A espera por Kingdom Hearts IV já começou, e a Square Enix aproveita a oportunidade para reunir veteranos e novos jogadores em Kingdom Hearts Collection I–III, uma compilação colossal que reúne mais de duas décadas de história em uma única jornada intergeracional.
Mas, com tantas versões e coletâneas lançadas ao longo dos anos, será que este novo pacote para as plataformas atuais traz novidades suficientes para justificar o investimento? É o que vamos descobrir nesta análise.
Uma coletânea para acompanhar a jornada de Sora
O principal atrativo deste pacote está na quantidade de jogos reunidos. A coletânea combina três conjuntos lançados anteriormente: Kingdom Hearts HD 1.5 + 2.5 ReMIX, Kingdom Hearts HD 2.8 Final Chapter Prologue e Kingdom Hearts III, acompanhado da expansão Re Mind.
Na prática, o jogador encontra os principais capítulos da chamada Saga do Buscador das Trevas, além de aventuras paralelas e produções cinematográficas que ajudam a preencher as lacunas da cronologia. É uma oportunidade de acompanhar a evolução da franquia, cuja narrativa se tornou cada vez mais complexa e, por vezes, confusa ao longo dos anos.
O pacote é particularmente interessante para quem nunca teve contato com a franquia. Em vez de procurar versões espalhadas por diferentes consoles ou descobrir por conta própria a ordem dos acontecimentos, o jogador encontra praticamente toda a saga principal em um só lugar.
Ainda assim, é importante entender que nem todo o conteúdo funciona como um jogo completo. Algumas produções, como 358/2 Days, Re:coded e Back Cover, são apresentadas em formato de filme, reunindo cenas importantes de suas histórias. Portanto, embora a coletânea seja bastante abrangente, ela não oferece a experiência jogável original de todos os títulos incluídos.
Disney e Square Enix formam uma combinação improvável
O primeiro Kingdom Hearts, lançado originalmente para PlayStation 2 em 2002, nasceu de uma ideia que poderia facilmente ter dado errado. Colocar Mickey Mouse, Pato Donald e Pateta ao lado de personagens de Final Fantasy parecia uma mistura estranha, mas a Square Enix conseguiu transformar essa combinação em uma aventura com identidade própria.
A história acompanha Sora, um jovem que recebe a Keyblade, uma arma capaz de enfrentar criaturas conhecidas como Heartless e combater a ameaça das trevas. Ao lado de Donald e Pateta, ele viaja por diferentes mundos inspirados nas animações da Disney, reencontrando personagens conhecidos e enfrentando perigos que ameaçam o equilíbrio entre luz e escuridão.
A força da série está justamente nessa combinação. Os mundos Disney oferecem familiaridade e momentos de encantamento, enquanto os personagens originais sustentam uma narrativa que se aprofunda a cada capítulo.
O problema é que a trama também se tornou cada vez mais difícil de acompanhar. Conceitos como Heartless, Nobodies, diferentes versões de personagens e viagens entre linhas temporais passaram a ocupar um espaço crescente na história. O que começou como uma aventura relativamente simples sobre amizade e coragem evoluiu para uma mitologia extensa, que exige atenção e conhecimento prévio para ser compreendida por completo.
Essa complexidade pode ser fascinante para quem acompanha a série há anos, mas também representa uma barreira para os novatos. Mesmo com tantos jogos reunidos, a coletânea não resolve automaticamente todas as dificuldades de compreensão da narrativa.
Combate divertido e mundos cheios de personalidade
Se existe um elemento que ajuda a manter a série interessante depois de tantos anos, é o sistema de combate. A franquia combina ação em tempo real, habilidades especiais, magia e comandos que permitem alternar entre diferentes estratégias durante os confrontos.
Sora é o protagonista, mas seus companheiros também desempenham um papel importante. Donald utiliza magias, enquanto Pateta contribui com sua resistência e habilidades de apoio. A parceria entre os personagens faz parte da identidade da franquia e ajuda a diferenciar suas batalhas de outros RPGs de ação.
Ao longo dos capítulos, a Square Enix experimentou diferentes ideias para renovar a jogabilidade. Chain of Memories ( lançado originalmente no Game Boy Advance), por exemplo, aposta em um sistema baseado em cartas, enquanto Birth by Sleep (PSP) apresenta três protagonistas com estilos próprios. Já Dream Drop Distance (3DS) introduz mecânicas particulares de movimentação e alternância entre personagens.
Essa variedade é um dos pontos positivos da coletânea, mas também significa que nem todas as experiências têm o mesmo ritmo ou funcionam da mesma maneira. Algumas mecânicas podem parecer menos intuitivas para quem está acostumado aos RPGs de ação atuais.
A progressão também varia de um jogo para outro, com habilidades desbloqueáveis, equipamentos e melhorias que tornam Sora e seus aliados mais preparados para os desafios. A possibilidade de revisitar diferentes mundos e enfrentar chefes marcantes continua sendo uma das maiores atrações da franquia.
