Saques de R$ 11 milhões e gestão temerária: o que dizem as investigações sobre Casares

Investigado por desvio de dinheiro, dirigente decide renunciar à presidência do São Paulo após sofrer impeachment

21 jan 2026 - 20h11
(atualizado às 20h37)

A renúncia de Júlio Casares à presidência do São Paulo é resultado de mais de uma denúncia contra o dirigente, investigado pela Polícia Civil desde o fim do ano passado por saques realizados nas costas do clube.

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No inquérito policia, o delegado Tiago Fernando Correia, da 3ª Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração e Combate à Lavagem de Dinheiro (Dicca), disse haver "consistentes indícios de que uma suposta associação criminosa, envolvendo dirigentes e prestadores de serviço do clube, estaria, ao que tudo indica, operacionalizando um sofisticado esquema de desvio de recursos e apropriação de valores".

35 saques que somam R$ 11 milhões

Desde outubro do ano passado, a Polícia Civil investiga a realização de 35 saques em dinheiro vivo das contas do São Paulo, cujo total soma R$ 11 milhões, entre janeiro de 2021 e novembro de 2025. A

Os dois bancos nos quais as contas estão vinculadas apontaram as movimentações como "atípicas e incompatíveis com a prática de mercado para uma entidade deste porte, ressaltando a incapacidade de assegurar a real destinação dos valores."

Os primeiros dois saques foram feitos por um ex-funcionário da associação. Todos os outros ocorreram com o apoio de uma empresa de carros-fortes, na boca do caixa. Segundo o delegado, a escolha por esse meio dificulta o rastreio do dinheiro.

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As mudanças no modo de sacar foram progressivas. Em 2021, duas operações foram feitas pelo gerente financeiro José Luiz da Silva, totalizando R$ 600 mil. Ambas foram no Banco Rendimento, o que também gera questionamentos do Coaf.

Investigação inclui ex-mulher e filha de Casares

A investigação também identificou uma série de depósitos feitos em conta bancária conjunta de Júlio Casares e Mara Casares, ex-mulher do dirigente. Ela foi diretora feminina de cultura e eventos do clube e se licenciou do cargo após as acusações de que participava de esquema de venda ilegal de camarotes.

Entre janeiro de 2023 e maio de 2025, foi depositado R$ 1,5 milhão em espécie na conta do casal.

O relatório do Coaf cita também a filha do dirigente, Deborah de Melo Casares, cuja conta em seu nome é analisada entre novembro de 2024 e janeiro de 2025.

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Neste caso, também há depósitos em dinheiro. Em 22 de novembro 2024, Mara colocou R$ 49,5 mil em espécie na conta de Deborah. Novamente é chamada a atenção para o valor ligeiramente abaixo do limite de notificação automática ao Coaf.

Os depósitos não se limitaram à conta física. O Coaf descobriu uma "operação combinada" em que Mara também aportou valores em uma conta do Otto Estúdio de Beleza, do qual Deborah é sócia. E também com dinheiro vivo.

O ponto que os investigadores tentam desvendar é se há ligação entre os saques, no caixa do São Paulo, e os depósitos, na conta dos dirigentes.

Casares diz que o dinheiro depositado em sua conta, alvo de apuração das autoridades, tem lastro e será detalhado. Em carta publicada no seu perfil do Instagram em que anuncia a sua renúncia, ele alega que as acusações pelas quais responde começaram com "versões frágeis" e são tratadas como verdade "mesmo sem apresentação de provas robustas".

Venda ilegal de camarotes

Em dezembro, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) foi acionado para investigar a venda ilegal de ingressos em um camarote do MorumBis para um show da Shakira, em fevereiro de 2025. O espaço no estádio do São Paulo não era comercializado oficialmente, mas teve o uso cedido a uma intermediária, que cobrou judicialmente por valores não repassados por terceiros e fez o caso se tornar público.

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Julio Casares, presidente do São Paulo, é alvo de pedido de afastamento feito por grupo de oposição
Julio Casares, presidente do São Paulo, é alvo de pedido de afastamento feito por grupo de oposição
Foto: Felipe Rau/Estadão / Estadão

Um áudio divulgado pelo GE mostra Mara Casares e Douglas Schwartzmann, então diretores do São Paulo, pressionando Rita de Cassia Adriana Prado, que vendia os ingressos do espaço, para que ela encerre a cobrança judicial a uma terceira pessoa que também atuou na venda de entradas.

O escândalo, somado à outra investigação da Polícia Civil, resultou no afastamento de Casares da presidência após o Conselho Deliberativo aprovar o impeachment do mandatário e, agora, na renúncia.

As investigações sobre irregularidades envolvendo o São Paulo foram intensificadas com a criação de uma força-tarefa criada pelo MP-SP. Os promotores José Reinaldo Guimarães Carneiro e Tomás Busnardo Ramadan vão trabalhar junto do delegado Tiago Fernando Correia, responsável pelo caso na Polícia Civil, para dar maior celeridade ao processo.

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