Estados Unidos querem apoiar sauditas no desenvolvimento de um programa nuclear civil, mas analistas alertam para possíveis reações de Israel, do Irã e dos Emirados Árabes Unidos.O futuro do acordo nuclear civil entre Estados Unidos e Arábia Saudita voltou a gerar dúvidas após declarações do presidente americano,Donald Trump, na quinta-feira (23/07).
Ao condicionar o avanço das negociações à normalização das relações diplomáticas entre Arábia Saudita e Israel no âmbito dos Acordos de Abraão, Trump colocou um novo obstáculo em um projeto que já enfrenta resistência no Congresso dos EUA e preocupa especialistas por seus potenciais impactos na segurança regional.
O governo saudita, por sua vez, reiteradamente declarou que só fará isso se os israelenses derem passos concretos rumo à criação de um Estado palestino, o que é muito improvável sob o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
No Congresso dos EUA, opositores afirmam que o projeto pode desencadear uma corrida armamentista nuclear no Oriente Médio. Isso porque o acordo, na sua forma atual, poderá permitir que os sauditas enriqueçam seu próprio urânio. Trump nega enfaticamente essa possibilidade.
"O acordo de energia nuclear civil (que não incluirá o enriquecimento de material!) que está sendo negociado entre o Departamento de Energia dos EUA e a Arábia Saudita (...) se limita exclusivamente a usos não militares", afirmou.
Quanto maior o grau de enriquecimento do urânio, maior o potencial de que ele seja desviado para a fabricação de armas, e o temor de que isso aconteça é fortalecido pela declaração do líder saudita, Mohammed bin Salman, de que, se o Irã produzir uma bomba nuclear, a Arábia Saudita também precisará de uma.
A maioria dos cerca de 38 países que possuem programas de energia nuclear para fins civis não enriquece urânio e, em vez disso, importa o material.
O acordo entre EUA e Arábia Saudita também tem implicações regionais, especialmente porque parece ter sido elaborado de forma muito menos rigorosa do que acordos semelhantes.
Tratamento preferencial aos sauditas?
O acordo menos rigoroso firmado pelos Estados Unidos com a Arábia Saudita provavelmente desagradará aos Emirados Árabes Unidos (EAU), que frequentemente competem com os sauditas por influência na região do Oriente Médio.
Os EAU já possuem a usina nuclear de Barakah, resultado de acordos firmados com os americanos em 2009.
Assim como ocorre com quase todos os 26 acordos de cooperação nuclear dos Estados Unidos, o com os EAU incluiu um chamado "protocolo adicional", assinado com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que pode realizar inspeções abrangentes em todas as instalações nucleares. Os Emirados também concordaram em renunciar ao enriquecimento de urânio.
Já o acordo saudita é apenas bilateral, ou seja, envolve exclusivamente os Estados Unidos e a Arábia Saudita, sem participação da AIEA. E os sauditas poderão eventualmente receber autorização para enriquecer seu próprio urânio.
Para os EAU, a energia nuclear sempre esteve mais ligada ao prestígio de ser a primeira nação árabe a desenvolvê-la do que a ambições militares, afirma a pesquisadora Nour Eid, baseada em Paris, que estudou as ambições nucleares das nações do Oriente Médio.
Ela destaca que o acordo dos EUA com os Emirados contém uma cláusula que prevê que, caso um país da região ou vizinho obtenha termos mais flexíveis, os EAU terão o direito de renegociar suas próprias condições.
Israel deixará de ser o único com bomba nuclear?
O acordo nuclear entre Arábia Saudita e Estados Unidos também preocupa Israel, especialmente se levar ao desenvolvimento de uma bomba nuclear no reino saudita. Nesse caso, a Arábia Saudita se tornaria o único outro país do Oriente Médio a possuir armamento nuclear.
Israel nunca confirmou oficialmente que tem armas nucleares, mas é amplamente aceito por especialistas que as possui - provavelmente cerca de 90 ogivas, além dos sistemas necessários para seu lançamento.
