Era sexta-feira à noite quando Thales de Albuquerque Lima, de 21 anos, soube que seu avô morreu. O jovem mora no Catar, há três anos, e voltaria ao Brasil para ir ao enterro e viver o luto ao lado de seus familiares. Mas, ao acordar, no último sábado, dia 28, tudo tinha mudado. Os Estados Unidos e Israel fizeram ataques coordenados ao Irã, matando o líder supremo iraniano, e a escala do conflito se espalhou pelo Oriente Médio. O espaço aéreo foi fechado e Thales ficou ‘preso’ em seu país. “Minha vida virou de ponta-cabeça”, contou o jovem em entrevista ao Terra.
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“De manhã já começamos a receber muitos alarmes falando para continuarmos dentro de casa e, se estivéssemos na rua, para procurar um prédio mais próximo. Foi uma correria e começaram a vir muitos barulhos de mísseis, muitas explosões e voos cancelados. Eu tentava procurar algum voo para poder ir ao velório do meu avô, mas nem isso eu consegui. Minha saúde mental ainda está muito abalada: eu tenho que lidar com o luto e, ao mesmo tempo, ficar alerta aqui, me protegendo”, contou o jovem.
Thales foi para o Catar para fazer faculdade de Jornalismo na Northwestern, no campus de Doha, a capital do país. Ele diz que a situação surpreendeu a todos com quem convive no país, principalmente por ser um local conhecido por sua segurança. Mas, agora, o cenário é imprevisível. “A gente realmente não sabe o que vai acontecer no dia seguinte. Ontem [domingo], por exemplo, achamos que fosse ficar calmo. Mas de manhã já tinham várias explosões. Eu não tenho dormido direito, tenho que tomar remédio para dormir e muitas vezes não adianta, porque o corpo fica em estado de alerta. O apartamento acaba tremendo também por conta das explosões”, relatou Thales.
Ele mora próximo de uma base militar norte-americana, a Al Udeid, que é considerada a maior dos Estados Unidos no Oriente Médio. Por isso, ele foi para ‘outra ponta’ do país para ficar na casa de amigas, onde estaria mais seguro. De todo modo, como conta, é possível ver e ouvir os mísseis de qualquer ponto do Catar – e os destroços caindo em áreas civis. Para sair de casa, agora, apenas em extrema necessidade.
“É um caos. Não temos uma perspectiva otimista do que vai acontecer, infelizmente. E que o que nos resta é tentar seguir as orientações locais, fazer orações, porque um dito movimento que era para libertar um povo acabou se tornando um caos generalizado, onde muitas pessoas estão sofrendo. Muitas pessoas que não têm nada a ver com o que está acontecendo, muitos civis. Todo mundo acaba sofrendo bastante com essa situação toda”, acredita o jovem.
A semana tem sido de um “triste desafio”, conta. Pois além dele, sua família também segue em luto e preocupada com o desenrolar das coisas por lá. O que Thales faz é manter o máximo contato possível, compartilhando sua localização e dando atualizações em tempo real para os familiares.
“Eu gosto muito do Catar. Apesar de estar exausto e bastante ansioso também com os acontecimentos, estou tentando acreditar que tudo vai voltar à chamada normalidade, né? Mas se atingir um nível extremo, eu também estou disposto a ir [para o Brasil] e esperar essa situação passar”.
Veja os locais dos ataques de EUA e Israel e a retaliação do Irã
Pontos vermelhos indicam locais onde explosões foram confirmadas. Teerã responde com mísseis contra bases americanas.
Legenda
Cidades atacadas no Irã:
Retaliação iraniana:
Mísseis balísticos e drones foram lançados contra instalações militares americanas no Iraque, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos, em resposta direta aos bombardeios em território iraniano.
‘Não sabia o que estava acontecendo’
Thales está longe de ser o único a não conseguir viajar devido ao conflito. Ao Terra, outro brasileiro que pediu para não ter sua identidade revelada, contou que trabalha como comissário de bordo em uma companhia aérea do Oriente Médio e que, agora, está ‘preso’ em um país da Ásia.
Ele tinha passado as férias no Brasil e esse foi o seu primeiro voo de retorno ao trabalho. A operação de ida foi tranquila. Por ter sido um voo de longa distância, quando os funcionários chegam no destino, descansam por cerca de um dia até pegarem um voo de volta à sua respectiva base – no caso, a dele é nos Emirados Árabes. Mas o conflito interrompeu o fluxo.
“Fomos para o aeroporto, estávamos dentro do avião fazendo os checks de segurança, preparando a aeronave para os passageiros entrarem... Quando o capitão anunciou que o voo ia atrasar porque o espaço aéreo de Abu Dhabi estava fechado. A gente não sabia o que estava acontecendo”, relata.
Após falar com outros colegas, ele descobriu o que estava acontecendo -- e que a primeira bomba que caiu em Abu Dhabi, a capital dos Emirados Árabes Unidos, foi do lado de onde mora, que também é perto do aeroporto da cidade. “Eu fiquei bem assustado. Ficamos mais duas horas dentro do avião, aguardando notícias, até que o voo foi cancelado”. Agora, desde sábado, ele está no outro país sem perspectiva de quando deve retornar para casa. Ele, a tripulação e os passageiros.
“Eu tenho um amigo brasileiro que me mandava as notícias da tensão com o Irã e eu falava que não ia acontecer nada aqui. ‘O país é muito seguro, não existe isso.’ Ninguém estava esperando”.
Ataques e caos no tráfego aéreo
Os Estados Unidos e Israel lançaram, no sábado, uma série de ataques contra cidades iranianas após semanas de negociações. Centenas de pessoas morreram, incluindo o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. O Irã, que declarou que a vingança é um “direito e dever legítimo”, respondeu com ataques direcionados a Israel e bases militares norte-americanas em países do Oriente Médio – como nos Emirados Árabes e no Catar.
A situação acarretou no fechamento do espaço aéreo no Oriente Médio, o que instaurou o caos no tráfego aéreo internacional. A região é um ponto chave para voos de longa distância, conectando a Europa e a Ásia, por exemplo, e aeroportos como os de Dubai, Abu Dhabi e Doha paralisaram as operações em meio à escalada do conflito.
Para o presidente norte-americano Donald Trump, esse é o início de “grandes operações de combate” e ainda há uma “grande onda” por vir. “Nem começamos a atacar com força”, disse, em entrevista à CNN nesta segunda-feira, 2. Além disso, em discurso, ele estimou que a guerra irá durar de quatro a cinco semanas. “Mas temos capacidade de levar isso adiante por mais tempo”. O objetivo, segundo o republicano, é acabar com um suposto potencial nuclear do Irã e destruir sua capacidade bélica. Os Estados Unidos estaria entre os principais ameaçados pelo poderio militar do Irã, alega.