O PlayStation 2 que oficialmente virava um computador Linux

A Sony vendeu um kit oficial que transformava o console em uma verdadeira estação de trabalho, com HD, teclado, mouse, VGA e Linux

16 set 2026 - 21h03
(atualizado às 21h08)
O PlayStation 2 que oficialmente virava um computador Linux
O PlayStation 2 que oficialmente virava um computador Linux
Foto: Reprodução/Sony

Quando pensamos no PlayStation 2, a memória afetiva nos leva direto a GTA: San Andreas, God of War e Need for Speed: Underground. Mas no início dos anos 2000, no auge do console mais vendido da história, a Sony colocou em prática uma das ideias mais ousadas e esquecidas da era dos videogames: transformar o PS2 em um computador de mesa rodando Linux.

Não se tratava de um "destravamento" ou de um hack feito por modders da comunidade. O PS2 Linux Kit era um pacote de acessórios e softwares oficial vendido diretamente pela Sony.

Publicidade

O PS2 que queria ser mais do que um videogame

Quando o PlayStation 2 chegou ao mercado japonês em 2000, a Sony promovia o aparelho como algo que poderia ir além de um simples videogame. O hardware poderoso para a época, a possibilidade de conexão em rede e a arquitetura baseada no Emotion Engine alimentavam a ideia de que o console poderia ocupar um espaço maior no ambiente doméstico.

Foi nesse contexto que surgiu o projeto Linux. Em abril de 2001, a Sony Computer Entertainment anunciou uma versão beta do PS2 Linux Kit para o Japão. A primeira edição era voltada principalmente para entusiastas e desenvolvedores e seria vendida por 25 mil ienes. A procura pelo kit surpreendeu.

Segundo a própria Sony, o interesse da comunidade Linux japonesa foi tão grande que a empresa acabou disponibilizando aproximadamente 7.900 unidades da versão beta, muito acima da previsão inicial de 2 mil unidades.

O projeto deixou de ser apenas uma curiosidade japonesa e ganhou uma versão internacional.

Publicidade

O que vinha no kit da Sony?

Foto: Reprodução/Ebay

Lançado originalmente no Japão em 2001 e chegando ao ocidente em 2002, o kit custava cerca de US$ 200 na época e vinha recheado de periféricos para converter a experiência de console em um ambiente de trabalho:

  • Discos de instalação: Dois DVDs contendo uma versão customizada da distribuição Linux (baseada no Red Hat Linux 7.3).
  • Disco Rígido (HDD): Um HD oficial de 40 GB para o PS2.
  • Adaptador de Rede (Network Adaptor): A placa Ethernet necessária para conectar o HD ao console e colocar a máquina na internet.
  • Periféricos de PC: Um teclado e um mouse USB oficiais da marca PlayStation.
  • Cabo VGA: Um cabo especial para conectar o PS2 diretamente a um monitor de computador CRT.

Com tudo conectado, o usuário precisava ter um Memory Card reservado apenas para o boot do sistema. Ao ligar o console, em vez do clássico som de inicialização do PS2, a tela exibia uma interface gráfica no estilo X Window System (KDE/Window Maker).

Para que servia e o que dava para fazer?

A Sony promoveu a iniciativa como uma ferramenta para programadores amadores, estudantes de ciência da computação e entusiastas da cultura de software de código aberto. O objetivo era democratizar a criação de jogos e softwares utilizando a própria arquitetura do PS2.

Dentro do sistema, os usuários tinham acesso a um ambiente operacional completo:

  • Desenvolvimento: Acesso direto ao poder de processamento da poderosa (para a época) CPU Emotion Engine e do chip gráfico Graphics Synthesizer.
  • Navegação e Produtividade: Acesso à internet via navegador web, clientes de e-mail e programas de edição de texto.
  • Suporte a periféricos de PC: Capacidade de conectar impressoras e outros dispositivos via portas USB.

Projetos independentes nasceram dessa empreitada, incluindo pequenos jogos caseiros (homebrews), emuladores e servidores locais.

Publicidade

Os limites da máquina e por que o projeto foi descontinuado

Apesar do apelo inovador, o PS2 como PC tinha limitações técnicas severas. O maior gargalo era a memória RAM: o PS2 contava com apenas 32 MB de RAM principal. Embora excelente para rodar jogos otimizados diretamente no hardware do console, era uma quantidade extremamente modesta para manter um sistema operacional multitarefa moderno funcionando com fluidez.

Outra grande limitação era a trava de segurança imposta pela Sony: o sistema rodava em uma camada isolada de hardware e não tinha permissão para ler DVDs de jogos do PS2 nem executar a maioria das bibliotecas comerciais. Ou seja, você não podia usar o Linux para criar e rodar jogos comerciais diretamente ou para ripar mídias no próprio console.

Com a evolução da web e o avanço dos PCs domésticos baratos, o interesse pelo kit começou a cair. Em meados de 2004, a Sony encerrou a produção e venda do kit Linux para PS2.

O legado: Da "taxa de importação" ao PS3

Foto: Reprodução/MachoNacho

Curiosamente, a ideia do PS2 Linux teve motivações que iam além do entusiasmo tecnológico. Na época, transformar consoles em computadores permitia que as fabricantes contornassem certas tarifas de importação na Europa, onde impostos sobre computadores de uso geral eram mais baixos do que sobre consoles de videogame dedicados.

Publicidade

O conceito ainda teve um último suspiro na geração seguinte com o PlayStation 3, que trazia nativamente o recurso OtherOS, permitindo a instalação do Yellow Dog Linux. No entanto, preocupações com segurança e pirataria levaram a Sony a remover a função do PS3 em atualizações posteriores de firmware em 2010.

Hoje, o PS2 Linux Kit é um item raríssimo de colecionador, lembrado como um dos capítulos mais curiosos e fascinantes da história do PlayStation — a época em que seu videogame de mesa tentou rivalizar com o PC da sua casa.

Fonte: Game On
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se