Argentina sob Milei: renda de 2 em cada 3 não chega até o fim do mês

24 out 2026 - 15h21
Resumo
Sob o governo Milei, a renda de 65,3% dos argentinos se esgota antes do dia 20, índice que chega a 83% entre os mais pobres, segundo pesquisa da consultoria Zentrix. A maioria recorre a dívidas e empréstimos para cobrir despesas básicas, resultando no quase dobramento da inadimplência bancária das famílias em um ano. Apesar das críticas de economistas que o acusam de negar a realidade social do país, o presidente Javier Milei questionou os dados e ironizou a capacidade de sobrevivência da população.

Levantamento aponta que maioria fica sem recursos antes do dia 20 e recorre a empréstimos. Fatia de inadimplência quase dobrou em um ano. Presidente questionou os númerosA renda de grande parte dos argentinos não chega ao fim do mês. Segundo levantamento da consultoria argentina Zentrix, os rendimentos de dois em cada três argentinos (65,3%) se esgotam antes do dia 20. Entre os mais pobres, mais de 83% ficam sem recursos até essa data. O problema afeta até integrantes da classe alta: apenas 61,9% conseguem atravessar todo o período e ainda poupar.

Mais de 80% dos argentinos de baixa renda ficam sem recursos antes do dia 20, aponta levantamento.
Mais de 80% dos argentinos de baixa renda ficam sem recursos antes do dia 20, aponta levantamento.
Foto: DW / Deutsche Welle

"A desigualdade é vivida no calendário. A classe social não define apenas quanto se ganha, mas também quanto dura o mês", afirma o relatório "Monitor de Opinião Pública", da consultoria.

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Entre os menores de 40 anos, o percentual dos que ficam sem dinheiro antes do final do mês chega a 72% da população argentina. A pesquisa ouviu 1.438 pessoas em todo o país.

Mas o presidente argentino, Javier Milei, colocou os resultados em dúvida e gerou polêmica. "Se realmente ficam sem dinheiro no dia 20, como vivem dez dias sem comer nem beber?", questionou.

A resposta vem de Claudio Montiel, diretor da consultoria responsável pelo estudo. Em entrevista à DW, ele afirma que as pessoas recorrem ao endividamento. "As pessoas se endividam", diz. E fazem isso "para pagar despesas básicas; usam o endividamento para cobrir gastos correntes", detalha. Mais da metade dos entrevistados pegou dinheiro emprestado nos últimos seis meses.

"Sobrevive-se com dívida, fiado, ajuda da família, deixando de pagar contas ou comendo pior", afirma a economista Mercedes D'Alessandro, em entrevista à DW.

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Milei já relatou dificuldades financeiras

D'Alessandro lembra que o próprio Milei relata em seu livro El camino del libertario que, após perder o emprego, precisou administrar sua indenização para sobreviver durante quatro anos e limitar seus gastos ao equivalente a uma pizza por dia.

"Quando aconteceu com ele, isso mereceu um capítulo de seu livro. Quando acontece com os outros, ele zomba", afirma a economista. "Ele vai discutir com a própria autobiografia?", questiona.

"Milei briga com os dados", sustenta Montiel. Para o diretor da Zentrix, existe "uma forte separação entre o que acontece na realidade e o que Milei acredita que acontece na realidade". "Colocamos o dedo na ferida de uma realidade que é óbvia para todas as pessoas que vivem na Argentina".

Discurso político que nega a realidade?

O economista Martín Kalos, da consultoria EPyCA, também questiona a reação do presidente. "A negação de Milei em relação a essa frase é diretamente grosseira", afirma.

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Na avaliação dele, trata-se de "um discurso político que nega a realidade". E questiona como o presidente pode enfrentar, por meio de políticas públicas, o problema daqueles que não conseguem chegar ao fim do mês "se sequer reconhece o problema".

Por sua vez, o economista Juan Massot faz uma ponderação e diz ser preciso distinguir percepções sociais de fatos. "Parece mais uma controvérsia política do que técnica: as pessoas sentem que, a partir de determinado dia, estão quebradas, que lutam por cada peso e que há coisas que não podem comprar". A isso, soma-se a frustração, que pode levá-las a afirmar que o dinheiro só dura até o dia 20.

"Mas elas chegam ao fim do mês no limite, abrindo mão de alguns prazeres", observa.

Massot ressalta, no entanto, que essa distinção não implica ignorar os problemas enfrentados por grande parte da população, mas sim "interpretar os dados com cuidado, já que uma superinterpretação gera erros de diagnóstico e de comunicação".

Mas quais dados permitem retratar as dificuldades econômicas das famílias?

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Um deles é o custo da cesta básica alimentar. Montiel, porém, questiona a forma como esse indicador é calculado.

Segundo o próprio Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC), sua composição se baseia em uma pesquisa de despesas das famílias realizada entre 1996 e 1997 e validada com dados de 2004 e 2005. Embora os preços sejam atualizados mensalmente, os padrões de consumo utilizados como referência têm várias décadas.

Inadimplência em alta

Para além das percepções e das controvérsias em torno dos indicadores econômicos, um dado-chave é o aumento da inadimplência, que reflete a crescente incapacidade das famílias de quitar os empréstimos contraídos.

Segundo dados do Banco Central da Argentina, em julho, 12,94% do crédito bancário concedido às famílias encontrava-se em situação irregular, praticamente o dobro dos 6,6% registrados em agosto de 2025. Em agosto de 2026, a inadimplência recuou levemente para 12,81%.

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Ainda assim, Massot destaca que a deterioração econômica da Argentina não começou com o atual governo. O PIB per capita do país apresenta "uma tendência negativa há cerca de 15 anos", assinala, razão pela qual as dificuldades enfrentadas pelas famílias também decorrem de "problemas de longa data".

As perspectivas também não são animadoras, segundo Martín Kalos, da consultoria EPyCA.

O economista adverte que "não há, no horizonte, perspectiva de melhora". Mesmo que a renda das famílias aumente temporariamente, explica, parte desse dinheiro seria destinada ao pagamento de dívidas em atraso, e não ao aumento do consumo.

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