A Polícia Civil, por meio da 3ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração (DPPC), realizou nesta quarta-feira, 21, uma operação contra a venda ilegal de camarotes no estádio do MorumBis, casa do São Paulo Futebol Clube. Agentes cumprem quatro mandados de busca e apreensão. Ao todo foram apreendidos R$ 28 mil, um CPU e vasta documentação.
Entre os alvos da ação estão Mara Casares, ex-mulher do presidente afastado Júlio Casares, e Douglas Schwartzmann, diretor adjunto das categorias de base do São Paulo. Rita Adriana Prado, suposta responsável pela comercialização irregular de um camarote, também na mira da operação.
Schwartzmann não foi localizado no endereço procurado. A defesa informou que o diretor se colocou à disposição para esclarecer os fatos no início desde o início da investigação e que foi avisado previamente que ele faria uma viagem ao exterior na presente data. "À toda evidência que a busca realizada na presente data — justamente quando as Autoridades tinham prévia ciência que Douglas estaria fora do País — tem a finalidade única de constrangê-lo, uma vez que tal medida foi totalmente inócua", diz o advogado Átila Machado, representante do dirigente.
Segunda a defesa de Mara Casares, representada pelos advogados Rafael Maluf, Paula Stoco e Chiara de Siqueira, ela estava em casa e foi surpreendida pela ação policial. Eles afirmam que Mara sempre se colocou à disposição das autoridades, mas nunca foi intimida a prestar esclarecimentos. "Dessa forma, uma medida desta gravidade, cujos fatos são públicos, a torna desnecessária e inócua, restando como objetivo apenas e tão somente a exposição midiática e abusiva da Sra. Mara e de seus familiares", disse a defesa, em nota.
Rita Adriana Prado se disse surpresa com a operação e afirmou colaborar com a Polícia. O Estadão apurou que ela tem passado dias em outro local, temendo ameaças anônimas que havia recebido.
Em dezembro, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) foi acionado para investigar a venda ilegal de ingressos em um camarote do MorumBis para um show da Shakira, em fevereiro de 2025. O espaço no estádio do São Paulo não era comercializado oficialmente, mas teve o uso cedido a uma intermediária, que cobrou judicialmente por valores não repassados por terceiros e fez o caso se tornar público.
Um áudio divulgado pelo GE mostra Mara Casares e Douglas Schwartzmann, então diretores do São Paulo, pressionando Rita de Cassia Adriana Prado, que vendia os ingressos do espaço, para que ela encerre a cobrança judicial a uma terceira pessoa que também atuou na venda de entradas.
O escândalo, somado à outra investigação da Polícia Civil, que apura um suposto esquema de desvio de verba no São Paulo, ocasionaram no afastamento de Casares da presidência após o Conselho Deliberativo aprovar o impeachment do mandatário. A destituição ainda depende da aprovação na assembleia de associados do clube.
As investigações sobre irregularidades envolvendo o São Paulo foram intensificadas com a criação de uma força-tarefa criada pelo MP-SP. Os promotores José Reinaldo Guimarães Carneiro e Tomás Busnardo Ramadan vão trabalhar junto do delegado Tiago Fernando Correia, responsável pelo caso na Polícia Civil, para dar maior celeridade ao processo.
Entenda o caso dos camarotes do MorumBis
O MorumBis conta com diversos camarotes que são usados em jogos e shows. Um deles é o camarote 3A, espaço que não é comercializado e que fica em frente ao gabinete do presidente Júlio Casares. O local é conhecido por "Sala Presidencial".
Mara Casares e Douglas Schwartzmann, agora diretores licenciados do São Paulo, estariam envolvidos em um esquema de venda de ingressos do camarote 3A, uma ação não autorizada e que seria feita de forma "clandestina", como os próprios diretores licenciados afirmam em áudio obtido pelo GE.
Nesta conversa, Mara e Schwartzmann falam com Rita de Cassia Adriana Padro, conhecida como Adriana, da The Guardians Entretenimento Ltda, que seria intermediária na venda e repasse das entradas desse camarote para terceiros.
Adriana ingressou com um processo contra Carolina Lima Cassemiro, da Cassemiro Eventos Ltda, acusando-a de ter tirado de suas mãos 60 ingressos para um show da colombiana Shakira. Esses 60 tickets seriam comercializados por R$ 132 mil. No entanto, Adriana alega que recebeu apenas R$ 100 mil. Carolina diz que pagou o combinado, está sendo vítima de calúnia e teve prejuízos.
