Acordo com EUA alivia crise econômica do Irã

24 jun 2026 - 08h05

Exportações de petróleo se recuperam, mas acesso a ativos congelados e fundo estimado em 300 bilhões de dólares ainda é incerto e condicionado ao cumprimento de exigências.O Irã enfrenta um caminho longo e turbulento para se recuperar da guerra de quase quatro meses com os Estados Unidos e Israel. Antes de o conflito eclodir, o país já lidava com anos de sanções e isolamento internacional devido ao seu programa nuclear, que haviam reduzido pela metade as exportações de petróleo, sua principal fonte de receitas.

A economia iraniana estava em situação crítica, com inflação próxima de 50% e escassez severa de itens básicos. A guerra infligiu uma contração adicional de 10% na economia, segundo analistas, incluindo danos à infraestrutura e perda de exportações de petróleo.

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O memorando de entendimento, firmado em 17 de junho, entre o governo americano e o regime iraniano oferece alívio imediato ao suspender as sanções dos EUA, permitindo a Teerã ampliar as exportações de petróleo bruto e derivados. O fim das sanções, válido por 60 dias, também abrange transporte marítimo, seguros e transações bancárias, colocando a República Islâmica em uma posição jurídica e financeira mais favorável do que antes da guerra.

Para Ali Vaez, diretor do projeto Irã no International Crisis Group, afirma que o acordo proporciona um necessário "alívio econômico imediato". "Mesmo com a possibilidade de vender petróleo à China, o regime iraniano tinha muita dificuldade para manter o básico funcionando antes do conflito", explica.

Outros elementos do acordo - como o desbloqueio de ativos e um fundo de reconstrução proposto de 300 bilhões de dólares (cerca de R$ 1,6 trilhão) - permanecem condicionados e podem levar meses ou anos para se concretizar.

Exportações de petróleo disparam após isenções

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O Irã já vinha exportando petróleo à revelia das sanções americanas há anos, recorrendo a uma frota "fantasma" de petroleiros e a vendas com grandes descontos - principalmente para a China - para gerar receita.

Mesmo após o início da guerra, no fim de fevereiro, embarques limitados continuaram, apesar do fechamento efetivo do estreito de Ormuz. Os volumes caíram para cerca de 64 mil barris por dia sob bloqueio naval dos EUA, segundo dados da TankerTrackers, empresa que rastreia remessas de petróleo.

Com o memorando em vigor, o país agora pode obter preços melhores por seu petróleo, que até então vinha sendo vendido, em grande parte, a refinarias independentes chinesas por valores bem abaixo do mercado.

O Irã também tinha dificuldade para repatriar essa receita vinda da China, com boa parte do dinheiro retida em contas de compensação ou depósitos restritos, o que impedia seu uso para importações essenciais ou gastos do governo. As novas isenções incluem explicitamente transações bancárias, o que deve facilitar o acesso a esses recursos.

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Richard Nephew, pesquisador sênior da Universidade Columbia, disse ao Wall Street Journal que o Irã pode gerar cerca de 8 bilhões de dólares em receita com petróleo durante o período inicial das isenções.

As exportações iranianas já reagiram fortemente: 36 milhões de barris deixaram o país pelo Estreito de Ormuz em seis dias, contando a partir de 15 de junho, segundo a TankerTrackers - o equivalente a mais de 5 milhões de barris por dia. Outros 36 milhões de barris estão armazenados à espera de transporte.

Próximo desafio: ativos congelados

Pelo acordo, Teerã busca acesso a parte de mais de 100 bilhões de dólares em ativos iranianos congelados por sanções, mantidos principalmente em bancos da China, Catar, Índia, Iraque e Japão.

Embora o país peça a liberação gradual de cerca de 24 bilhões de dólares, o documento afirma que os recursos congelados ficarão "totalmente disponíveis" após a implementação. Autoridades americanas, no entanto, dizem que qualquer transferência seguirá um modelo de "pagamento por desempenho", condicionado ao cumprimento de compromissos por parte do Irã.

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Mesmo que o valor integral seja liberado, analistas alertam que o impacto será limitado para o regime e quase irrelevante para a população. "É difícil imaginar que 24 bilhões de dólares ou algo nessa ordem realmente ajude o Irã a se recuperar desse conflito", afirmou Vaez.

Fundo de reconstrução de 300 bilhões de dólares

Há ainda o muito mais ambicioso fundo de reconstrução, com condições rigorosas, especialmente relacionadas ao programa nuclear iraniano e ao financiamento de grupos como Hezbollah e Hamas. Teerã inicialmente pressionou por centenas de bilhões de dólares em compensações diretas de Washington pelos danos da guerra, o que foi rejeitado pelo governo de Donald Trump.

A negativa levou à proposta de um fundo privado de reconstrução, estimado em 300 bilhões de dólares, com países do Golfo Pérsico - Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos - como principais financiadores.

"Não será um fundo do qual o Irã poderá sacar livremente", disse Nephew. "Será vinculado a projetos específicos", acrescentou, citando exemplos como uma nova usina de dessalinização ou a reconstrução de portos.

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O fundo proposto, incluído na segunda fase do acordo, é visto por muitos analistas como pouco realista neste momento, diante das inúmeras pendências. "Se algum dia chegarmos à segunda fase, que é quando o fundo de reconstrução se materializa - e isso é uma grande incógnita -, então acredito que os países do Golfo terão interesse em investir no Irã", avalia Vaez à DW.

Após terem sido alvos de ataques iranianos, os líderes do Golfo avaliam se o fundo vai contribuir para a estabilidade de longo prazo da região e se ganharão maior influência sobre Teerã.Ainda assim, esses países expressam forte resistência a investir grandes montantes se não houver mudanças significativas de comportamento e a reconstrução da confiança.

Tanto os EUA quanto o Irã veem a primeira fase do memorando como um teste decisivo que, segundo analistas, pode fracassar a qualquer momento.

"Os iranianos querem ver se Trump realmente cumpre o alívio de sanções e consegue conter o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu", disse Vaez. "Caso contrário, não há motivo para negociar um acordo mais abrangente."

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