O Atlântico Sul desponta como polo estratégico para a oferta global de petróleo diante de tensões geopolíticas no Oriente Médio e na Europa. Na conferência ROG.e, gigantes como ExxonMobil, Shell e BP reforçaram aportes na região, com foco no Brasil, Guiana e Suriname. A busca por segurança energética e novas fronteiras exploratórias redirecionou o discurso do setor, priorizando a garantia do abastecimento imediato e a essencialidade dos combustíveis fósseis em detrimento da transição energética.
A abertura de novas fronteiras exploratórias e a perspectiva de consolidação do Atlântico Sul como uma das principais regiões de crescimento da oferta global de petróleo dominaram os debates da principal conferência do setor na América Latina nesta semana, atraindo executivos das maiores petroleiras do mundo ao Rio de Janeiro em busca de oportunidades, em um momento de crescente preocupação com a segurança energética global.
A ROG.e reuniu público recorde de 83 mil pessoas, crescimento de 10% ante a edição anterior, há dois anos, e representantes de 77 países, um aumento de 29%, com discussões centradas no potencial exploratório de países como Brasil, Guiana, Suriname e outros na costa africana, vistos pela indústria como uma alternativa de crescimento em meio a instabilidades geopolíticas em regiões como o Golfo Pérsico.
Executivos de companhias como ExxonMobil, BP, Chevron, Shell e TotalEnergies apresentaram um interesse renovado em expandir na região, enquanto autoridades e empresários defenderam que o Atlântico Sul pode assumir um papel cada vez mais estratégico para o abastecimento global de energia.
O presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), Roberto Ardenghy, afirmou que a combinação entre reservas ainda pouco exploradas, estabilidade geopolítica e crescente demanda energética global tem ampliado o interesse internacional pela região.
"Não digo que a gente vá substituir o Oriente Médio, acho que não chegaríamos a tanto, mas eu acho que é uma boa alternativa hoje para atender o mundo com essa situação geopolítica tão complicada", disse Ardenghy à Reuters.
O surgimento de um novo polo petrolífero formado por Brasil, Guiana e Suriname foi citado nos corredores do evento, num momento em que conflitos no Oriente Médio e a guerra entre Rússia e Ucrânia continuam influenciando decisões de investimento e estratégias de abastecimento.
O vice-presidente executivo de Upstream da BP, Gordon Birrell, afirmou que a companhia pretende construir no Brasil um polo relevante de produção de petróleo e gás. Já o vice-presidente sênior de Águas Profundas da ExxonMobil, Hunter Farris, disse que a empresa pretende fazer parte do novo capítulo da indústria petrolífera no país.
A ExxonMobil, com uma presença ainda tímida no Brasil, adquiriu dez blocos em parceria com a Petrobras na Bacia da Foz do Amazonas. A BP, por sua vez, anunciou recentemente sua maior descoberta em anos no Sul da Bacia de Santos, em uma área que fica mais distante dos grandes campos produtores do pré-sal.
Já o novo presidente da Shell Brasil, João Rosa, reforçou o interesse em continuar expandindo sua atuação no país, onde é a segunda maior produtora após a Petrobras. A empresa estuda um novo poço exploratório em Santos no ano que vem e participa de um outro em execução na região operado pela BP.
MUDANÇA DE TOM
O foco sobre novas fronteiras exploratórias e segurança energética também evidenciou uma mudança no discurso predominante do setor, devolvendo protagonismo a uma indústria que, até recentemente, se via obrigada a defender seu papel em um mundo que prometia consumir menos combustíveis fósseis.
Há apenas alguns anos, discussões sobre transição energética e redução de emissões ocupavam posição central nos grandes encontros da indústria, que buscava enfatizar seu papel no financiamento da descarbonização. Desta vez, executivos concentraram suas mensagens na necessidade de ampliar a oferta de energia e garantir abastecimento em um mundo marcado por conflitos e crescente fragmentação geopolítica.
"Uma coisa que para nós era óbvia, para muitas pessoas não era, mas agora ficou evidente: a gente está mostrando a essencialidade do petróleo", disse Ardenghy.
Para Décio Oddone, ex-diretor-geral da ANP, a combinação entre aumento da produção brasileira, retomada da exploração em novas fronteiras e busca por fornecedores menos expostos a riscos geopolíticos melhorou as perspectivas para a indústria na região.
"Quer trocar o óleo e gás por outra coisa? Vamos trocar, ninguém aqui é negacionista, mas tem que fazer isso dentro de uma lógica que permita às pessoas continuarem andando de ônibus", disse o ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras José Miranda Formigli.
"Não adianta você querer desafiar as coisas, porque essa racionalidade econômica vai acabar imperando."