Ocorre que ao processar uma pessoa ou empresa por obter de forma irregular ingressos que foram gerados de maneira "clandestina" o caso se tornou público e passou a ser de conhecimento do São Paulo. Dada a situação, Mara e Schwartzmann pressionaram Adriana a retirar o processo para que a ação ilícita não se tornasse de conhecimento geral.
Mara diz que os áudios estão fora de contexto e alega que "não obteve ganho próprio de nenhuma natureza". Já Schwartzmann afirma que não teve "qualquer participação em venda, negociação ou comercialização de camarotes ou ingressos de eventos" e que agiu pontualmente para evitar que um problema particular afetasse o São Paulo.
As aberturas das sindicâncias foram solicitadas pelo superintendente do clube, Marcio Carlomagno. Ele também é citado no áudio vazado, mas diz que apenas teve o nome usado indevidamente.
Confira a nota da defesa de Douglas Schwartzmann
No final do ano passado, quando tomou ciência da investigação pela mídia, a Defesa se dirigiu a Delegacia e informou que o Sr. Douglas Schwartzmann estava à inteira disposição da Autoridade Policial para prestar esclarecimentos sobre os fatos.
Ato seguinte, no dia 9 de janeiro, a Defesa comunicou formalmente a Autoridade Policial que o Sr. Douglas faria uma viagem ao exterior na semana do dia 18 de janeiro, em razão de compromissos profissionais.
Inclusive, naquela oportunidade, apresentou-se cópia das passagens aéreas - ida e volta -, bem como a documentação comprobatória das atividades que faria no exterior.
Hoje, policiais civis se dirigiram a residência do Sr. Douglas e constataram o óbvio: ele não estava.
À toda evidência que a busca realizada na presente data - justamente quando as Autoridades tinham prévia ciência que Douglas estaria fora do país - tem a finalidade única de constrangê-lo, uma vez que tal medida foi totalmente inócua.
Confira a nota da defesa de Mara Casares
A Sra. Mara Suely Soares de Melo Casares, por meio de seus advogados Rafael Maluf, Paula Stoco e Chiara de Siqueira, vem a público informar que foi surpreendida na data de hoje com o cumprimento de medida cautelar de busca e apreensão em sua residência.
Cumpre destacar que a Sra. Mara Suely Soares de Melo Casares sempre se colocou à inteira disposição da Autoridade Policial para prestar os devidos esclarecimentos acerca dos fatos perquiridos nos autos do aludido Inquérito Policial, jamais tendo sido intimada para qualquer ato que objetivasse a sua respectiva elucidação, mesmo com o constante contato presencial de seus advogados com a Autoridade Policial.
É inegável a postura colaborativa da Sra. Mara Suely Soares de Melo Casares com o deslinde das investigações, cujo teor é amplamente divulgado pelos meios de comunicação. Dessa forma, uma medida desta gravidade, cujos fatos são públicos, a torna desnecessária e inócua, restando como objetivo apenas e tão somente a exposição midiática e abusiva da Sra. Mara e de seus familiares.
A Sra. Mara Casares mantém a sua postura irrestrita de colaborar amplamente para a elucidação dos fatos perquiridos, cuja lisura de seus atos será comprovada ao longo desta investigação policial.
Por fim, a Defesa esclarece que ainda não teve acesso à íntegra da decisão proferida pelo Juízo da Vara das Garantias do Foro Central Criminal da Capital do Estado de São Paulo, que determinou a medida de busca e apreensão
Confira a nota da defesa de Rita de Cássia Adriana Prado
A defesa de Rita de Cássia Adriana Prado foi surpreendida, na presente data, com a notícia da realização de medida de busca e apreensão.
Ressalta-se que a Sra. Rita de Cássia sempre se colocou e permanece à disposição para colaborar com as investigações, contudo jamais foi formalmente intimada para prestar quaisquer esclarecimentos, o que nos causa estranheza.
A defesa reafirma sua confiança no regular andamento das investigações e reitera a plena disposição de sua cliente em contribuir com o esclarecimento dos fatos, esperando que a apuração ocorra com a observância dos princípios da legalidade, proporcionalidade e do devido processo legal, reforçando que nunca praticou qualquer ato ilícito e que sempre trabalhou pautada na ética, lisura e honestidade, o que será devidamente demonstrado ao final da investigação.