O embate entre forças divinas e infernais é um recurso clássico na indústria para criar universos de proporções épicas. Crimson Moon segue exatamente esse caminho ao colocar o jogador no controle de um Nefilim destinado a proteger a cidade de Gildenarch da aniquilação. No entanto, sustentar um conceito tão grandioso exige muito mais do que apenas jogar hordas de inimigos na tela.
Misturar o peso do combate dos soulslikes com o ciclo de tentativas de um roguelite até rende bons confrontos. Outro grande acerto fica por conta da trilha sonora, que une metal e coros medievais para dar identidade às lutas contra os chefes. Mesmo com essas qualidades, a experiência logo perde fôlego ao esbarrar em uma narrativa genérica e em um sistema de loot repetitivo que joga contra o próprio ritmo da aventura.
Trilha sonora épica para uma história que não decola
Em Crimson Moon, acompanhamos uma batalha literal entre anjos e demônios, na pele de um Nefilim, um ser meio humano e meio anjo que serve à Ordem da Lua Vermelha. Somos destinados a defender e livrar a cidade de Gildenarch de todo o mal que tomou conta do local, principalmente das criaturas conhecidas como Legião Infernal, responsáveis por levar a humanidade daquela região à beira da extinção.
Com essa tarefa imposta ao nosso protagonista, a trama é bastante direta e honesta com o que deve ser feito: derrotar tudo que aparecer em nosso caminho até não sobrar mais ninguém e, assim, permitir que a cidade encontre seu momento de paz. Quando não estamos apenas lutando, o principal local para desenvolver mais a narrativa é o hub conhecido como Salão da Ordem. É nela que vamos passar boa parte das nossas idas e vindas, principalmente porque é na Mesa da Guerra que determinamos nossos próximos afazeres.
Esse hub é o esperado do que vemos em muitos roguelites e roguelikes, sendo o lugar onde vamos conversar, comprar novos itens e aprimorar nossos equipamentos. Olhando apenas para a parte narrativa, porém, os personagens presentes aqui são bem desinteressantes, muito pelo fato de serem bastante clichês, beirando o estereótipo de soldados que seguem apenas uma missão sem questionar nada.
É uma pena que eles acabem sendo reduzidos a isso, já que jogos que abraçam de vez a proposta de serem roguelites ou soulslikes, como é o caso de Crimson Moon, que mistura os dois gêneros, têm como ponto forte desenvolver a trama por meio dos diálogos. Não é o caso aqui, fazendo com que a narrativa funcione muito mais como um pano de fundo do que como algo épico, como poderia ser pelo próprio conceito escolhido para a história.
O que move Crimson Moon é justamente seu combate. Ele é um híbrido do que vemos em jogos souls, principalmente por conta das funcionalidades que possui, e não necessariamente pelo nível de desafio. É um combate bem simples, no qual nosso personagem possui um arsenal limitado de armas que vai coletando com o tempo nas fases, além de ser bastante responsivo na maneira como os golpes acertam e como os inimigos reagem a eles.
Um ponto bastante positivo que ajuda até mesmo as batalhas presentes no jogo é sua trilha sonora, que adota um estilo mais medieval, com o uso de coro em alguns momentos, além de misturar essa temática com o metal. Isso tornou alguns confrontos contra chefes bastante memoráveis, principalmente pelo embalo da luta acompanhado pela trilha que estava tocando.
Sobre a parte roguelite, a sensação que tive é que o jogo a tornou bastante acessível no momento em que nosso personagem perece e ainda temos um continue para seguir. Essa quantidade, inclusive, pode aumentar com o tempo, tornando tudo ainda mais fácil e menos frustrante. Por outro lado, a parte de loot e de coletar novas habilidades se mostrou bastante limitada.
Mesmo concluindo uma fase e partindo para a próxima, a chance de encontrar o mesmo aprimoramento e até mesmo as mesmas armas novamente é alta, dando aquela sensação de déjà-vu, mesmo com as fases tendo sido trocadas. Isso torna a gameplay um loop de repetição que não deveria acontecer, ainda mais em um roguelite, gênero que permite brincar bastante com a ideia de mudar constantemente a experiência.
Outro ponto que foi muito pouco aproveitado são as próprias fases. Ter escolhido a ideia de anjos contra demônios poderia ter resultado em algo muito mais épico do que o jogo tenta vender. Até existem cenários coerentes com essa proposta, principalmente nas fases iniciais, que possuem um tom melancólico por conta da invasão. O próprio hub também tem um ar angelical e funciona como um local mais esperançoso, mas esses contrastes acabam aparecendo apenas em alguns lugares que dá para contar nos dedos.
Tratando-se de um título que usa a Unreal Engine 5 como motor gráfico, não tenho nada a reclamar da maneira como ele rodou no PlayStation 5. Não tive nenhum problema durante as lutas contra chefes ou em locais mais detalhados. Mesmo jogando no modo Desempenho, a diferença para o modo Qualidade é quase imperceptível, o que tornou a opção com mais frames a melhor escolha. É louvável ver a engine conseguindo entregar um desempenho alto sem abrir mão da qualidade gráfica.
Considerações
Crimson Moon tem uma boa base, principalmente quando coloca seu combate em primeiro plano, mas acaba deixando algumas de suas ideias mais interessantes sem o desenvolvimento necessário. A mistura de soulslike com roguelite poderia render uma aventura bem mais marcante, porém a repetição e a pouca variedade acabam limitando o resultado. Ainda assim, o bom desempenho no PS5 e uma trilha sonora que funciona especialmente bem nos confrontos ajudam a manter a experiência em um nível competente.
Crimson Moon está disponível para PC, PlayStation 5 e XBOX Series.
Esta análise foi feita no PlayStation 5, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela ProbablyMonsters.