Os cenários inspirados em filmes da Disney são outro destaque. Eles recriam ambientes conhecidos, mas também apresentam personagens originais e situações que se conectam à história central. Essa mistura de referências familiares e elementos próprios ajuda a explicar por que Kingdom Hearts continua sendo tão reconhecível mesmo depois de mais de duas décadas.
Uma experiência que envelheceu de maneiras diferentes
Reunir jogos de diferentes gerações e plataformas em uma única coletânea também evidencia o quanto a série mudou ao longo do tempo.
Os primeiros capítulos preservam o charme de suas origens, mas algumas decisões de design podem denunciar a idade dos jogos. A movimentação, a câmera e determinados sistemas de combate nem sempre têm a mesma fluidez encontrada em produções mais recentes. Quem chega à franquia depois de jogar RPGs de ação modernos pode precisar de algum tempo para se adaptar.
Por outro lado, a evolução também é perceptível. Kingdom Hearts II continua sendo um dos capítulos mais celebrados pelos fãs, especialmente pelo ritmo dos combates e pela variedade de habilidades. Já Birth by Sleep oferece uma perspectiva diferente da mitologia, enquanto Dream Drop Distance experimenta novas possibilidades para a movimentação e a exploração.
Kingdom Hearts III representa a culminação dessa evolução, com cenários mais amplos, combates espetaculares e uma apresentação visual que aproxima a série das animações modernas da Disney. A expansão Re Mind complementa a experiência com conteúdo adicional e acontecimentos importantes para quem deseja compreender melhor os desdobramentos da história.
O resultado é uma coletânea que funciona também como um registro da transformação da franquia. Nem todas as ideias envelheceram igualmente bem, mas a diversidade de experiências ajuda a manter a jornada interessante.
Uma coletânea que poderia oferecer mais novidades
A chegada das versões nativas aos consoles da geração atual é conveniente, especialmente para quem deseja concentrar toda a experiência em uma única plataforma. A principal vantagem está na praticidade de reunir os jogos em um só pacote e aproveitar as melhorias técnicas disponíveis nas versões mais recentes da série.
Kingdom Hearts III é o capítulo que mais se beneficia da experiência, com desempenho mais estável e combates que podem alcançar 60 quadros por segundo. A direção artística também continua eficiente, principalmente nos mundos inspirados nas animações da Disney, que apresentam cores vibrantes e cenários cheios de detalhes.
Entretanto, é importante não confundir o lançamento de versões nativas para os consoles atuais com uma remasterização abrangente de toda a coleção. Grande parte do conteúdo já estava disponível em coletâneas anteriores para PlayStation e Xbox, além de versões para PC. No geral, o relançamento reaproveita versões já existentes, com poucas novidades capazes de justificar uma nova compra para quem já possui os jogos.
Para quem ainda não teve contato com a franquia, a proposta é muito mais atraente. Mas os fãs que acompanham a série precisam avaliar se a praticidade de reunir tudo em um único pacote compensa o investimento.
A ausência de localização é uma oportunidade perdida
Um dos principais problemas é a falta de localização para o português brasileiro. A coletânea não oferece legendas em nosso idioma, o que afeta diretamente a compreensão de uma franquia cuja história depende tanto de diálogos e explicações sobre seu universo.
Em um jogo de ação com narrativa simples, a ausência de tradução pode ser apenas um inconveniente. Em Kingdom Hearts, porém, a situação é diferente. A série apresenta nomes específicos para criaturas, organizações, habilidades e conceitos que se tornam cada vez mais importantes conforme a trama avança.
A necessidade de acompanhar conversas longas e compreender as relações entre personagens pode dificultar a experiência de quem não domina inglês ou outro idioma disponível. Isso é especialmente problemático para os novatos, justamente o público que mais tem a ganhar com uma coletânea tão completa.
É um contraste incômodo, sabendo que o aguardado Kingdom Hearts IV já tem confirmada a sua localização nacional. Deixar esta edição definitiva sem o nosso idioma soa como uma oportunidade desperdiçada de preservação.
Considerações
Kingdom Hearts Collection I–III é uma excelente oportunidade para conhecer uma das franquias mais particulares da Square Enix. A mistura de personagens da Disney, referências a Final Fantasy, combates dinâmicos e uma narrativa que atravessa diferentes jogos continua proporcionando momentos memoráveis.
A quantidade colossal de conteúdo também impressiona. São diferentes estilos de combate, mundos para explorar e histórias que ajudam a compreender a trajetória de Sora e seus amigos. Mesmo com algumas mecânicas que envelheceram e uma trama que nem sempre é fácil de acompanhar, a coletânea preserva boa parte da magia que tornou a série tão especial.
Para quem nunca jogou Kingdom Hearts, o pacote é uma porta de entrada bastante conveniente para esse universo. Já os fãs veteranos precisam avaliar se vale a pena revisitar essa jornada em uma plataforma atual, considerando que as novidades são limitadas em relação às versões anteriores.
Kingdom Hearts Collection I–III está disponível para PC, PlayStation 5, Switch 2 e Xbox Series.
Esta análise foi feita no PlayStation 5, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Square Enix.