O estudo "Perdas de Água 2026", do Instituto Trata Brasil, mostra que o país ainda enfrenta um cenário de forte desperdício no sistema de abastecimento. De toda a água que passa pelas estações de tratamento, cerca de 39% se perde antes de chegar às torneiras. Esse índice revela, portanto, um desequilíbrio entre o volume que as companhias de saneamento produzem e o que, de fato, chega às residências, ao comércio e à indústria.
Em números práticos, o levantamento indica que a água desperdiçada ao longo de um ano abasteceria aproximadamente 77 milhões de pessoas. Esse contingente supera a população de muitos países e, portanto, ajuda a dimensionar a gravidade da situação. Em um contexto de eventos extremos, com secas em algumas regiões e cheias em outras, cada litro desperdiçado aumenta a pressão sobre os mananciais e sobre o sistema de saneamento. Além disso, esse cenário reforça a necessidade de planejamento integrado entre gestão de recursos hídricos e políticas de saneamento.
Perdas de água no Brasil: o que significam esses 39%?
As chamadas "perdas de água" englobam tanto o que se perde fisicamente, por vazamentos e rompimentos de tubulações, quanto o que as companhias deixam de contabilizar por falhas de medição ou irregularidades. Assim, segundo o estudo, esse índice de 39% coloca o Brasil distante de países que já reduziram significativamente o desperdício ao longo da rede. Na prática, as empresas investem em captação, tratamento e bombeamento, mas não convertem uma parte relevante desse esforço em serviço efetivo para a população.
Esse volume capaz de abastecer 77 milhões de pessoas em um ano ilustra o tamanho do desafio. Se, por um lado, as companhias convertessem esse recurso em atendimento regular, elas ampliariam a cobertura de água tratada em áreas periféricas, reduziriam intermitências em bairros sujeitos a rodízios e criariam uma margem de segurança maior para enfrentar períodos de estiagem. Por outro lado, em vez disso, grande parte dessa água se perde em trechos subterrâneos, fora da vista da população e de gestores públicos.
Consequentemente, especialistas defendem que a redução de perdas deve ser tratada como uma "nova fonte" de água, tão estratégica quanto a construção de reservatórios ou a busca por novos mananciais. Ao priorizar esse enfoque, os gestores podem obter ganhos rápidos de eficiência com investimentos relativamente menores quando comparados a grandes obras de infraestrutura.
Quais são as principais causas do desperdício de água tratada?
O levantamento do Instituto Trata Brasil aponta um conjunto de fatores que explica o elevado índice de perdas. O primeiro fator envolve redes antigas e mal conservadas, muitas vezes instaladas há décadas, quando o crescimento urbano era menor e a demanda por água permanecia mais baixa. Com o aumento da pressão na rede e a falta de substituição de tubulações, surgem vazamentos, microfissuras e rompimentos que liberam grandes volumes de água no solo.
Além disso, muitas empresas realizam manutenção insuficiente. Equipes reduzidas, monitoramento limitado e demora para localizar vazamentos, principalmente os não visíveis, prolongam o tempo em que a água se perde. As ligações irregulares, conhecidas popularmente como "gatos", também contribuem para as perdas, pois desviam água sem medição adequada e comprometem o equilíbrio da rede. Somam-se a isso falhas de medição, hidrômetros antigos e ineficiências na gestão, como falta de planejamento de investimentos ou priorização inadequada de obras.
Entre os fatores mais recorrentes estão:
- Redes de distribuição antigas, com tubulações corroídas ou inadequadas ao volume atual.
- Vazamentos não aparentes, difíceis de identificar sem tecnologia de monitoramento.
- Manutenção corretiva predominando sobre a preventiva, o que aumenta o risco de rompimentos.
- Ligações clandestinas e fraudes, que distorcem o balanço entre água produzida e medida.
- Gestão deficiente de dados, que dificulta o controle de setorização e de pressão da rede.
Impactos econômicos do alto índice de perdas de água
O desperdício de quase 40% da água tratada afeta diretamente as finanças das companhias de saneamento e, em cadeia, pressiona os orçamentos públicos e familiares. Ao produzir água que não gera receita, as empresas acumulam prejuízos operacionais, já que continuam arcando com custos de energia, produtos químicos, mão de obra e manutenção de estações de tratamento. Esse desequilíbrio tende a pressionar reajustes tarifários, que entram em cena para compensar a perda de faturamento.
Para o consumidor, esse cenário muitas vezes se traduz em tarifas mais altas ao longo do tempo, mesmo sem melhoria imediata na qualidade do serviço. Além disso, gestores públicos e companhias destinam recursos que poderiam financiar expansão da rede, modernização de sistemas e redução de intermitências apenas para cobrir ineficiências. Em regiões com maior índice de perdas, a capacidade de investimento das companhias fica ainda mais limitada, o que perpetua o ciclo de vazamentos e desperdícios.
- Menor eficiência econômica das empresas de saneamento.
- Aumento potencial das tarifas para equilibrar contas.
- Redução de recursos disponíveis para novos projetos de abastecimento.
- Maior vulnerabilidade financeira em períodos de crise hídrica.
Desperdício de água e desigualdade no acesso entre regiões brasileiras
O estudo "Perdas de Água 2026" também chama atenção para a desigualdade regional. Em algumas capitais e cidades que investiram em tecnologia de monitoramento, setorização e troca de redes, o índice de perdas se mostra significativamente menor que a média nacional. Já em municípios com menor capacidade de investimento e gestão, as perdas se aproximam de metade da água tratada ou até superam esse patamar.
Essa discrepância amplia a diferença no acesso à água tratada entre bairros e regiões. Áreas periféricas e cidades menores tendem a conviver com mais interrupções no fornecimento, rodízios frequentes e pressão baixa nas torneiras. Enquanto isso, o volume que o sistema desperdiça, e que poderia reforçar o abastecimento nessas localidades, se perde em redes antigas e vazamentos não controlados.
A situação afeta diretamente a rotina de milhões de moradores, que precisam adaptar horários de banho, preparo de alimentos e limpeza doméstica à disponibilidade de água. Em regiões onde a perda se mostra mais intensa, atividades econômicas que dependem de fornecimento contínuo, como serviços, comércio e pequenas indústrias, também enfrentam dificuldades operacionais, o que impacta renda e oportunidades de trabalho.
Diante dos dados de 2026, especialistas em saneamento apontam a redução de perdas de água como etapa central para ampliar a segurança hídrica no Brasil. Em vez de depender apenas da abertura de novos mananciais ou de grandes obras, o país encontra nas redes já instaladas um potencial significativo de ganho de eficiência. Diminuir o índice atual de 39% significa transformar desperdício em abastecimento para milhões de pessoas que ainda convivem com torneiras secas ou serviço precário.