Bernardo de Assis diz que audiovisual o 'salvou': 'Não me tornei ator porque eu sou trans'

Ator revela que atuação em novela da Globo foi um momento 'agridoce' para sua carreira

19 fev 2026 - 04h58
(atualizado às 09h02)
Bernardo de Assis fala sobre participação em novela da Rede Globo
Bernardo de Assis fala sobre participação em novela da Rede Globo
Foto: Gabriel Diniz/Terra

Bernardo de Assis iniciou sua trajetória nas artes cênicas muito cedo. Aos 12 anos, ele começou a estudar teatro na Casa de Dramaturgia Carioca. Alguns anos depois, tornou-se aluno da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), conhecida por formar atores como Paulo Gustavo e Ingrid Guimarães. 

  • Essa reportagem faz parte da série Nós Somos Potência, em que pessoas trans de destaque em diversos setores da sociedade contam suas histórias, vivências, dificuldades e conquistas

Ele só não imaginava que aquele lugar onde se encontrou --e no qual passou grande parte de sua vida-- se tornaria um desafio após sua transição de gênero. "Desde quando eu comecei a fazer arte, já era uma questão política. E aí, quando eu faço minha transição de gênero, o teatro vira para mim e fala: 'Olha, aqui não tem mais espaço para você'. Eu não me tornei ator porque eu sou trans", revela em entrevista ao Terra.

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Bernardo também é formado em Direção Teatral pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi durante o desenvolvimento do espetáculo BIRD que ele se descobriu como homem trans.

"Eu sempre fui ator. Mas, sem dúvida, o audiovisual me salvou" -- Bernardo de Assis ao Terra

Sua estreia na televisão ocorreu na novela Salve-se Quem Puder, da Rede Globo, em 2021. O artista interpretou Catatau, um homem trans que trabalhava como office boy de uma agência de publicidade. O papel lhe rendeu um feito inédito na TV brasileira: o primeiro beijo entre uma mulher cisgênero e um homem trans em novelas. 

Bernardo de Assis é ator
Foto: Reprodução/Instagram/Bernardo de Assis

"Sabe quando você pega o feijão e coloca no algodão? Eu sinto que o Catatau é um pequeno feijão. E aí a gente ainda precisa de mais para ser o algodão, a gente precisa de mais para ser a água, para em algum momento isso se tornar algo vivo. Catatau foi só um começo de alguma coisa", explica.

O ator considera a novela um momento "agridoce" por ter ido ao ar durante a pandemia, mas afirma que o personagem foi um momento chave para visibilidade de pessoas trans.

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"Naquele momento, esse personagem abriu uma possibilidade da transexualidade masculina aparecer de uma outra forma porque é muito delicado se falar em visibilidade trans, as pessoas sequer sabem o que é um homem trans", diz. 

Além da novela, Bernardo também traz no seu currículo atuações em produções como os seriados Transviar (2020) e Todxs Nós (2020). Questionado sobre as oportunidades para pessoas trans na dramaturgia, o artista ressalta que não é possível afirmar que diferentes identidades sejam iguais nesse quesito.

"Não dá pra gente colocar todas as identidades e achar que homens, mulheres e pessoas não binárias têm as mesmas oportunidades, porque não têm. Eu gostaria de pensar não na falta porque, porque já estou cansado de falar nas histórias que faltam, nos personagens que faltam"

Para Bernardo, é importante olhar para as histórias que existem na televisão brasileira que abordem personagens transexuais.

"Eu gostaria de te falar do que existe agora, do que está vivo agora. Quando a gente para pra olhar a dramaturgia brasileira, as histórias que são nossas, elas já são políticas por si só. Então, ao invés de pensar no que está faltando. Eu prefiro pensar no que está faltando para eu, enquanto espectador e espectadora, não acessar o que já está aí. Porque tem muita coisa boa acontecendo", finaliza. 

Fonte: Portal Terra
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