Duas situações que envolvem crimes e possíveis punições da Justiça arrastam o Transtorno do Espectro Autista (TEA) para discussões sobre violência e truculência, e reforçam estigmas a respeito de capacidades das pessoas com deficiência. São casos que devem servir de alerta a respeito de como o uso individual do autismo, invocado como objeto pessoal, prejudica todos os autistas e enfraquece os movimentos de luta por direitos e cidadania.
Em Brasília, o deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) está na mira do Conselho de Ética e foi incluído na lista dos parlamentares que podem ser suspensos pelo motim que impediu, por mais de 30 horas, o trabalho da Câmara Federal. Pollon alegou nas redes sociais que é autista e, por ter a condição, não entendia o que acontecia no momento em que o presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) tentou retomar a cadeira para comandar a sessão da última quarta-feira, 6.
Em Natal (RN), Igor Cabral, ex-atleta indiciado por tentativa de feminicídio após atacar a namorada com mais de 60 socos no rosto, afirmou em depoimento que é autista e, no momento da agressão, passava por uma crise de claustrofobia, conforme confirmado com exclusividade ao blog Vencer Limites pela Secretaria de Comunicação da Polícia Civil do Rio Grande do Norte (SECOMS), mas a defesa do ex-jogador disse que ele não foi submetido a nenhum exame específico, porque se recusou a passar por avaliações, e não há laudo emitido e assinado por profissional especializado.
Não entendeu - Marcos Pollon publicou nas redes sociais: "Estão dizendo que ele (Marcel van Hattem) sentou na cadeira do Hugo Motta e que ele me incentivou a ficar lá. Isso é mentira. Olhem as imagens. Eu sou autista e não estava entendo o que estava acontecendo ali naquele momento". O mesmo parlamentar escreveu algumas horas depois, também nas redes sociais: "o autismo não reduz minha capacidade de discernimento, compreensão e consciência. Mencionei que tenho o transtorno exclusivamente para me levantar contra a injustiça que querem fazer com Marcel van Hattem , que teve a coragem e firmeza de se manter ali".
Questionada pelo blog Vencer Limites sobre o diagnóstico de autismo e a alegada incapacidade de entender as situações, a assessoria de imprensa de Marcos Pollon enviou como respostas as mesmas publicações de redes sociais detalhadas acima e um vídeo disponível há cinco meses no canal do parlamentar no YouTube, com o título 'eu também sou', no qual revela ter recebido o diagnóstico tardio de autismo.
Autista quando necessário - Reportagem do blog Vencer Limites mostrou também com exclusividade que a defesa de Igor Cabral informou que a família do agressor, antes do ataque no elevador, já havia consultado um psiquiatra e houve indicação inicial de que o jovem teria características que correspondem ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e também ao Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), mas o ex-jogador não foi submetido a nenhum exame específico porque se recusou a passar por avaliações e não há laudo emitido e assinado por profissional especializado. "Irei pedir judicialmente esses exames", diz o advogado que representa o agressor indiciado. O defensor informou ainda que o rapaz tem um filho de 8 anos de idade, que é autista com diagnóstico confirmado, vive com a mãe da criança e recebe pensão paga pelo pai.
É importante observar que não há relato de que o rapaz tenha usado as condições objetivamente como justificativa para o ato, embora ele tenha mencionado ser autista no depoimento, apesar de não aceitar fazer os exames que podem confirmar o diagnóstico. A primeira citação ao autismo surgiu em entrevista da delegada responsável pelo caso à Inter TV (afiliada da Rede Globo), o que gerou reações da comunidade autista, de pessoas e instituições, nas redes sociais e na imprensa (saiba mais no episódio 202 da coluna Vencer Limites no Jornal Eldorado).
Mais conhecimento e mais diagnósticos confirmados - A neuropsicóloga Marina Alves, coordenadora do Centro de Neurodesenvolvimento e Reabilitação (CNR) do Instituto Jô Clemente (IJC), a pedido do blog Vencer Limites, explica os motivos para o aumento dos diagnósticos tardios de autismo.
"O conhecimento dos profissionais técnicos está mais abrangente. Existem mais formações e especializações sobre o assunto, a ciência tá ampliando, tem mais artigos científicos e estudos de prevalência no mundo, no Brasil e no mundo. E o conhecimento da sociedade está aumentando, a mídia tem abordado bastante o assunto, esse tema está nas novelas, nas rádios, as pessoas têm acesso a informações e buscado ajuda", diz. "Outro fator que colabora para esse aumento de diagnóstico nas fases adolescente ou adulta é que, antes, entendia-se que só os níveis de suporte 2 e 3 eram mais identificados pela medicina. E hoje sabe-se que pessoas com condições mais sutis também podem ter o diagnóstico no nível 1 de suporte 1. Pessoas têmm se identificado com sintomas e procurado mais informações e o diagnóstico", afirma.
A especialista do IJC também esclarece as atuais diretrizes de avaliação. "Seguimos os critérios diagnósticos do DSM-5 (quinta edição do 'Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais', ferramenta taxonômica e diagnóstica publicada pela Associação Americana de Psiquiatria - APA), que observam dificuldades de persistência na comunicação social, na interação e na presença de comportamentos repetitivos ou interesses restritos que estejam presentes desde a infância e impactam na vida cotidiana".
Marina Alves destaca que não existe marcador biológico para o autismo, não há exame de sangue, imagem ou teste genético que, sozinho, confirme o diagnóstico. "O processo é clínico e envolve a integração de diferentes informações. Muitos transtornos mentais, como ansiedade social, transtornos de déficit de atenção e hiperatividade, depressão e transtornos de personalidade podem ter características que se confundem com o autismo e a própria pessoa pode associar seus sintomas ao espectro. Por isso, é fundamental que o diagnóstico seja feito por uma equipe especializada, capaz de diferenciar as condições e evitar conclusões precipitadas. A avaliação inclui entrevistas detalhadas com a pessoa e, sempre que possível, com um familiar que possa contar a história de desenvolvimento. Também são aplicados questionários padronizados em escalas específicas. Além disso, é realizada uma avaliação médica para descartar outras condições. Somando todas essas informações, chegamos a um diagnóstico preciso e a um plano de acompanhamento adequado", completa a coordenadora do Centro de Neurodesenvolvimento e Reabilitação (CNR) do Instituto Jô Clemente (IJC).