A morte de uma pesquisadora russa especializada em peste explicada por um microbiologista

Relatos conflitantes sobre o que causou a morte de uma técnica de laboratório em um instituto russo de pesquisa sobre a peste estão gerando preocupação global. Veja aqui o que você precisa saber

13 out 2026 - 08h03
Resumo
A morte de Darya Shipilova em um centro de pesquisas na Sibéria gerou suspeitas sobre um possível contágio por peste pneumônica, a forma mais letal e rara da infecção bacteriana, colocando cerca de 200 pessoas em quarentena. Embora autoridades russas citem oficialmente pneumonia de causa desconhecida e investiguem um eventual acidente de laboratório, a OMS considera baixo o risco de propagação para a população geral, afastando, por enquanto, temores de uma nova epidemia da doença endêmica.

Informações contraditórias sobre a morte de uma funcionária de laboratório em um instituto russo de pesquisa sobre a peste estão alimentando temores quanto à possibilidade de propagação da peste pneumônica.

Quase 200 pessoas estão em quarentena na Sibéria depois que Darya Shipilova, de 28 anos, adoeceu no trabalho e faleceu posteriormente, em 2 de outubro.

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As circunstâncias exatas de sua morte são desconhecidas. Uma alta autoridade russa publicou nas redes sociais na semana passada que Shipilova "havia morrido de peste" - antes de editar a postagem para acrescentar "possivelmente". Desde então, o órgão regulador da saúde da Rússia declarou que ela morreu de "pneumonia de etiologia desconhecida".

Reportagens da mídia local sugeriram que ela teria sido infectada após um acidente no laboratório onde trabalhava, o Instituto de Pesquisa Antipeste de Irkutsk da Sibéria e do Extremo Oriente. Mas essas informações não foram confirmadas.

Então, o que é a peste e como ela se espalha? Devemos nos preocupar?

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Incidente gerou dúvidas sobre o que o laboratório estava estudando.

O que é a peste? Existem diferentes tipos?

A peste é causada pela bactéria Yersinia pestis. A bactéria geralmente vive em roedores que habitam o solo, como ratos e cães-da-pradaria, mas também pode infectar seres humanos.

A mesma bactéria Y. pestis pode causar três tipos diferentes de peste.

A peste bubônica é transmitida de animais para humanos por pulgas e causa inchaço (chamado de bubões) nos gânglios linfáticos. Outros sintomas incluem febre, dor de cabeça, calafrios e fraqueza.

A peste bubônica pode matar em poucos dias se não forem usados antibióticos. Entre 30% e 60% das pessoas que contraem essa forma de peste morrerão.

A peste septicêmica ocorre se a peste bubônica não for tratada, ou pode ocorrer diretamente se a doença entrar na corrente sanguínea. A peste septicêmica causa sangramento nos órgãos e seu nome se refere à grave infecção sanguínea, a septicemia, que essa forma da doença pode causar.

A peste pneumônica - a causa suspeita, mas não confirmada, da morte de Shipilova na Sibéria - pode ocorrer quando a peste bubônica se espalha para os pulmões. Mas a peste pneumônica também pode se espalhar de pessoa para pessoa por meio de minúsculas gotículas respiratórias.

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A peste pneumônica é a forma mais rara, mas a mais grave da peste. A taxa de mortalidade chega a 100% se não for tratada.

Além dos outros sintomas, a peste pneumônica inclui pneumonia grave - uma infecção nos pulmões, neste caso causada por bactérias.

A peste não é uma doença medieval?

A peste bubônica foi responsável pela morte de dezenas de milhões de pessoas no Mediterrâneo ocidental entre 541 e 750 d.C. (a chamada Peste de Justiniano) e depois matou até metade da população da Europa na Idade Média (agora chamada de "Peste Negra").

Mas tem havido surtos da doença desde a época medieval.

Uma terceira pandemia, que se estendeu pelo final do século XIX e início do século XX, matou até 12 milhões de pessoas.

A peste ainda é endêmica na Ásia Central, na África, nas Américas e na Sibéria, onde a técnica de laboratório russa faleceu na semana passada. Isso significa que ela está presente em um nível estável e consistente nessas regiões.

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Os casos geralmente ocorrem em áreas rurais e agrícolas, o que torna improvável um possível vazamento de laboratório em uma área urbana.

É possível tratá-la?

Sim. Um tratamento com antibióticos de 10 a 14 dias (por via oral ou intravenosa) trata a peste - desde que ele seja iniciado logo após a infecção.

Mas desde 1995 várias cepas da peste resistentes a antibióticos foram detectadas na natureza.

Na década de 1980, cientistas da União Soviética também criaram cepas resistentes - essa história serve de base para cenários hipotéticos envolvendo guerra biológica.

Não há evidências, porém, de que a cepa que supostamente teria matado Shipilova não pudesse ser tratada com antibióticos, ou de que o laboratório esteja pesquisando armas biológicas.

Até que ponto devemos nos preocupar?

Houve apenas um grande surto documentado de peste pneumônica, na década de 1910, na China.

Ainda não sabemos muito sobre o caso na Sibéria. Mas, neste momento, há poucas evidências que justifiquem preocupação com a possibilidade de uma epidemia (que é localizada) ou de uma pandemia (que envolve vários países).

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Em um comunicado divulgado na última segunda-feira, 5 de outubro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou estar ciente de relatos de que uma funcionária de laboratório em Irkutsk teria "morrido de pneumonia grave", mas que a causa da morte ainda não havia sido oficialmente confirmada.

O comunicado da OMS também afirmou: "Com base nas informações não oficiais disponíveis, o risco à saúde pública para a população em geral parece ser baixo. A avaliação de risco será atualizada assim que mais informações estiverem disponíveis".

Para avaliar esse risco, será essencial ter acesso a informações transparentes sobre como Shipilova adoeceu e faleceu.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Thomas Jeffries não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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