processo ajudou a consolidar Maria Rosa como símbolo de resistência.

"Ela rompeu com a passividade esperada das mulheres da época, demonstrando um espírito guerreiro, autoritário e decidido", diz.

Líder aos 15 anos de idade

A liderança de Maria Rosa se consolidou em um momento de reorganização do movimento, após a morte do monge José Maria, figura relevante para os sertanejos. Em meio ao enfraquecimento de outras lideranças, a jovem passou a ocupar um espaço que combinava autoridade religiosa e comando prático dentro dos redutos.

De acordo com a historiadora Raquel Panke Bittencourt, professora da Escola de Educação e Humanidades e da Pós-Graduação em História Contemporânea e Relações Internacionais Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Maria Rosa tinha cerca de 15 anos e era neta de uma liderança local, Eusébio Ferreira dos Santos. Sua ascensão, segundo ela, está diretamente ligada ao caráter religioso do conflito.

Publicidade

"A autoridade não vinha apenas da força física, mas da legitimidade espiritual. Se a divindade escolhia, o povo seguia", afirma Bittencourt.

Foi nesse contexto que a jovem passou a relatar visões e mensagens atribuídas ao monge morto, o que a colocou como intermediária entre o sagrado e a comunidade.

Para os sertanejos, ela passou a ser vista como uma figura escolhida, capaz de orientar não só a vida religiosa, mas também os rumos do grupo em meio à guerra. A crença na ressurreição de José Maria ajudou a manter a coesão do movimento, agora sob sua liderança.

Na prática, Maria Rosa articulava fé e combate como parte de uma mesma lógica. Presidia rituais, mantinha a moral dos sertanejos e, ao mesmo tempo, organizava a logística e dava ordens táticas.

Bittencourt afirma que ela se tornou "o cérebro e a alma" do reduto, enquanto Fraga destaca que suas decisões eram apresentadas como orientações divinas, o que garantia coesão e obediência entre os combatentes.

Publicidade

Esse modelo de liderança também se apoiava no chamado "transe messiânico", descrito com vozes e visões, relatados na época.

Segundo Fraga, ao afirmar que recebia instruções diretamente do espírito do monge, Maria Rosa eliminava questionamentos internos. Sob seu comando, o reduto funcionava simultaneamente como espaço religioso e estrutura militar, onde a disciplina era sustentada pela crença.

'Joana d'Arc do Sertão'

Única imagem do reduto ou cidade santa dos caboclos do Contestado Caraguatá, em 1914, em Santa Catarina
Foto: Nilson Cesar Fraga / BBC News Brasil

A associação entre a adolescente e a heroína francesa não surgiu por acaso. O apelido "Joana d'Arc do Sertão" passou a circular ainda durante e após o conflito como uma forma de traduzir, em referências conhecidas, a presença de uma jovem liderança feminina em meio à guerra.

Para o professor Nilson Cesar Fraga, a comparação encontra respaldo biográficos e simbólicos reais. Assim como Joana d'Arc, Maria Rosa assumiu o comando ainda adolescente e baseava sua autoridade em experiências consideradas divinas.

"Ela afirmava receber instruções diretas do espírito do monge José Maria, o que legitimava suas decisões políticas e militares perante os fiéis", afirma.

Publicidade

A semelhança também aparece na forma de atuação. Fraga destaca que Maria Rosa não ocupava um papel simbólico.

"Ela montava a cavalo, portava estandartes e participava ativamente da organização estratégica, como na vitória em Caraguatá, rompendo com o papel tradicionalmente passivo das mulheres da época".

A ideia de pureza, associada à figura da "virgem", reforçava essa autoridade espiritual, entendida como um canal direto com o sagrado.

A historiadora da PUCPR aponta que a analogia ajuda a dimensionar o impacto da jovem no conflito.

"Ambas eram jovens de origem camponesa e alegavam ter visões divinas para liderar exércitos contra forças superiores em defesa de seus territórios", diz. Ao mesmo tempo, ela ressalta limites nessa comparação.

Segundo Bittencourt, o uso da referência europeia pode simplificar uma experiência que tem raízes próprias.

Publicidade

"Há o risco de 'europeizar' uma figura profundamente enraizada no messianismo do caboclo brasileiro", afirma.

Para Fraga, esse enquadramento também foi adotado por cronistas e militares da época como forma de interpretar o fenômeno dentro de um repertório conhecido.

Ainda assim, a comparação persiste como chave de leitura para entender como Maria Rosa mobilizou seguidores em um contexto marcado por desigualdades e disputa territorial.

Ao combinar fé e estratégia, ela transformou a liderança religiosa em instrumento de organização e resistência, afirmam os especialistas.

