Itamaraty diz que diplomata mentiu sobre agenda no Brasil. Darren Beattie supostamente visitaria ex-presidente na prisão e encontraria Flávio, pré-candidato ao Planalto em 2026.Um assessor do presidente americano Donald Trump que viajaria ao Brasil na próxima semana e visitaria o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na prisão teve seu visto revogado, informou o Ministério das Relações Exteriores nesta sexta-feira (13/03).
Darren Beattie é assessor sênior para a política dos EUA em relação ao Brasil no Departamento de Estado, pasta equivalente ao Ministério das Relações Exteriores. Ele é lotado no escritório de assuntos educacionais e culturais e, no passado, já defendeu a imposição de sanções ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), por supostamente perseguir Bolsonaro e seus apoiadores.
O Itamaraty justificou a revogação do visto "tendo em conta a omissão e o falseamento de informações relevantes quanto ao motivo da visita por ocasião da solicitação do visto, em Washington".
"Trata-se de princípio legal suficiente para a denegação de visto, de acordo com a legislação nacional e internacional", informou a pasta.
Às autoridades brasileiras, Beattie teria informado inicialmente que o objetivo da viagem era participar de uma conferência sobre minerais críticos.
O Itamaraty afirma que só ficou sabendo depois que o assessor tinha a intenção de visitar Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. O pedido havia sido encaminhado na terça-feira (10/03) pela defesa do ex-presidente ao ministro Moraes.
Só depois que isso veio à tona é que o americano teria tentado organizar reuniões com representantes do governo brasileiro.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, informou a Moraes que a visita a Bolsonaro em ano eleitoral poderia configurar "indevida ingerência" em assuntos internos do Brasil.
O magistrado acabou negando a visita de Beattie a Bolsonaro na quinta-feira, sob o argumento de que a estadia do diplomata não havia sido comunicada ao Itamaraty e que a visita ao ex-presidente na cadeia não constava de sua agenda oficial.
"A realização da visita de Darren Beattie, requerida nestes autos pela Defesa de Jair Messias Bolsonaro, não está inserida no contexto diplomático que autorizou a concessão do visto e seu ingresso no território brasileiro, além de não ter sido comunicada, previamente, às autoridades diplomáticas brasileiras, o que, inclusive poderia ensejar a reanálise do visto concedido", afirmou Moraes em sua decisão.
Agenda com Flávio Bolsonaro
Segundo a Folha de S.Paulo, Beattie também planejava se reunir com o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Temas do encontro seriam o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro e decisões judiciais sobre remoção de conteúdos das redes sociais.
Flávio tem emergido em pesquisas de intenção de voto recentes como um candidato capaz de derrotar Lula nas eleições de outubro.
A polêmica em torno do diplomata surge no momento em que o governo brasileiro negocia com a Casa Branca, segundo a imprensa local, para que não designe o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), as duas maiores facções criminosas do país, como organizações terroristas.
Um porta-voz da diplomacia americana afirmou à agência de notícias AFP que o governo considera o CV e o PCC como "ameaças significativas para a segurança regional devido à sua participação no narcotráfico, na violência e no crime transnacional".
Em 2025, a direita no Brasil tentou, sem sucesso, aprovar uma lei para classificar o CV e o PCC como organizações terroristas.
Lula diz que proibiu americano de vir ao Brasil
Mais cedo nesta sexta, durante agenda no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que Beattie só entrará no Brasil quando o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, puder entrar nos Estados Unidos.
"Aquele cara americano que disse que vinha para cá, para visitar Jair Bolsonaro, foi proibido de visitar. E eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que estão bloqueados."
Em 2025, os Estados Unidos cancelaram o visto da esposa e da filha de 10 anos de Padilha. À época, o visto do ministro já estava vencido.
Padilha é um dos "pais" do programa Mais Médicos, que contratou médicos cubanos para atuar no SUS, contrariando interesses americanos.
ra (Agência Brasil, Lusa, AFP, ots)