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Braga Netto se tornou um 'soldado' do bolsonarismo

Ministro da Defesa, que fez ameaça à eleição de 2022, é considerado "cumpridor de ordens" e totalmente fiel ao presidente Jair Bolsonaro

23 jul 2021 05h10
| atualizado às 07h26
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As credenciais que levaram o general Walter Braga Netto ao governo de Jair Bolsonaro eram a de um militar experiente que executou a árdua missão de ser o interventor da Segurança Pública no Rio, em 2018, por designação de Michel Temer. Pelas mãos de oficiais que já haviam embarcado no projeto de Bolsonaro, chegou à Casa Civil em fevereiro de 2020. Desde que assumiu a pasta e, posteriormente, o Ministério da Defesa, passou a ser visto como um militar que aderiu ao bolsonarismo e se transformou em um "soldado" do presidente na marcha a favor do tensionamento com as demais instituições e da politização das Forças Armadas.

Ministro da Defesa, Walter Braga Netto, em Brasília 31/03/2021 REUTERS/Adriano Machado
Foto: Reuters

Considerado pelos pares um enérgico "cumpridor de ordens" e totalmente fiel ao presidente, Braga Netto virou uma eminência parda no governo. Antes dos últimos atritos, setores do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso e alas moderadas da caserna vinham manifestando incômodo com o que classificavam como patrocínio de Braga Netto à radicalização.

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Os relatos colhidos pela reportagem com pessoas que interagem ou interagiram com o general apontam que o ministro é autoritário, avesso a discussões e alguém que não reconhece que errou ao aceitar a tarefa de misturar Forças Armadas com a política.

No primeiro escalão de um governo em que todos ganham pontos quando alimentam narrativas contra adversários na internet, ele vai na contramão. Não é adepto das redes sociais, mas se articula no "mundo real" conforme Bolsonaro lhe orienta. O contexto da ida de Braga Netto para a Defesa deixou claro o propósito da escolha feita pelo presidente.

O fim de março foi marcado por demissões coletivas de militares. Junto com o então ministro Fernando Azevedo e Silva, os três comandantes das Forças renunciaram. O motivo seria a recusa da cúpula militar em alinhar as tropas ao presidente. "Preservei as Forças Armadas como instituições de Estado", dizia a nota de Azevedo e Silva.

Nestes quatro meses desde a sucessão, Braga Netto contabiliza ao menos quatro situações em que anuiu a interesses do bolsonarismo. A primeira foi minimizar a não punição ao general da ativa Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, por participação em evento político com Bolsonaro no Rio.

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O regramento disciplinar do Exército proíbe expressamente a conduta, mas nada aconteceu por intervenção do presidente. Depois da impunidade, em junho, Braga Netto disse que as Forças estão "coesas e disciplinadas".

Em julho, ele liderou a dura reação ao presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM), que, sem generalizar, mencionou um "lado podre" das Forças Armadas. A comissão é uma das principais fontes de problemas para o governo e para os militares que o compõem porque investiga a resposta à pandemia.

A nota, com tom de ameaça, teria sido publicada sem que os três comandantes fossem consultados. "As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro", dizia o texto assinado por Braga Netto.

Em seguida, o comandante da Aeronáutica, Carlos Almeida Baptista Junior, foi ainda mais duro, em entrevista ao jornal O Globo. Entre outras coisas, disse que "homem armado não ameaça". As reações da sociedade civil e do Congresso foram fortes, mas Braga Netto não sinalizou reprimendas.

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Agora, o Estadão revelou que o general fez uma ameaça direta às disputas eleitorais. Por meio de um interlocutor, no último dia 8, ele enviou um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL). Pediu para comunicar, a quem interessasse, que não haveria eleições em 2022, se não houvesse voto impresso.

Ao soltar um comunicado oficial, o militar não desmentiu a reportagem e, de certa forma, a confirmou. Disse na nota que os cidadãos desejam um processo com "maior transparência e legitimidade".

A ameaça mais recente nutre o discurso de que eventual derrota de Bolsonaro em 2022 só poderá ser explicada por uma fraude na Justiça Eleitoral. É o que o presidente tem feito desde que as crises se intensificaram e a avaliação do governo piorou. "Ou fazemos eleições limpas no Brasil, ou não teremos eleições", disse, no mesmo dia do recado de Braga Netto nos bastidores.

Para membros da CPI da Covid, parte do ímpeto de Braga Netto é explicado pelo interesse corporativista de proteger membros das Forças Armadas que estão sendo investigados pela comissão. Denúncias de corrupção afetam fardados que foram cedidos ao Ministério da Saúde e a competência de militares que geriram o combate à pandemia é alvo de críticas.

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O próprio general deverá ser convocado pelos senadores após o recesso parlamentar. Como chefe da Casa Civil, ele coordenava o Comitê de Crise da pandemia e a governança desse núcleo é questionada pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Braga Netto também foi criticado pelos resultados que apresentou como interventor da Segurança do Rio. A missão não gerou resultados concretos para a redução da violência e da corrupção policial. Foi durante o período em que ele controlou as forças de segurança do Estado que a vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados em um crime premeditado a cerca de 1 quilômetro da base da intervenção.

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