Este Ford Mustang Mach One foi capa do Jornal do Carro nos anos 1980. Na época, um menino viu a matéria e se transformou em um fã da máquina. Anos depois, mais experiente, o entusiasta decidiu comprar o modelo, que hoje está em sua garagem. Antes de falar sobre esta pérola em específico, porém, permita-me um preâmbulo.
Para 1969, o Ford Mustang estreou uma versão que ainda soa familiar: o Mach One. Tratava-se de uma boa relação entre o máximo de esportividade e um preço intermediário.
Assim, o GT (Grand Touring) passou a ser um esportivo de entrada, com apelo mais visual, enquanto o Mach One se transformou realmente no carro para quem buscava velocidade em um modelo de fábrica — e chegou para fazer barulho.
Por falar em barulho, vamos lembrar que a velocidade do som é de 340 m/s (1.235 km/h). Ao atingir essa velocidade, um veículo — por exemplo — estará mais rápido que o próprio som que emite. Claro que as únicas invenções humanas capazes de tal feito são alguns caças e aeronaves militares.
Claro que o Ford Mustang nunca foi capaz de chegar a tal velocidade. Em vez de 1.235 km/h, sua máxima era em torno de 220 km/h na maioria das versões. Isso, no final dos anos 1960, era muito mais que o necessário para se divertir e fazer barulho.
A versão Mach One resistiu até 1978 e retornou por duas vezes: numa aparição de mercado entre 2003 e 2004 e, depois, novamente em 2021.
A inspiração aeronáutica vai além do nome dessa versão. Bunkie Knudsen, CEO da Ford em 1968, havia trabalhado na GM e feito fama por lá com seus pitacos aerodinâmicos no Corvette. Sua experiência vinha das forças armadas, em especial da aeronáutica.
Knudsen trouxe essa visão para o Mustang. Apêndices aerodinâmicos, entradas de ar, mudanças na carroceria, o desenho dos instrumentos e até o nome Mach One vieram dessa fase em que ele era "o cara" da Ford.
Uma nota importante — e pouco lembrada: o próprio nome do veículo, Mustang, é uma homenagem ao caça P-51 (da Segunda Guerra Mundial), uma aeronave pequena e ágil que ganhou o apelido dos militares. O nome faz referência ao cavalo selvagem do oeste norte-americano. O equino não é o maior, mas está entre os mais velozes e ágeis.
Quando Lee Iacocca batizou o carro, lançado em 1964, lembrou da aeronave de guerra. Mas, para simbolizar isso numa linguagem universal, o logo passou a ser o cavalo que corre na grade dos Mustang até hoje.
O Mustang do Jornal do Carro
Os Ford Mustang sempre percorreram os sonhos de Alexandre Mesquita. Ele é publicitário e grande entusiasta de automóveis, além de comprar e vender veículos antigos. Sua paixão nasceu ao ver, na capa do Jornal do Carro, um Ford Mustang Mach One 1969 amarelo. Aliás, não era qualquer Mach One, mas sim este que hoje habita a garagem do fã e volta a ser motivo de matéria aqui na mesma publicação.
À época, o carro pertencia a Denisio Casarini. Ele era piloto de motocicleta e fez maluquices no motocross, mas também era dado a tudo que envolvesse velocidade, incluindo corridas de lancha e automóveis.
Há alguns anos, Casarini teve um problema em uma de suas garagens. O saudoso Bird Clemente me pediu ajuda para socorrer Casarini. Liguei para ele e aproveitei para conversar sobre o carro, que hoje volta a ser matéria do Jornal do Carro. Casarini lembrou bem do veículo.
Ele havia comprado do primeiro ou segundo dono, era pouco rodado e lembra que pagou caro naqueles tempos. Os V8 não tinham muita procura — ainda mais os importados. Era final dos anos 1970 e as importações, inclusive de peças, eram proibidas. Viajar para o exterior e trazer componentes, então, era algo impensável.
Carro quase foi desmontado
Casarini contou algo inusitado: "Comprei o Mustang e o antigo dono, que conhecia de vista, pensou que eu ia desmontar para fazer algum carro de corrida. Até pensei nisso, mas o carro era tão novinho que fiquei com dó e virou meu xodó". Ele ainda complementa com uma curiosidade: "Eu ia até o autódromo dirigindo aquele Mustang amarelo, chegava lá e corria com um carro de motor muito menos potente".
Mas voltemos ao Alexandre Mesquita, atual dono do Mustang. Ao ver o modelo na capa do Jornal do Carro não teve dúvidas: recortou a imagem e a transformou na primeira página de seu caderno. Era um jeito de ter seu objeto de desejo sempre por perto.
Com o caderno não sabemos o que aconteceu, mas a capa ficou guardada. Depois de um tempo foi emoldurada e, em 2019 — quando Alexandre comprou o carro — virou o enfeite da garagem onde o Mustang fica guardado.
Mesquita já avisou a todos os amigos, em alto e bom som, que o carro não sai mais dali. Seu filho também é apaixonado por Mustang e, embora goste dos mais modernos, prometeu nunca vender o Mach One. Quem sabe o garoto vira matéria aqui no Jornal do Carro também.