Quantos títulos Cristiano Ronaldo deu a Portugal para fazer tanto barulho?

Cristiano Ronaldo construiu uma carreira monumental, mas o tamanho do ídolo não pode transformar a seleção portuguesa em propriedade particular

4 out 2026 - 00h54
(atualizado às 00h54)
Resumo
Cristiano Ronaldo conquistou dois títulos oficiais pela seleção principal de Portugal: a Eurocopa de 2016 e a Liga das Nações de 2019. Além dessas taças inéditas, o craque transformou o patamar competitivo do país ao se consolidar como o maior artilheiro da história das seleções nacionais, acumulando recordes e uma liderança que justificam a enorme repercussão midiática e a idolatria global em torno de sua trajetória pela equipe portuguesa.

Cristiano Ronaldo tem 36 títulos na carreira. Trinta e seis. É uma coleção respeitável, extraordinária, quase obscena. Mas há uma pergunta que Portugal parece ter medo de fazer: quantos deles foram conquistados pela seleção? Três. Uma Eurocopa e duas Ligas das Nações. É pouco?

Fotomontagem: Vinicius Teixeira/ Agência RTI Esporte
Fotomontagem: Vinicius Teixeira/ Agência RTI Esporte
Foto: Fotomontagem: Vinicius Teixeira/ Agência RTI Esporte / RTI Esporte

Evidentemente não. É suficiente para justificar a ideia de que o jogador deve ter cadeira cativa, autoridade especial e direito de contestar publicamente qualquer decisão de um treinador? Aí já é outra conversa.

Publicidade

Ninguém precisa diminuir Cristiano Ronaldo para colocar as coisas no devido lugar. Sporting Lisboa, Manchester United, Real Madrid, Juventus, Al-Nassr. Cinco Bolas de Ouro. Quatro títulos Mundiais de Clubes.

Uma carreira de atleta profissional levada ao limite, construída sobre disciplina, obsessão por desempenho e uma capacidade rara de prolongar a própria excelência. O homem virou bilionário, criou negócios, transformou o próprio corpo em laboratório e agora persegue os mil gols como quem ainda precisa provar alguma coisa.

Não precisa.

O problema começa justamente quando o extraordinário jogador parece acreditar que sua excepcionalidade o torna exceção à regra.

Publicidade

A chegada de Jorge Jesus à seleção portuguesa deveria significar o início de um novo ciclo. E Jesus sabe perfeitamente quem é Ronaldo. Trabalhou com ele na Arábia Saudita, conhece seu temperamento, sua ambição e, principalmente, conhece a necessidade de comandar sem aceitar interferências externas. A Federação Portuguesa não o contratou para administrar egos. Contratou-o para tentar fazer Portugal campeão do mundo.

Eis o ponto que se perdeu no barulho.

Cristiano ficou no banco contra a Noruega. Não morreu ninguém. Portugal não deixou de existir. O futebol continuou sendo jogado e, segundo os próprios jogadores, a equipe vem apresentando qualidade. Mesmo assim, o episódio ganhou proporções de crise de Estado, chegou à imprensa, à internet e até ao Parlamento português. Convenhamos: é muita importância para uma cadeira de reserva.

Ídolo não é sinônimo de dono

Ronaldo tem todo o direito de não gostar da decisão. Pode reclamar internamente, discutir com a comissão técnica, demonstrar inconformismo. O que parece pouco razoável é transformar uma decisão de escalação em afronta pessoal.

E há uma ironia nisso tudo: o jogador sabe que o tempo passa. Seu objetivo dos mil gols é justamente a prova mais evidente de que sua carreira está na reta final. A próxima Copa do Mundo não será uma Copa do Mundo de transição para Cristiano Ronaldo; será, provavelmente, a última oportunidade. Por isso mesmo, Portugal precisa pensar além dele.

Publicidade

Na última Copa do Mundo, Cristiano Ronaldo esteve longe de ser protagonista. Foi substituído em todos os jogos em que começou como titular. Ainda assim, qualquer tentativa de discutir sua participação parece tratada como heresia.

Mas desde quando um ídolo deixa de poder ser ultrapassado?

Fernando Santos teve problemas. José Mourinho teve problemas. Wayne Rooney, Gary Neville, Dani Alves e Juan Cuadrado ficaram pelo caminho das muitas relações turbulentas de uma carreira que também teve conflitos. Isso não apaga o jogador. Apenas lembra que ninguém recebe imunidade diplomática por ter sido genial.

Portugal precisa decidir se quer carregar Cristiano Ronaldo para o próximo capítulo ou construir o próximo capítulo depois de Cristiano Ronaldo.

Jorge Jesus foi contratado para tomar decisões. Se uma delas for deixar o maior ídolo português no banco, será preciso aceitar que o futebol, finalmente, voltou a ter uma hierarquia.

E, neste caso, ela começa no treinador.

Publicidade

Cristiano Ronaldo já fez história. Agora precisa permitir que Portugal faça a sua sem ele precisar estar no centro de todas as páginas.

(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte.

Quer ficar por dentro dos resultados e novidades de futebol?
Ativar notificações