Lançado em 1993, Goof Troop — baseado na série animada conhecida no Brasil como A Turma do Pateta — parecia apenas mais um jogo licenciado da Disney. Afinal, naquela época era comum que desenhos animados ganhassem adaptações para os videogames, muitas delas bastante esquecíveis.
Mas bastavam alguns minutos com o controle nas mãos para perceber que havia algo especial ali. Em vez de apostar em plataformas tradicionais, o jogo surpreendia ao oferecer exploração, combate leve e uma enorme quantidade de quebra-cabeças.
O resultado lembrava muito mais o clássico The Legend of Zelda: A Link to the Past do que qualquer outro título baseado em um desenho infantil.
Muito antes de Resident Evil, Shinji Mikami já mostrava seu talento
Nem todo mundo sabe, mas Goof Troop foi dirigido por Shinji Mikami, anos antes de ele revolucionar a indústria com criação do primeiro Resident Evil em 1996 e ditar as regras do survival horror.
Na época, Mikami ainda era um jovem desenvolvedor da Capcom e havia trabalhado principalmente em jogos baseados em licenças da Disney.
Foi justamente em Goof Troop que ele começou a experimentar ideias de design focadas em exploração, gerenciamento de espaço e resolução de desafios ambientais — conceitos que mais tarde seriam fundamentais em Resident Evil.
É curioso perceber que, mesmo sendo um jogo infantil, Goof Troop já demonstrava uma filosofia de design baseada em observar o cenário, entender os obstáculos e encontrar a melhor solução para cada situação.
E as semelhanças com as aventuras de Link não são apenas coincidências: Mikami já revelou em entrevistas que, ao receber a missão de criar o jogo da Disney, sua principal inspiração foi o primeiro The Legend of Zelda (NES). Ele queria um jogo focado no intelecto, onde avançar dependia mais de resolver problemas do que de pular na cabeça de inimigos.
O resultado? Em vez de um jogo de plataforma lateral focado em velocidade (como Aladdin ou O Rei Leão), recebemos uma aventura com visão aérea, focada puramente na resolução de quebra-cabeças, gerenciamento de inventário e exploração de masmorras.
O "Zelda coop" que a Nintendo não fez
Um dos maiores diferenciais de Goof Troop era seu modo para dois jogadores. Embora a franquia The Legend of Zelda tenha demorado anos para abraçar o multiplayer de forma nativa - o primeiro foi The Legend of Zelda: Four Swords, lançado originalmente em 2002 para o Game Boy Advance - Goof Troop entregou a experiência cooperativa perfeita já em 1993.
O game brilhava ao forçar os dois jogadores a cooperarem de verdade. Pateta era mais lento, porém mais forte (derrotava certos inimigos com um único objeto arremessado); já o seu filho Max era rápido e ágil, ideal para desviar de armadilhas.
Jogar sozinho era divertido, mas dividir o sofá com um amigo, discutir sobre quem ia carregar a chave e acidentalmente nocautear o parceiro jogando um barril na cabeça dele era a verdadeira alma do jogo.
Um legado eterno na memória
Goof Troop pode não ter o mesmo status de superprodução de um Chrono Trigger ou Super Mario World, mas sua execução impecável e jogabilidade atemporal o transformaram em um clássico cult absoluto — especialmente no Brasil.
Mais do que uma adaptação competente de um desenho da Disney, Goof Troop foi um jogo que ousou experimentar ideias diferentes em uma geração dominada por plataformas. O resultado foi uma aventura inteligente, divertida e surpreendentemente sofisticada, que antecipou conceitos vistos em diversos jogos de ação e quebra-cabeças lançados anos depois.
Talvez ele nunca tenha alcançado a fama de Zelda, mas basta revisitá-lo para perceber que, por trás da aparência despretensiosa, existia um dos projetos mais criativos do Super Nintendo — um verdadeiro "Zelda da Disney" que continua encantando quem lhe dá uma nova chance.
E vale lembrar: Goof Troop foi relançado recentemente como parte da coletânea The Disney Afternoon Collection para Switch e Switch 2, garantindo que essa obra-prima do cooperativo continue viva para as novas gerações de jogadores.