Alemanha usa 95% de superpacote de gastos para cobrir déficit fiscal

17 mar 2026 - 12h46

Maior parte da dívida do superpacote para defesa, infraestrutura e clima tem sido direcionada para fechar o déficit fiscal do governo, sem ganho real em obras e projetos públicos.O governo alemão vem direcionando bilhões em novos empréstimos, originalmente destinados a investimentos em infraestrutura e ações climáticas, sobretudo para cobrir déficits orçamentários.

Flexibilização da dívida foi defendida por Merz
Flexibilização da dívida foi defendida por Merz
Foto: DW / Deutsche Welle

A análise é do Instituto ifo, um dos principais centros de estudos econômicos da Alemanha, e foi divulgada nesta terça-feira (17/03).

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Segundo a pesquisa, cerca de 24,3 bilhões de euros (R$ 145 bilhões) em empréstimos foram liberados no ano passado como parte de um fundo especial para reformar a infraestrutura, defesa e impulsionar os esforços climáticos do país.

Contudo, 95% deste valor não foi de fato usado para novos investimentos.

"Constatamos que os políticos utilizaram quase todos os recursos financiados por dívida para outros fins, nomeadamente para cobrir déficits orçamentários", afirmou o presidente do ifo, Clemens Fuest.

Em agosto, o banco central da Alemanha, favorável à flexibilização do freio da dívida, já criticara o governo por não ter canalizado uma parcela significativa da nova dívida para novos investimentos.

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Pesquisadores do ifo estimam agora que os gastos do governo alemão com investimentos atingiram 69,9 bilhões de euros (R$ 419 bilhões) no ano passado, um aumento marginal de 1,3 bilhão de euros (R$ 7,7 bilhões) em relação ao valor de 2024, apesar dos 24,3 bilhões de euros adicionais em empréstimos liberados para este fim por meio do fundo especial.

Superpacote chega a 500 bilhões de euros

O estudo indica que o desvio de finalidade é um problema, já que o inédito superpacote de gastos aprovado em 2025 tinha como justificativa justamente reverter anos de subinvestimento público e melhorar a modernização do país.

Após as eleições de fevereiro de 2025, o chanceler federal alemão Friedrich Merz aprovou planos para flexibilizar as rígidas regras de endividamento da Alemanha. O acordo criou um fundo especial de 500 bilhões de euros para investimentos em defesa e proteção civil, infraestrutura e medidas relacionadas ao clima, a ser gasto na próxima década.

A má alocação decorre do corte, por parte do governo, de investimentos anteriormente cobertos pelo orçamento principal, de acordo com os cálculos do ifo, que se baseiam em relatórios orçamentários e financeiros oficiais.

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O fundo, portanto, passa a ser utilizado como uma ferramenta de substituição de gastos. Parte destas despesas correntes já eram destinadas a investimentos previstos no orçamento regular. Ainda assim, ao menos 75% dos recursos não resultaram em qualquer tipo de aporte para infraestrutura, clima ou defesa.

Despalavra do ano

A autora do estudo, Emilie Höslinger, observou que "itens individuais" foram transferidos do orçamento principal para o fundo especial financiado pela dívida no ano passado, incluindo subsídios ao setor de transportes.

A lacuna tende a diminuir se o governo cumprir o plano orçamentário, mas mesmo nos cenários mais otimistas, parte relevante dos empréstimos continuará não gerando investimento adicional, diz o instituto.

A aprovação do superpacote e a flexibilização da dívida é um tema polêmico na Alemanha. O termo "Fundo especial" chegou a ser eleita a "despalavra" de 2025 em uma campanha linguística anual.

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gq (DPA, OTS)

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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