O professor universitário João Vitor Dias da Cruz, de 27 anos, diz que foi alvo de abordagem violenta no carnaval de Salvador, na Bahia. Segundo ele, na última sexta-feira, 13, foi agredido por policiais militares com golpes de cassetete, ofendido com falas racistas e homofóbicas e conduzido à delegacia de forma indevida e truculenta.
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De acordo com João, ele, o namorado --que é policial militar-- e outros dois amigos, que preferiram não se identificar, tinham intenção de curtir o Circuito Barra-Ondina. A confusão começou quando um folião teria começado a ofender o professor com falas homofóbicas. Um dos amigos ouviu e reagiu ao xingamento.
“Estava eu e meu esposo ali atrás do trio, dançando juntos, curtindo o carnaval. E tinha um cidadão atrás da gente que começou a desferir palavras homofóbicas direcionadas a mim e a meu esposo. Nisso, uma colega, que estava com a gente, dá o dedo para um deles”, relatou João Vitor ao Terra.
Após o gesto, o folião teria se aproximado e um bate-boca começou. Até então, sem violência física. Amigos do homem que xingava o grupo também se aproximaram e entraram na confusão.
“Esse cara chama ela [nossa colega] de puta e, no momento em que faz isso, nosso outro colega, o marido dela, chega para tirar satisfação. Nisso, três homens que estavam com esse rapaz se aproximam e desferem palavras homofóbicas contra mim. Meu esposo, que é PM, vê a situação e tenta também tirar satisfação em minha defesa.”
Conforme João, no meio do bate-boca, agentes da Polícia Militar apareceram e, sem nem perguntar, os integrantes da corporação o agrediram primeiro. “Nessa que fui tirar ele da situação, sou surpreendido com a patrulha da Polícia Militar e recebo quatro tonfadas. Aqui na Bahia chamamos tonfa de cacetete.”
Enquanto João era agredido, seu namorado chamou a atenção para o fato de que também era PM e que não havia necessidade de violência naquela situação. No entanto, o aviso não impediu as agressões. Muito pelo contrário: teria gerado ataques físicos ao namorado e aos amigos de João, além de dar início a ofensas de cunho homofóbico contra o grupo.
“Uma [tonfada] atinge minhas costas, duas atingem meu tórax e uma atinge o meu peito. Nisso, eu fico sem saber o que fazer. Eu falo: ‘Calma, ele é policial’. Meu esposo também fala que é policial e, nesse momento, o mesmo agente que me agrediu dá dois golpes de tonfa no rosto do nosso colega [que defendia a esposa]. Com isso, partiu a testa dele, causando seis pontos, e partiu a boca, causando três pontos. Hoje, esse colega se encontra no hospital, passou por cirurgia e está em um quadro delicado de saúde.”
Após serem agredidos, uma nova unidade chegou ao local e o grupo foi conduzido à delegacia mais próxima. O namorado de João foi levado de forma mais tranquila, apenas com o policial encostando em seu ombro. Os amigos foram apoiando um ao outro por causa dos ferimentos. Já João Vitor foi conduzido de maneira mais ostensiva, com o braço torcido --mesmo sem oferecer resistência, segundo ele. Em vídeo compartilhado com o Terra, ele mostra a condução truculenta.
“Fomos encaminhados mesmo sem ter cometido crime algum. Tive ali meu espaço delimitado, minha liberdade, sobretudo, cerceada. Tive meu direito violado, fui envergonhado perante os foliões e, mais do que isso, fui imobilizado. Meu braço foi posto para trás, meu braço estava torcido.”
No caminho para a delegacia, João afirma que sofreu ofensas homofóbicas e racistas. “No momento em que reclamo de dor, olho para o aluno oficial e falo: ‘Senhor, meu braço está doendo, tem como o senhor afrouxar mais?’. Ele olha para a minha cara e diz: ‘Seu viado, você ainda não viu o que é violência’. Nesse momento, fico nervoso e começo a mexer no cabelo com o outro braço. Quando ele olha para mim, incomodado, fala: ‘Ainda fica mexendo nessa desgraça de cabelo’. Falando sobretudo da textura do meu cabelo. É nesse momento que pego meu celular e tento gravar a condução.”
Na porta da unidade policial, os agentes ainda tentaram ter acesso ao celular de João Vitor, mas, após resistência, abandonaram o grupo sem apresentá-los formalmente a uma autoridade. Nesse momento, o casal de amigos --o qual o rapaz ficou bastante ferido-- foi procurar atendimento médico. João e o namorado, por sua vez, tentaram registrar a queixa no órgão responsável.
Dentro da unidade, entretanto, os dois enfrentaram dificuldades para formalizar o registro. Agentes teriam informado que o namorado do professor estava alterado demais em seu relato e, por isso, decidiram detê-lo temporariamente por desacato. João ainda relata que, em outro cômodo, o companheiro teria sido agredido, mas ele não presenciou tudo. “Só vi ele sendo pego pelo pescoço.”
O namorado do professor foi liberado horas depois. Em seguida, João Vitor Dias tentou novamente registrar a ocorrência. Desta vez, com sucesso, ele foi submetido ao exame de corpo de delito, que constatou hematomas na região das costelas, peitoral e braço. Para ele, a sensação é de impunidade.
“Me senti muito envergonhado, porque sou estudante de doutorado, faço doutorado aqui na UFBA. Fui professor estagiário da instituição e ajudo a formar cidadãos e outros professores. Nunca, em meus 27 anos, pensei em ser conduzido de forma tão ostensiva quanto fui. Os policiais poderiam intervir, mas de uma forma mais humana e correta. Se eu estivesse errado, ainda entenderia, mas não cometi crime algum. Só estava exercendo o meu direito de curtir. É uma situação muito vexatória.”
O folião, que teria feito as ofensas preconceituosas e iniciado o bate-boca, segundo João Vitor, não foi encaminhado à delegacia e nem agredido pelos policiais militares. Para o professor, há um recorte racial no caso. “Era um homem branco que desferiu esses comentários para a gente. Certamente, a atitude dele pesou muito menos do que a minha de defender o meu esposo. Ele continuou no mesmo local. Ele e os amigos não foram conduzidos nem questionados. O único que foi imobilizado fui eu. Os que causaram toda a situação ficaram lá assistindo enquanto a gente sofria essas agressões injustas.”
O Terra procurou a Secretaria de Segurança Pública da Bahia, mas não houve resposta. O setor de comunicação da Polícia Civil da Bahia confirmou a situação e informou que a 7ª Delegacia Territorial (DT) do Rio Vermelho investiga a denúncia como lesão corporal dolosa envolvendo uma guarnição da Polícia.
O órgão ainda afirmou a reportagem que oitivas e diligências estão em curso para entender as circunstâncias do ocorrido. Um outro documento obtido pela reportagem aponta que os policiais militares, já identificados pela corporação, terão a conduta investigada no âmbito do policiamento ostensivo.