Políticos israelenses veem o acordo como uma ameaça e afirmam que suas preocupações foram ignoradas. "Todo programa nuclear militar começa como um programa civil", alertou o ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman.
Os sauditas passaram anos fazendo lobby por um programa nuclear civil próprio, e uma possível cooperação nuclear com os EUA era vista como uma recompensa: se a Arábia Saudita, uma liderança do mundo islâmico, concordasse em normalizar suas relações diplomáticas com Israel, receberia tecnologia nuclear dos americanos.
Qualquer separação da questão nuclear do processo de normalização de relações provavelmente desagradará aos israelenses.
"O acordo, somado à possibilidade de os Estados Unidos venderem caças F-35 para a Turquia, amplia a lista de divergências entre EUA e Israel sobre o Irã e a ocupação israelense do sul do Líbano e de partes do sul da Síria", afirma o especialista James Dorsey, da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam, de Singapura.
Os motivos dos EUA
Há várias possíveis razões para os Estados Unidos terem proposto esse acordo. Eid destaca que isso pode estar relacionado à competição americana com a China e a Rússia, os principais fornecedores mundiais de tecnologia nuclear. Chineses e russos já apresentaram propostas para construir usinas nucleares na Arábia Saudita e, segundo a especialista, ofertas desses países costumam vir acompanhadas de menos exigências. Além disso, Trump prometeu revitalizar o setor nuclear americano, e o acordo com os sauditas valerá bilhões de dólares.
Também é preciso considerar a guerra contra o Irã. O conflito entre EUA, Israel e Irã, iniciado no fim de fevereiro, levou os iranianos a atacarem países do Golfo que são aliados dos americanos. Isso tensionou as relações dos EUA com a Arábia Saudita, que, de um lado, tem no Irã um rival pela hegemonia regional e, do outro, não mantém relações diplomáticas com Israel.
Para a especialista Rosemary Kelanic, diretora do programa para o Oriente Médio do think tank americano Defense Priorities Foundation, o acordo aproxima ainda mais os Estados Unidos e a Arábia Saudita, por exemplo, ao oferecer à Arábia Saudita "uma poderosa ferramenta de pressão para obter futuras concessões de Washington, incluindo novas garantias de segurança, com a ameaça de transformar o programa num projeto militar caso os EUA não reforcem sua proteção", argumenta Kelanic.
Ela afirma que os Estados Unidos podem acabar se vendo obrigados a oferecer proteção militar em troca do abandono de eventuais ambições nucleares sauditas, como ocorreu anteriormente com a Alemanha Ocidental e a Coreia do Sul.
"Permitir que Riade enriqueça urânio pode, na prática, vincular os Estados Unidos à Arábia Saudita para sempre."
O acordo também pode significar que os EUA seriam forçados a intervir para salvar a monarquia saudita - com quem o acordo foi fechado - caso ela fosse ameaçada, observa a especialista.
Corrida nuclear regional
Quando o acordo foi anunciado, observadores logo apontaram para uma contradição inerente. Segundo vários especialistas, o governo Trump estaria disposto a conceder à Arábia Saudita exatamente aquilo pelo qual bombardeia o Irã.
O acordo é um golpe para os iranianos porque "seu inimigo declarado, os Estados Unidos, está dando ao seu rival regional uma vantagem de largada em seu programa nuclear", afirma Kelanic.
Além disso, segundo ela, por causa disso, o acordo reduz as chances de um fim rápido para o atual conflito entre Irã e Estados Unidos. "O Irã certamente confiará menos nos EUA e estará menos disposto a fazer concessões", comentou.
Ela diz que o acordo também eleva a probabilidade de os iranianos acelerarem a militarização de seu próprio programa nuclear. Outros observadores concordam e dizem que o acordo pode iniciar uma corrida armamentista nuclear no Oriente Médio.
Eid ressalva, porém, que nada disso acontecerá no curto prazo. A Arábia Saudita levará de 10 a 20 anos para desenvolver energia nuclear, e precisará de ainda mais tempo para armas nucleares.