Após o vazamento de mensagens supostamente trocadas por cinco jogadores da seleção brasileira de flag football, o grupo foi afastado da equipe. As conversas, obtidas pelo jornal O Globo e atribuídas a João Pedro Chermont, Vitor "Pedalada" Paiva, Nicolas Quadro, Matheus "Viza" Duarte de Oliveira e Felipe Aymoré, contêm comentários de teor misógino direcionados a atletas da seleção feminina e a membros do staff da entidade.
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A divulgação da suposta conversa entre os atletas teria ocorrido após a exposição feita pela então namorada de um dos jogadores, que afirma ter descoberto uma traição. Segundo fontes ouvidas pelo O Globo, o atleta em questão teria se relacionado com uma jogadora, que seria casada, e registrado o encontro em vídeo.
O episódio, de acordo com as mesmas fontes, teria acontecido durante um evento no México que reunia as seleções masculina e feminina. Ao retornar ao Brasil, a namorada do jogador teria tido acesso não apenas às gravações, mas também ao conteúdo das mensagens trocadas no grupo. Na sequência da repercussão, todos os envolvidos teriam apagado seus perfis nas redes sociais. Os nomes das jogadoras citadas ao longo da reportagem do jornal foram substituídos por nomes fictícios.
Comentários de teor violento e misógino
Em uma das mensagens, Vitor escreveu: "Mariana eu como só pra dar umas porradas". Em outro trecho, ele também afirmou: "Alguém precisa pegar essa 'fdp' de porrada", ao se referir a outra jogadora. Em seguida, ao comentar uma futura viagem, mencionou: "Vamos comprar um sonífero para as namoradas". Ao longo da conversa, o grupo utiliza termos como "puta", "piranha", "vagabunda" e "cachorra" para se referir a diferentes mulheres.
Em outro momento, durante a discussão sobre uma boate em Florianópolis, um dos atletas afirma que o local "é bom para cometer crimes" e descreve o público como "U18", suposta referência a “under 18” (menores de 18 anos). Em um trecho adicional, um dos jogadores cita uma lista de mulheres e sugere ao grupo: "temos que mandar matar ainda em 2026", mencionando inclusive a vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA), Rakel Barros.
O Globo procurou uma ex-namorada de Vitor Paiva, que pediu para não ser identificada. Ela relatou que teria sido agredida pelo atleta em uma ocasião e afirmou ter sido desencorajada a tornar o caso público devido à imagem de "bom moço" atribuída a ele. Em outra parte da conversa obtida pela reportagem, Vitor comenta o episódio com amigos, demonstrando preocupação com uma possível exposição. Ele diz ter feito "alguma coisa sem querer" e relata ter pedido desculpas por ter machucado a então namorada. Na sequência, afirma ao grupo: "A pessoa que eu fui vai sempre vencer. Sempre fui querido por todos, bondoso".
O caso ocorre às vésperas do Mundial de flag football, marcado para agosto, em Düsseldorf, na Alemanha, e em meio ao crescimento da modalidade, que fará sua estreia nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028. Criado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, o flag football é uma versão do futebol americano sem contato físico intenso. Em vez de derrubar o adversário, o defensor precisa retirar uma das fitas (“flags”) presas à cintura do portador da bola.
Todos os cinco atletas citados no episódio eram titulares da seleção brasileira. Nas mensagens, o grupo menciona nominalmente jogadoras, além de integrantes da comissão técnica e de diferentes áreas da federação, como nutricionista, médica e fisioterapeuta. A presidente da CBFA, Cris Kagiwara, também é alvo de comentários misóginos e depreciativos.
Procurada pelo jornal, Cris Kajiwara preferiu não comentar o caso, mas enviou uma nota em nome da CBFA. "A CBFA não tem nada a manifestar neste momento. Eventuais procedimentos relacionados ao tema tramitam sob sigilo, razão pela qual a Confederação não irá comentar, confirmar ou detalhar qualquer informação. Ressaltamos, ainda, que a divulgação indevida de informações protegidas por sigilo poderá gerar responsabilização de quem a fizer", diz o posicionamento.
Clubes adotam medidas e se posicionam
Diferentes clubes e entidades ligadas ao flag football passaram a se manifestar publicamente sobre o caso, enquanto algumas organizações decidiram pelo afastamento dos atletas citados.
Em publicação nas redes sociais, a equipe Brasília Pilots, da qual participam 10 atletas da seleção feminina afirmou que “não há espaço para qualquer forma de discriminação, violência ou comportamento que desrespeite mulheres dentro do esporte”, em referência ao episódio.
Entre os envolvidos, Vitor Paiva e João Pedro Chermont integram o Vasco Almirantes, do Rio de Janeiro. Chermont é estudante de Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio). O clube divulgou comunicado oficial no Instagram informando que decidiu pelo afastamento dos jogadores citados.
Já a equipe Flag Kings, da qual Matheus "Viza" Duarte Oliveira faz parte, também se pronunciou. O clube informou que acompanha o caso e confirmou o afastamento temporário do atleta.
Em nota, a equipe afirmou que seguirá as medidas cautelares determinadas pela Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA), incluindo a suspensão preventiva até a conclusão das investigações. O clube destacou ainda que o afastamento não representa reconhecimento de culpa, mas sim uma medida para garantir a condução do processo com imparcialidade e responsabilidade.
O Terra entrou em contato com a CBFA e aguarda retorno. A reportagem também tenta localizar a defesa dos atletas.