Mulheres importantes na Guerra do Contestado

A presença de Maria Rosa não foi um caso isolado dentro da Guerra do Contestado. Em diferentes momentos do conflito, outras mulheres também assumiram funções de comando nos redutos, combinando liderança espiritual, organização coletiva e atuação direta nas decisões do movimento.

Para o historiador Marcelo Johny Maciel, mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, esse protagonismo feminino está ligado à própria estrutura do movimento. Segundo ele, os sertanejos mobilizaram elementos históricos, simbólicos e morais para sustentar a resistência, e as mulheres passaram a ocupar o centro dessa dinâmica.

Publicidade

"Foi preciso definir que as mulheres eram as únicas capazes de conduzir esse processo", afirma Maciel, ao destacar que elas concentravam tanto a autoridade espiritual quanto a política e militar.

Imagem da restauração do Crematório de Cadáveres do Contestado onde viveu a heroína
Foto: Nilson Cesar Fraga / BBC News Brasil

Nesse contexto, nomes como Chica Pelega, Nega Jacinta e Querubina, também ganharam relevância entre os sertanejos. Essas lideranças reforçavam a ideia de organização coletiva, em que não havia distinção rígida de hierarquia entre os integrantes do movimento.

De acordo com Maciel, esse período é visto como o ápice da resistência, quando interesses comuns se sobrepunham a disputas individuais e as decisões eram guiadas pela manutenção do grupo.

Além do papel simbólico, essas mulheres atuavam de forma prática na condução dos redutos. Realizavam rituais religiosos, orientavam a vida cotidiana e participavam de estratégias de defesa e ataque.

Publicidade

Maciel afirma que, nesse arranjo, a liderança feminina reunia diferentes dimensões de poder, o que ajudava a manter a coesão dos combatentes em meio ao avanço das forças republicanas.

Apesar dessa atuação, o reconhecimento histórico dessas figuras foi limitado por décadas.

Fraga explica que nos registros militares da época, mulheres foram frequentemente tratadas como figuras "anormais" ou associadas ao fanatismo, o que contribuiu para deslegitimar sua atuação política.

"A liderança de uma adolescente era vista como prova de atraso", diz.

O professor aponta ainda que, ao longo do século 20, a narrativa oficial reduziu essas mulheres a papéis secundários ou as manteve apenas na "memória falada".

"Só mais recentemente pesquisas têm revisitado documentos e relatos para evidenciar que elas ocuparam posições de comando e influenciaram decisões no conflito", diz.

Publicidade

Esse resgate, segundo ele, ajuda a reposicionar o Contestado como um movimento com forte protagonismo feminino, muitas vezes apagado da história.

A geógrafa Vanessa Maria Ludka, doutora pela Universidade Federal do Paraná, afirma que esse apagamento revela uma construção histórica marcada por recortes de gênero.

"A participação feminina foi, em grande medida, silenciada ou marginalizada nas narrativas oficiais", diz.

Segundo ela, a escassez de registros não reflete ausência de atuação, mas sim a forma como essas trajetórias foram pouco documentadas e, em muitos casos, invisibilizadas.

Esse cenário também se relaciona à destruição de fontes documentais e à dependência de materiais baseados em relatos transmitidos ao longo do tempo, dizem os especialistas.

Publicidade

Muitos documentos dos redutos foram eliminados durante as ações militares, o que fez com que histórias como a de Maria Rosa sobrevivessem, principalmente por relatos de sobreviventes.

Para Fraga, esse conjunto de fatores contribuiu para que sua trajetória permanecesse pouco difundida, apesar de sua relevância no conflito.

O destino da jovem líder também segue incerto. Há versões que indicam sua morte em combate, enquanto outras apontam para o chamado "encantamento", crença segundo a qual figuras espirituais não morrem, mas retornam ao mundo em momentos de necessidade.

A hipótese mais aceita entre pesquisadores contemporâneos é que Maria Rosa morreu em 1915, durante uma ofensiva militar ao reduto de Santa Maria, na região conhecida como Santa Maria-Caçador Grande, área que atualmente integra o município de Lebon Régis, no Meio-Oeste de Santa Catarina.

A conclusão se baseia em depoimentos e em décadas de pesquisa de campo no Contestado. De acordo com esses relatos, a jovem teria sido morta ao tentar atravessar um rio sob fogo das tropas, mesmo estando afastada do núcleo principal do reduto.

Publicidade

"Assim, a trajetória de Maria Rosa permanece pouco difundida porque ela representa o ponto de intersecção entre três grupos marginalizados pela história oficial brasileira: os pobres do campo, os vencidos em guerra e as mulheres", diz o pesquisador.

BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações