A Rua da Mooca deixou de ser apenas uma via da zona leste paulistana para se transformar, por algumas horas, em um pedaço de Buenos Aires para ver a vitória da Argentina sobre a Áustria pela Copa do Mundo. Na altura da rua Leme da Silva, camisas albicelestes bailavam nos varais dos vendedores ambulantes e um posto de combustível armou um telão para a arquibancada improvisada. Teve até sinalizador.
No centro da festa estava o Moocaires, bar temático que há quase duas décadas funciona como ponto de encontro da comunidade argentina em São Paulo. As paredes são cobertas por quadros, camisas, bandeiras e lembranças muitas vezes doadas pelos próprios clientes.
O fato novo na região é que cada vez mais brasileiros são convertidos à paixão por Lionel Messi, maior artilheiro da história dos Mundiais.
Um deles é o motoboy Messias Abílio Cruz. A admiração pelo camisa 10 está estampada no rosto. Literalmente. Logo abaixo do olho esquerdo, ele tatuou o sobrenome do craque argentino. Nesta segunda, juntou-se a centenas de torcedores para reverenciar o maior artilheiro da história das Copas do Mundo.
O Moocaires já não comporta sozinho o tamanho da devoção. Entre 250 e 300 pessoas costumam se reunir nos dias de jogo da Argentina, espalhando a festa pela calçada e pelas ruas próximas. Desta vez, a multidão atravessou a via e ocupou também o posto de combustível em frente ao bar.
Atento ao movimento, o gerente José Rosivan alugou um telão para transmitir a partida e reforçou o clima de arquibancada com um carro de som tocando música latina. No alto, uma bandeira do Brasil divide espaço com uma do Juventus e outra da Argentina.
O resultado foi positivo dentro e fora das quatro linhas. Segundo ele, o faturamento chega a quadruplicar em dias de jogos da seleção argentina. "A torcida que não cabe lá acaba vindo para cá", resume.
A exemplo de Messias, a professora de português Ludmila Castro, de 38 anos, também nasceu do lado de cá da fronteira. Brasileira e corintiana - não necessariamente nesta ordem - , a educadora adotou a Argentina como segunda pátria futebolística. A paixão começou há cerca de duas décadas, quando o atacante Carlos Tevez desembarcou no Corinthians.
"É uma paixão de 20 anos", conta, sob os olhares de amigos que até hoje não entendem sua escolha.
Para ela, a identificação tem explicação. "A torcida argentina e a corintiana têm algo parecido. As duas carregam a paixão pelo futebol no sangue. É difícil explicar."
A rivalidade histórica entre Brasil e Argentina aparece em provocações ocasionais. Uma das músicas mais cantadas continua sendo "Brasil, decime qué se siente", eternizada na Copa de 2014.
Mas clima predominante é de convivência pacífica. Isso acontece porque muitas famílias misturam as duas nacionalidades. É o caso do policial militar Thiago Panocian, de 39 anos. Filho de pai argentino e mãe brasileira, ele encontrou uma solução diplomática para o torneio. "Torço para que os dois cheguem à final. Aí já serei campeão".
Essa mistura de identidades também faz parte da história de Cristian Galarza, proprietário do Moocaires. Argentino, morador da Mooca há 25 anos, ele construiu no bairro um espaço que considera uma referência da cultura portenha no Brasil.
Casado com uma brasileira e pai de dois filhos nascidos no País, ele admite viver um dilema que jamais imaginou enfrentar. Quando Brasil e Argentina entram em campo, o coração continua albiceleste, mas já não bate sozinho.
"Claro que torço pela Argentina. Mas também quero ver a felicidade do meu filho. Ele tem 13 anos e se identifica muito com o Brasil."