Ausência de banho e atração: a tendência entre jovens tem base científica?

Prática popularizada por criadores de conteúdo promete atração sexual pelo odor corporal, mas pesquisas comprovam a ineficácia e a falta de mecanismos biológicos em humanos

15 set 2026 - 16h42
Resumo
A tendência entre jovens de reduzir banhos e desodorantes para atrair parceiros pelo odor natural não tem base científica. Diferente de outros animais, humanos não produzem nem detectam feromônios funcionais, e teorias genéticas sobre atração olfativa já foram desmentidas. O acúmulo de suor favorece a degradação bacteriana, gerando cheiros desagradáveis. Logo, especialistas apontam que a boa higiene diária continua sendo a estratégia mais eficaz para a atratividade.

A disseminação de métodos alternativos de autoaperfeiçoamento nas redes virtuais consolidou um hábito peculiar entre o público jovem. Sob a premissa de potencializar a atração sexual por meio do odor natural, criadores de conteúdo olfativos defendem a redução na frequência de higienização e o abandono de antitranspirantes. No entanto, o suposto elo entre a ausência de banho e atração carece inteiramente de fundamentação biológica. Embora a espécie humana consiga registrar e classificar aromas em níveis variados de agrado, inexistem comprovações de que sejamos capazes de produzir ou identificar feromônios no ambiente.

Ausência de banho e atração: a tendência entre jovens tem base científica?
Ausência de banho e atração: a tendência entre jovens tem base científica?
Foto: Canva / Perfil Brasil

No reino animal, substâncias químicas dessa natureza desempenham papéis cruciais na comunicação interpessoal, atuando na delimitação espacial e no acasalamento. O termo feromônio designa uma substância secretada por um organismo que desencadeia uma reação comportamental pré-programada em outro indivíduo da mesma espécie. Descoberto inicialmente em mariposas-da-seda no ano de 1959, o composto bombykol atua como um potente atrativo sexual liberado pelas fêmeas. A exposição ao elemento faz com que o macho mova as asas e caminhe mecanicamente contra o vento em direção à fonte emissora. Respostas automáticas semelhantes são observadas em roedores, felinos e suínos.

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Limitações anatômicas da espécie e a natureza do suor

Diferentemente dos animais, a anatomia humana não possui a estrutura física necessária para captar esses sinais químicos. Em diversas espécies de quadrúpedes, o processamento de feromônios é realizado pelo órgão vomeronasal, uma estrutura interna acoplada diretamente ao bulbo olfatório acessório no cérebro. Embora parte dos indivíduos apresente uma fosseta vomeronasal na cavidade nasal, o órgão não possui conexões nervosas funcionais com o sistema nervoso central desde a fase neonatal. Além disso, a comunidade científica jamais isolou qualquer composto no corpo humano que preencha os requisitos técnicos para tal classificação.

O suor expelido pelas glândulas também não desempenha essa função atrativa. A transpiração recente é composta por 99% de água, contendo apenas eletrólitos, amônia e traços de ureia. A ausência de banho e atração entra em contradição direta com a biologia, visto que o acúmulo de suor sobre a pele favorece a multiplicação de micro-organismos locais. O processo de degradação bacteriana gera odores fortes que costumam ser avaliados como desagradáveis. As eventuais percepções positivas associadas ao cheiro corporal de um indivíduo decorrem de memórias afetivas ou envolvimento prévio, e não de respostas químicas involuntárias.

Fracasso de teorias sobre o complexo de histocompatibilidade

Os defensores da tendência olfativa costumam recorrer a um experimento realizado em 1995 conhecido como o teste das camisetas. Na ocasião, homens utilizaram a mesma peça de roupa durante duas noites sem a aplicação de sabonetes ou desodorantes. Posteriormente, mulheres avaliaram as amostras de tecido enquanto passavam por testes genéticos voltados ao complexo principal de histocompatibilidade (MHC), conjunto de genes responsável pelo sistema imunológico. O estudo concluiu inicialmente que as voluntárias preferiam o odor de indivíduos com perfil genético diferente do seu, o que garantiria uma descendência com defesas biológicas mais amplas.

Contudo, os desdobramentos científicos recentes desconstruíram os achados dessa pesquisa. Uma ampla revisão sistemática publicada em 2020 analisou a totalidade dos experimentos sobre a relação entre o MHC e a atração olfativa em humanos, sem encontrar qualquer efeito real ou estatisticamente relevante. Os pesquisadores identificaram ainda um nítido viés de publicação, caracterizado pelo interesse prioritário em divulgar dados positivos atipicos. De acordo com o pesquisador em saúde pública Samuel Cornell, da Universidade de Queensland, e o professor de evolução Rob Brooks, da Universidade de Nova Gales do Sul, a higienização regular com sabão e o uso de desodorantes continuam sendo a estratégia mais eficaz para a manutenção da atratividade interpessoal.

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